Imagem: Emma Corrin e Jack O’ Connell em cena do filme O amante de Lady Chatterley

No romance, que recentemente ganhou adaptação cinematográfica pela Netflix, o autor apresenta uma Inglaterra em decadência, que se debate com as ruínas da guerra. Esse mote, mais do que recair em uma competição formal, se entrelaça com a centralidade do romance: o amor de Connie e Mellors.

Por Giovana Proença

A fábula é simples: descontente com o casamento, uma jovem esposa inicia um caso extraconjugal. Até aqui este texto poderia se referir à Madame Bovary de Flaubert, expoente do realismo francês, ou à Anna Karênina, talvez a mais marcante personagem do russo Tolstói. Mas, nosso objetivo aqui é tratar de Lady Chatterley, Connie, que rendeu ao seu criador, o inglês D. H Lawrence – David Herbert Lawrence, na certidão de nascimento – o título de infame.  

Advinda de uma família liberal, Connie se casa com Clifford Chatterley, senhor da propriedade rural de Wragby, atraída por seus atributos intelectuais. Após um mês de núpcias, o marido é enviado às trincheiras da Primeira Guerra Mundial, de onde retorna “em frangalhos”. Com Clifford paralisado da cintura para baixo, Connie se torna apenas Lady Chatterley, a senhora de Wragby e cuidadora do marido. Apagada enquanto mulher, ela vive como uma demi-vierge.  

Por meio do universo rural e aristocrático de Wragby, Lawrence apresenta uma Inglaterra em decadência, que se distancia de suas heranças vitorianas enquanto se debate com as ruínas da guerra. Esse mote, mais do que recair em uma competição formal, se entrelaça com a centralidade do romance: o caso de Connie com Mellors, um dos empregados de Clifford e detentor de uma coleção de amores desaventurados.  

Em 2022, a adaptação cinematográfica do romance chegou ao catálogo da Netflix, assinada pela própria plataforma de streaming. A obra conta com direção de Laure de Clermont-Tonnere e Emma Corrin, intérprete da jovem princesa Diana em The Crown, no papel de Lady Chatterley. As belas paisagens, captadas com precisão na fotografia da película – grande acerto para o cinema-, escondem, em certa medida, a desolação dos anos da Grande Guerra, fator fundamental do livro.  

A direção feminina de Tonnere é capaz de suavizar a fúria feminista que Lawrence causou no século XX. Além da ocultação de debates entre Connie e Mellors acerca da natureza do sexo e dos gêneros – ainda referidos, à época, como os sexos -, o ângulo das cenas eróticas entre os personagens privilegia o teor de liberdade e realização de Connie, ponto acentuado também no romance. Se é verdade que, no tratado de Lawrence, é esperada uma espécie de renúncia feminina para o melhor acerto das relações entre homens e mulheres, é também verídico que o autor deu à Connie uma liberdade sexual rara na Inglaterra de seu tempo.  

Por meio da sondagem individual das personas d’O amante de Lady Chatterley, temos um vislumbre do turbulento momento histórico captado por Lawrence. Esse mosaico nos revela desde conflitos de gênero e o ódio de classe até o desejo e a ternura.  

É tentador, a favor de uma interpretação sócio-histórica do romance, reduzi-lo a termos simbólicos. Nessa análise, Clifford representaria a velha Inglaterra aristocrática, paralisada e incapaz de continuar a sua linhagem, enquanto a relação entre Mellors e Connie reforça uma nova ordem, vinda do que se considerava “gente comum”. De certo, um grande reducionismo. 

O amante de Lady Chatterley é o manifesto de Lawrence a favor da ternura por meio do sexo. Se pensarmos nas definições dos gregos para o amor, o autor inglês advoga que só encontramos o Ágape – o companheirismo, a fraternidade – se valorizarmos o Eros. Na visão de D. H Lawrence, o amor erótico era a base para a reconstrução da sociedade devastada pela guerra. Esta resenhista – em detrimento da leitura simbólica do romance – vê Connie e Mellors apenas como duas pessoas apaixonadas em meio ao caos. Se a Netflix nos oferece uma bela cena final com o reencontro dos amantes, no romance nos resta apenas torcer por uma ideia de triunfo sobre a barbárie.  

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Publicado por Giovana Proença

Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença