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Jul20
Maria do Rosário Pedreira
Ontem falei aqui de Pessoa e hoje não resisto a falar de Mário de Sá-Carneiro, seu grande amigo. Mas desta vez não se trata de nenhum congresso académico, antes de uma história que podia ser gossip (utilizo o inglês apenas porque a palavra é divertida) se não tivesse sido contada no último Expresso por investigadores a sério. Como calculo que saibam, o poeta Sá-Carneiro viveu em Paris alguns anos e foi no Hôtel de Nice daquela cidade que se suicidou ingerindo uma boa dose de estricnina, com uma fotografia da francesa Renée (sua amante) pousada na mesinha-de-cabeceira e umas quantas cartas deixadas para serem entregues aos destinatários. «Avisou» o seu amigo Araújo que fosse ter com ele ao hotel a uma certa hora, e este ainda o apanhou com vida mas já não conseguiu salvá-lo, chamando depois chamou Carlos Alberto Ferreira, que morava a pouco mais de uma centena de metros do hotel e era também amigo de Sá-Carneiro. No quarto do suicida havia uma mala onde se reuniram os poucos pertences do poeta, mala que foi retida porque este tinha uma dívida para com a proprietária e que lamentavelmente desapareceu; ora, por algumas cartas trocadas com Pessoa e outros amigos das letras, calculou-se até há pouco tempo que dentro da mala ficou uma série de textos inéditos perdidos para sempre... Mas agora, vejam lá como são as coisas, andando alguém de roda do espólio de Aquilino Ribeiro, encontra justamente os originais de alguns poemas do poeta de Orpheu, um conto, um livro de recortes com textos humorísticos, o bilhete de identidade, enfim, umas quantas coisas que se acreditava serem irrecuperáveis. E o grande mistério é que, apesar de Aquilino ter vivido em Paris no mesmo período que Sá-Carneiro, não há qualquer prova de que se tenham sequer cruzado (e Aquilino tê-lo-ia certamente mencionado nos seus escritos se tivesse acontecido). Crê-se que terá sido Carlos Ferreira quem, ao «arrumar» a mala, desviou alguns escritos com medo de que fossem parar a mãos erradas e os deu a guardar a Aquilino; mas não se sabe realmente se foi assim... Agora, que tem graça a obra de Sá-Carneiro seja encontrada entre os papéis do homem da Carbonária, lá isso tem. Leiam o longo artigo do último sábado e não se arrependerão. E, já agora, recomendo a poesia de Sá-Carneiro. Poemas como «Serradura» e «Caranguejola» estão entre os meus favoritos.