(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 1995)

Um leitor mais injuriado poderia acusar o selo “Nova Era” da Record de propaganda enganosa. Na capa traseira de A prova do labirinto (La prueba del laberinto,  Espanha- 1992, em tradução de Luísa Ibañez), de Fernando Sánchez Dragó, afirma-se que ele “conta a história de um detetive de 53 anos, obrigado pelos deuses, pela Confederação de Forças do Além e pelas circunstâncias a partir em busca de Jesus de Nazaré, pregador  judeu que desapareceu misteriosamente no 33º. Ano de nossa Era”. Ainda, segundo a editora, “há mistério, viagens, tensão, incerteza, emboscadas, pessoas boas e más, mulheres bonitas e mulheres piedosas, traidores, exotismo, ocultismo, tiranos, lutas políticas e religiosas, entrechocar de espadas (sic), conspirações, Reis Magos, leprosos, prostitutas, adúlteras, amor, dor, morte e até mesmo uma ressurreição”!!!!!!???????Ufa!

Parece muito para um livro só? E é, claro. Há algumas (poucas) obras que parecem conter a vida inteira: Guerra e Paz, de Tolstoi, é um exemplo, e mais ocntemporâneamente, tivemos A cidade de quatro portas ou Shikasta, de Doris Lessing. Mas o problema com A prova do labirinto é que se promete não apenas muito,  como também o que não está no livro. Tirou-se um trecho de seu contexto e falseou-se totalmente a expectativa do leitor com relação a uma narrativa decerto divertida, simpática. E também extremamente narcisista.

Dragó conta a história de Dionisio, escritor resolvido a não mais publicar e que, todavia, é pressionado por seu editor a se lançar numa pesquisa sobre a vida de Jesus. Por coincidência, esse era justamente o mais íntimo e genuíno projeto da vida de Dionisio, típico representante dos anos 1960 e que vê no retorno ao Cristo (desvinculado dos dogmas da igreja) a última opção, após passar por todas as experiências daquela década mágica e constatar que o mundo dos anos 1990 naufraga cada vez mais no materialismo, num proto-fascismo e no fundamentalismo fanático.

No que se refere aos anos 1960, o livro de Dragó chega a ser imperdível. Passa em revista os caminhos percorridos: drogas, xamanismo, Castañeda, liberação sexual, filosofias orientais, práticas meditativas, ioga; tanto que, para firmar sua decisão de ir a Jerusalém, consulta uma especialista em tarô (uma longa e interessante cena), o I-Ching, e, pasmem, os seus próprios livros, que ele se encarrega de citar, além de se referir amiúde a um grande amigo, o próprio Fernando Sánchez Dragó! Nem Woody Allen cavoucou tanto o próprio umbigo!

Já no que se refere a Jesus, as coisas são mais complicadas e, a partir da viagem, A prova do labirinto degringola, aborrece, enche lingüiça. E prova definitivamente que toda experiência mística é individual, intransferível por definição, isto é, a não ser em raríssimos casos, não dá para outrem afiançar sua veracidade, por mais simpatia que desperte. É por essa razão que 99% da literatura esotérica (e está se falando aqui da bem-intencionada) falha.

Dragó, pelo menos, tem uma sensibilidade literária um pouco mais apurada que a média (e é mais um autor que tem uma dívida com Borges, já a partir do título) e mostra que na literatura espanhola do gênero há vida mais inteligente do que a transmitida pela carreira, digamos, literária, de J.J. Benítez, o pretensioso e enfadonho autor de outra escavação da vida de Cristo, Operação Cavalo de Tróia, que (pelo menos o primeiro volume, parabéns para quem conseguiu ler os outros) é uma tortura de perda de tempo e chatice cujo único similar talvez seja uma sessão dupla e sem intervalos de Mary Poppins com My fair lady.

De todo modo, como reinvenção da figura de Cristo, o livro de Sánchez Dragó é pífio. Aparecem, contudo, algumas “emboscadas” e algumas “conspirações”, tal como prometido pela editora. Quanto ao “entrechocar de espadas”, só se ela estiver se referindo a uma passagem em que o narrador cinquentão risivelmente resolve liberar sua porção mulher que até então se resguardara numa experiência gay que eu não consigo sequer descrever, mas que é considerada por ele uma escala essencial no seu encontro com o “homem de Nazaré”. Ou, segundo as conclusões do relato, com “o homem do Egito”. Que seja. Pouco importa.