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| Fotografia da minha autoria |
«É tão doce ouvir»
A quantidade de vezes que cantarolei Amanhã de Manhã, Bem Bom ou Ok Ko é inacreditável, mas fruto das letras irreverentes e inesquecíveis. Numa fase prematura do meu crescimento - e conhecimento musical -, não tinha capacidade para compreender as possíveis camadas daqueles versos. Porém, tornaram-se recorrentes no meu reportório. Porque, preferências à parte, as Doce souberam apostar na longevidade, mesmo que tenham passado por várias formações. Portanto, conhecer a sua história só se poderia revelar interessante.
O primeiro passo foi a longa-metragem, nos cinemas. Posteriormente, a RTP voltou a apostar numa série de ficção, concentrando-se na maior banda feminina portuguesa. Baseada em factos reais e com uma interpretação artística de alguns deles, ficamos a conhecer o caminho menos glamoroso da fama e do percurso que Fátima Padinha, Teresa Miguel, Laura Diogo e Lena Coelho foram traçando, numa sociedade marcada por «40 anos de ditadura e pelo preconceito». Num tempo em que a voz da mulher era diminuída, fizeram valer os seus ideais, quebrando várias barreiras, até porque não chegaram para desistir ao primeiro contratempo.
O filme - Bem Bom - permanece em lista de espera, mas a série devorei-a. Porque é emocional, divertida e viciante. Não só pela componente musical, mas também pela abordagem pessoal e individualizada de cada elemento. Embora a história nos seja contada «pelo olhar das quatro protagonistas», o argumento fica enriquecido «pelo círculo de pessoas que lhes são mais próximas», pelas contrariedades, pelos [des]amores, pela relação com a editora e pela própria dinâmica entre as cantoras - por vezes, tão exigente e intensa. E, claro, pela maneira como foram sobrevivendo às sentenças conservadoras que as impediam de progredir.
Senti-me a viver cada episódio com o coração perto da boca e com uma revolta constante a inquietar-me o peito, atendendo a que foram alvo de um sexismo gritante, de descrença, de assédio, de notícias falsas e de um escrutínio público quase sufocante. E é impressionante como estes assuntos continuam atuais e a assumirem proporções nefastas, em pleno século XXI. Assim, percebe-se que existe uma ponte entre o passado e o presente, que nos consciencializa para as dificuldades de singrar num meio artístico tão fechado.
As Doce ousaram, abdicaram de uma série de questões em prol da carreira e vieram revolucionar o panorama da música nacional, suavizando a rota de gerações futuras. Espelhando a intolerância, a mensagem é dura, mas igualmente necessária e fascinante, porque contactamos com três fases centrais: a criação, o sucesso e o término do grupo. Além disso, somos confrontados pela condição da mulher, no início da década de 80.
Acompanhar esta série foi uma montanha russa de emoções. Mas todas fundamentais, visto que nos levam a refletir sobre o que é exposto e o que fica guardado atrás das cortinas, longe dos holofotes do palco. Ao longo de sete episódios, salientam-se as lutas internas e externas, as perdas, as conquistas, os dramas, os medos e a força de cada uma das Doce. Com muito humor à mistura, é um formato que inspira. E que transborda de empoderamento feminino. A banda mais icónica deste jardim à beira-mar plantado fez mesmo história.
