Em julho de 1970, uma jovem estudante de Vincennes enviou a Jean Starobinski (1920-2019) um questionário sobre suas motivações literárias. Ele respondeu com a discrição elegante que lhe era característica, delineando de forma breve, mas precisa, a ideia que tinha das próprias razões para escrever. As respostas foram publicadas na Gazette de Lausanne sob o título “Pourquoi j’écris”.

Décadas depois, a entrevista foi reproduzida em La beauté du monde: La littérature et les arts, uma coletânea de ensaios e entrevistas do autor suíço publicada pela Gallimard. Compilados em mais de mil páginas, os textos revelam a capacidade de Starobinski em conciliar erudição e sensibilidade, fazendo da crítica um espaço de escuta, atenção e humanidade — postura exemplar do intelectual que manteve uma notável atuação entre a psiquiatria e a reflexão literária.

Autor de estudos decisivos sobre Rousseau, Montaigne e Baudelaire, entre tantos outros artistas e escritores, Starobinski tornou-se uma referência na história das ideias e na história da medicina, com obras incontornáveis sobre a melancolia na cultura ocidental. Ao revisitar, portanto, o questionário respondido em 1970, reencontramos o crítico em sua forma mais íntima: a partir da reflexão sobre o ato de escrever (e de ser lido), ele deixa entrever a coerência profunda entre sua biografia e sua prática intelectual.

A seguir, leia o conteúdo em tradução inédita para o português.

Foto: Jacques Sassier © Éditions Gallimard.

Para quem o senhor escreve?
Para o leitor cuja imagem se cria no próprio trabalho com o texto. Leitor exigente, trabalho difícil: daí minha preocupação com a clareza, com a racionalidade. Eu moldo um outro leitor, um leitor melhor, ao me corrigir. O leitor está sempre no futuro, alvo que a flecha inventa para si. 

O senhor escreve: Para tentar resolver problemas pessoais? Para estabelecer um contato com os outros? Pelo prazer de inventar outros universos? Para entender a realidade mais de perto? Contra alguém? Contra alguma coisa?
Contra a obscuridade, a confusão, o esquecimento, a morte? Para melhor compreender e fazer compreender melhor. (Compreender é transformar o mundo.)

Em que medida seus livros são autobiográficos?
Na medida em que aquele que mais completamente se esquece de si não pode evitar trair-se, manifestar-se.

Como o senhor escreve, com prazer ou com disciplina?
Frequentemente com desconforto, algumas vezes com prazer. A disciplina deve ter se tornado um hábito. Eu não a percebo. 

O senhor se considera um “écrivain” ou um “écrivant”?
Não quero me impor nenhuma proibição. A poesia e as “ideias” não são excludentes.

Para o senhor, o que é uma vocação, um dom de escritor?
A energia do desejo ao encontro da linguagem, para fazer dela ao mesmo tempo o seu meio e o seu fim.

O senhor deseja que o público o admire?
O público do ensaísta, do crítico, é um público virtual e disperso. Não tem nada em comum com o público reunido numa sala de espetáculo. Ademais, não gosto da oposição escritor–público, que implica uma certa forma de se colocar em exibição ou à mercê dos outros. Escrevo para meus amigos, imaginando-os inumeráveis. 

Se as críticas fossem negativas, o senhor continuaria a escrever?
Isso depende da estima que eu tenho por tal ou tal crítico. Para o escritor, eu acho que o fracasso de um livro é significativo pela recusa dos editores, não pelas críticas desfavoráveis. Um fracasso como escritor reforçaria em mim o lado “écrivant” (história das ideias, pesquisas filosóficas, etc.).

O senhor acredita nos livros? Caso contrário, por que escreve, então?
Eu acredito nos livros como acredito nas casas e nas árvores. 

Pensa que escrever é um fenômeno burguês, que é preciso um certo coeficiente de luxo e de não-trabalho para escrever? 
Sim, mas isso não é um argumento contra a literatura; é, ao contrário, um argumento para a burguesia. (O que é um burguês? Alguém que pôde adquirir um pouco de segurança para o amanhã. Uma condição que seria tolice pretender abolir, já que, ao contrário, é urgente generalizá-la.)

O senhor recorda o que determinou o nascimento de sua decisão de escrever?
Não houve uma decisão inaugural. Houve o surgimento de uma possibilidade de escrever, seguido do estímulo renovado, vindo dos outros. Um primeiro texto crítico, encomendado pelo Suisse contemporaine, suscitou a demanda de um outro texto, etc. Eu não crio nenhuma dificuldade em reconhecer que meu desenvolvimento “interior” foi tributário da solicitação “exterior”, até mesmo na escolha dos meus temas, isto é, dos meus objetos de desejo. (Mas o homem não se constrói em uma dialética permanente entre o dentro e o fora?) 

Pensa que a vida lhe proporcionará sempre o que escrever?
Não temo que a vida se esgote. (Talvez seja a relação entre a vida e a morte que nos forneça material para escrever, e essa é uma fonte inesgotável.)

O escritor lhe parece separado do real? Parece-lhe que ele vira as costas para a História?
Questão teológica, cujo equivalente outrora foi: o escritor vive em pecado? Ele é separado da graça? Eu respondo que, o que quer que faça, o escritor não pode deixar de pertencer à História. Ele a faz (às vezes não pior do que todos os outros, às vezes até um pouco melhor do que aqueles que se dedicam à ação). 

O senhor pensa, como Flaubert, que escrever não é nunca senão uma maneira de viver “noutro lugar”? Como Sartre, que um “escritor é um homem que sempre mais ou menos escolheu o imaginário”?
Sim, sob a condição de que não façamos do imaginário um pecado. O imaginário é uma dimensão importante da realidade humana. (Nós morremos da privação do sono; vivemos mal sem os sonhos.) O essencial é que o outro lugar seja posto em relação com o aqui; que o imaginário seja integrado ao conjunto de seus comentários. De outro modo, é autismo, ou esquizofrenia…

Aragon diz que é a escritura que guarda o pensamento, e não o inverso. O que pensa disso?
A escrita é um pensamento que induz o pensamento. É o nosso poder operacional que regula o seu desenvolvimento e as suas transformações.


Júlia Corrêa da Rocha, responsável pela tradução acima, é jornalista, doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e editora do Estado da Arte. Pesquisadora da obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, integra o grupo de pesquisa Literatura, Estilística e Hermenêutica, dedicado ao estudo e à tradução da obra de Karl Vossler, Erich Auerbach, Leo Spitzer, Jean Starobinski e outros importantes representantes da tradição estilística europeia.