poemas lidos durante a apresentação de Ney Ferraz Paiva

na XVII Feira Pan-Amazônica do livro │ 2013

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EU QUERIA ESTAR COM VOCÊS HOJE

nº 23 da fitzroy road

a porta era estreita negra

nem mesmo você a pode atravessar

chuva neve tempestade

o mal residia ali

antigo cão da família

depois de tudo você voltaria

rara intuição da surpresa

desperta de todos os cansaços

em sua torção de sereia

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tive um caso com anne sexton

tive um caso com Anne Sexton

acho que foi o período da vida
 em que ela menos foi triste
talvez mesmo estivesse alegre
experimentasse rir fumar falar
 ao mesmo tempo
um esforço do amor
a que se entregou comigo
depois foi preciso escapar
de volta à poesia –
corpo espetacularmente nu

marcado pela vida
barriga & crânio abertos

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imagens pesam mais do que o mar
alessandra negrinni como a vi em seus quarenta anos

ela não ri: move-se esquiva de um lado a outro

anda a casa como se fizesse fotos
pés trocados olhar confuso
faz pose pra ele pra o deter de quem?
fisicamente opostos & partidos
o mundo vira de ponta-cabeça
ele a olha com expressão vazia
voz baixa fala devagar
diz ter um problema enorme
precisa urgentemente viajar
ir ao mar ao fogo às nuvens
“ou quem sabe de um bom xampu anticaspa”
sempre diz isso pra fazer as pessoas rirem
ela não ri ele pergunta “por que você não ri?”
desde pequena que não sabe

rir nem dos pequenos dramas
“ria se alguém está sofrendo
perto de você – por causa de você”
pra ela o inferno é isso
ele nada sabe a respeito
não presta muita atenção
suspensa no ar sem deixar

as coisas como exatamente são

ela faz outra pose transfigurada

espera detê-lo a seu próprio enigma

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livro de que não me livro

a teus pés ana cristina cesar

ainda é o livro dela

passados tantos anos

podem ver a boa forma

não há nada enrugado

se viro a página jorra vida

espontaneidade do instantâneo

de algum lugar ela retorna

passo alado estonteante

ainda o ar de desafio no rosto

irmã de um lado mulher fatal do outro

reversível inversa à beira do silêncio

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eu queria estar com vocês hoje

ganhei coragem pra dizer a ela

 não gosto de Cindy Sherman

prefiro Otto Stupakoff ou Larry Clarck

por uma    razão bem simples

o mundo do homem em geral

tem menos constrangimentos

eles se dizem homens  & são

 o que anelam ser

mulheres se põem a discutir

 personagens a que se mesclam

auto-incluindo interioridades

dramas cenas de todo tipo

 brutos disfarces entre nós

eu prefiro Francesca Woodman

revoluteando o corpo cada vez

 mais depressa

morta na sala: simples fácil alegre

ela se aproxima faz cintilar a cena

por danças palavras em conexão

parece querer estar comigo hoje

arfa precipita-se contra a parede

tenta vencer pela velocidade

 a dor

vê-se a câmera mexer – tensão dos

 corpos à maneira do teatro de Artaud

depois dela nenhuma mulher pode

 dizer “eu sou fotógrafa”

sem conhecer a bílis &

 os rumores do gesto

sua espiral muito louca

sem aspirar ser cinema

sem soletrar literatura

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poesia completa – com quem anda o poeta

e deslocamentos doem

D.H. Lawrence

tudo errado desde o começo

travessia assente em fragmentos

acasos    fissuras    interditos

tempo de embebedar cavalos

ganhar a vida com livros

objeto incerto de design

talvez eu venda sapatos

respire ciclópicos rastros

a cara enfiada em botinas

calçar a palavra não voltar atrás

ney ferraz paiva

do livro “arrastar um landau debaixo d’água”   2013