09/04/2012 · 9:03 AM

Marcus Antonius

Primeira parte da série “Vitórias sem esperança”

Hoje andei muito, como um soldado, mas pensando como um general.

Muanmar Kadafi.

É o efeito da cidade. Antes os sintomas da doença eram imperceptíveis, mas agora são quase palpáveis. Deve ser o clima, o prédio, o ônibus ou a fila da loja. Ou nada disso. É o suor nos braços, o mofo nas paredes, o zumbido do mosquito e a fila no banco. E nada disso.

O veneno jorra dos bueiros e escorre das paredes, formando um lago gigante, quase onipresente. Minha canoa: pedaços de amigos e inimigos amarrados por cordas e pensamentos. É certo que uma hora ou outra essa porcaria vai virar. É patético. Até os donos do lugar (ratos e pombos) divertem-se com o circo que administram, como se não conhecessem previamente tudo que faz parte do espetáculo. Eles podem prever até o tipo de improvisação que cada personagem é capaz de realizar. Igualmente patético – para nós e para eles.

Nada aqui faz sentido. Corre pelos becos o boato de que o que mais desagrada os quatro membros do grupo local de resistência é imaginar que este pequeno caso corre o risco de ser esquecido devido aos efeitos das insondáveis leis do acidente, do acaso e da injustiça. Desconfiam eles que esta pode se tornar apenas mais uma de outras coisas que não farão sentido em pouco tempo.

O que acontece é simples:

eu queria poder editar a cidade do meu jeito / Mas não posso.

Dessa forma, pessoas e esquinas merecem a violência da minha vingança, que crescerá com o fogo e a fúria do inferno. Não consigo sequer chorar por elas. Estas esquinas e estas pessoas não merecem. O plano é simples: destruir tudo e partir rumo ao oeste.

Mas se tudo der errado, querido diário, é bom deixar avisado. Acostume-se com a ideia de que esta noite pode ser a nossa última.

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