Fotografia da minha autoria

«As diferenças que unem»

Avisos de Conteúdo: Referência a Estereótipos

Os livros derrubam barreiras e serão sempre uma arma poderosa para combater a desinformação e, sobretudo, para normalizar realidades que merecem ser aceites sem qualquer tipo de preconceito ou diminuição. Entre fronteiras serão edificadas pontes que unem as diferenças, por esse motivo, Lúcia Vicente e Tiago M. trabalharam em conjunto para fazerem nascer um livro infantojuvenil sobre inclusão e diversidade.

PROTEGER AS CRIANÇAS DE VALORES BAFIENTOS

O lançamento da obra estava marcado para dia 22 de setembro e aquilo que se esperava que fosse um momento de celebração acabou marcado pela invasão de um grupo de militantes, cujo único propósito era silenciar os intervenientes que, através da sua arte, procuram construir um mundo mais empático, mais seguro.

Esta demonstração de ódio, que replica valores bafientos, só demonstra que a literatura incomoda, porque desconstrói estereótipos. Portanto, sabemos que a luta está longe de chegar ao fim, mas, como o amor é o maior argumento contra discursos discriminatórios, será de amor que continuaremos a revestir os nossos passos. E falo, naturalmente, no plural, porque acredito que todos temos a capacidade de fazer a diferença.

Foi angustiante assistir ao vídeo que a autora partilhou, não só pela violência verbal, mas também por continuarem a usar as crianças como justificação para os seus preconceitos. Querem proteger as crianças? Eduquem-nas para a diferença, para a aceitação, para a tolerância. Eduquem-nas para olhar para o outro com respeito e de coração aberto, de igual para igual, abraçando tudo aquilo que as diferencia. Não me digam que as querem proteger, quando as vossas palavras só demonstram o quanto as querem diminuir, restringir a um espaço que não é de todos. Não alimentem a censura, respeitem a liberdade que lhes pertence por direito.

É lamentável que, em 2023, se reproduzam estes comportamentos retrógrados, que entidades assistam a tudo de um modo tão passivo e que continue a ser urgente lutar pela liberdade de expressão, pela liberdade de ser e pela equidade. Mas podem vir de megafones, que nós encontraremos sempre maneira de falar mais alto.

UM BAIRRO QUE É DE TODOS

No Meu Bairro divide-se pela história de doze crianças, representando a vida em comunidade, com todas as limitações e individualidades que isso simboliza. Assim, partindo das interrogações de personagens específicas, fazemos uma travessia pela «diversidade de género, familiar, racial ou de credo religioso».

«O que interessa o meu cabelo

ou o que trago vestido?

Querem saber uma coisa?

Nem sei ainda como me identifico»

É o primeiro livro infantojuvenil a utilizar o sistema gramatical neutro ELU, fomentando um espaço inclusivo. Nas palavras da autora, quanto mais depressa as crianças tiverem contacto com este sistema, mais depressa o usarão no seu quotidiano. E aquilo que, num momento inicial, poderá ser revestido de estranheza, passará a ser normalizado, contribuindo para uma maior aceitação: «Todas as pessoas têm direito à sua identidade».

«Sim, na tradição são diferentes

No seu coração sentem como nós»

As histórias em forma de poema, acompanhadas por ilustrações lindíssimas, confrontam-nos com uma série de problemáticas sociais, muitas delas estruturais, que contribuem para o perpetuar de estereótipos. Mas, nestas páginas, a missão é clara: evidenciar a diversidade e fornecer ferramentas para que o respeito pela individualidade nunca seja comprometido. Assim, temos doze retratos que espelham a realidade de tantos mais, temos doze retratos que nos fazem pensar no nosso papel social, para que seja menos limitador.

«Afinal, o que era "cor de pele"?»

Nenhuma criança deveria ser obrigada a fingir ser alguém que não é, nenhuma criança deveria sentir que a sua identidade é menos válida, que as suas diferenças são argumento suficiente para a marginalização. Perceber as consequências que esses comportamentos têm no seu crescimento, encaminhando-os para diferentes formas de abismo, não nos pode deixar tranquilos, enquanto sociedade, porque lhes retira paz. Ainda assim, No Meu Bairro traz esperança e acredito que pode mesmo ajudar a mudar mentalidades.

«Quem decidiu o que os meninos podem vestir?

Qual é a razão para se impedir ou proibir?»

No final do livro há, ainda, um manual de apoio e outros títulos que podemos ler, porque a informação é essencial. Independentemente do contexto, chegou para nos fazer entender que há espaço para todos.

🎧 Música para acompanhar: Chelas, Sara Correia

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