O valor simbólico do xadrez como estilização da guerra é um lugar comum. Algumas pessoas estão levando isto a um notável grau de estetização. Os artistas Debbie e Larry Kline estão colocando à venda no saite MegaChess (http://www.megachess.com/sunusualstuff.htm) um jogo de xadrez intitulado "The Game at Hand", em que as peças brancas e pretas simbolizam respectivamente a coalizão liderada pelos EUA no Iraque/Afeganistão e os terroristas islâmicos. As peças são feitas manualmente, uma a uma, o que faz com que o jogo completo, incluindo tabuleiro, caixas, etc., custe a pechincha de 4.350 dólares.

O mais interessante do jogo (que aliás não me parece muito "jogável", do ponto de vista de quem vai usá-lo para uma partida de verdade) é a concepção que os artistas dão a cada uma das peças, feitas em cerâmica. Vejamos as Brancas, em primeiro lugar. O Rei é representado por três pilhas de moedas douradas, de diferentes tamanhos, que vistas de certo ângulo parecem duas e lembram um pouco a silhueta do falecido World Trade Center. A Dama ou Rainha é uma reprodução estilizada da Estátua da Liberdade. Visto em conjunto, o casal real é simbólico e expressivo. Os Bispos brancos são representados por duas figuras religiosas: um Papa católico e um Rabino judeu, com vestes longas, bem parecidas. Os dois Cavalos são representados por um tanque e um avião-caça pilotados por dois soldados. As duas Torres são, adequadamente, representadas por duas construções bem sólidas: uma miniatura do Pentágono e outra da Casa Branca. E os oito peões, claro são pequenos soldados de metranca em punho.

E quanto às peças pretas? Aqui vem um pulo-do-gato da imaginação dos artistas. Em vez de tentar encontrar equivalentes aos personagens das peças brancas (sob a forma de minaretes, califas, aiatolás, etc.) eles criaram dezesseis peças pretas praticamente iguais entre si, silhuetas negras vestidas de burka e chamadas de "Extremistas Islâmicos". É impossível distinguir quem é rei, dama, peão, cavalo, torre, bispo... Só é possível saber quem é quem se memorizarmos, ao longo da partida, onde cada peça estava na formação inicial -- o que não é tão difícil assim, para um enxadrista experimentado. Mas é um estresse a mais. E reproduz (pelas intenções dos artistas) a sensação de incerteza permanente de quem combate terroristas.

O xadrez fabricado pelo casal Kline não tem pretensões de jogabilidade, mas de alegoria. Suas peças brancas, representando o Ocidente capitalista, são fortemente individualizadas, distinguíveis entre si, e carregadas de um valor simbólico que se percebe ao primeiro olhar. Já as peças que representam as Pretas, o Oriente misterioso ou “o Eixo do Mal” como afirma George Bush, são incógnitas. Exprimem a ameaça onipresente. Exprimem a impessoalidade de criaturas sobre cuja natureza nunca podemos ter certeza alguma. Exprimem a maior ameaça ao Ocidente: sua imensa ignorância sobre o inimigo que enfrenta.