Por Luciene Azevedo

Yuri Firmeza, “Vida da minha vida”, 2011, video-instalação.
Chama a atenção no cenário contemporâneo das artes, o incrível número de narrativas que lançam mão da primeira pessoa. Não me parece que essa incidência seja um privilégio do campo literário. Um passeio despretensioso pela cena atual dá a dimensão de como o eu, a narrativa de si, é proeminente em vários estratos de nosso contemporâneo.
No cinema, Los Rubios (2003) da argentina Albertina Carri ou mesmo o brasileiro Santiago (2007) de João Moreira Salles, nas experiências teatrais de Vivi Tellas e de seu Biodrama, nas fotos de Francesca Woodman, ou nas performances de Sophie Calle encontramos narrativas que ficcionalizam a vida de seus autores que são também personagens das histórias.
Pensando mais especificamente na literatura é possível perceber como muitas narrativas que exploram uma dimensão autobiográfica no relato colocam em xeque o entendimento delas como romances, pois, muitas vezes, regozijavam-se com a banalidade e a trivialidade não apenas do que contam, mas também da forma como o fazem, simulando muitas vezes um conjunto de anotações que parecem preparar a escrita de uma “obra”. É possível lembrar aqui do diário-romance do autor uruguaio Mário Levrero, por exemplo: “não estou escrevendo nada que valha a pena, mas estou escrevendo” ou “só anotando coisas, mas não sei para quê”.
Assim, as narrativas assemelham-se muito a um conjunto de anotações, a textos que parecem meras anotações de si e que dão à escrita um caráter de laboratório, fazendo da figura autoral um verdadeiro curador de si e de sua própria obra. É o que parece estar em jogo se observamos a produção de David Markson ou os livros do autor americano Ben Lerner.
Basta que nos aproximemos de quaisquer dessas obras para perceber que há algo funcionando como um rascunho, como esboço inacabado de um processo que se dá a ver ainda em elaboração e que, no entanto, nos é entregue já como obra acabada e por isso a expressão “estado de estúdio”, utilizada pelo crítico argentino Reinaldo Laddaga parece servir como uma luva para concretizar o que julgo um procedimento muito presente nas narrativas contemporâneas.
Flertando com a prática da anotação, os romances parecem exceder a forma do próprio romance, expondo ao leitor a manufatura do processo de composição, a possibilidade de explorar o relato do trabalho com a manufatura da obra, revelando os andaimes da escrita e apostando na “potência dos processos contingentes e estruturalmente inconclusos”, para falar nos termos de outro crítico argentino, Alberto Giordano.
E se ainda é possível falarmos em nome da literatura, é porque talvez ela esteja sendo expandida, forçada em seus limites, por uma espécie de estética da anotação, que, tal como Barthes preconizava, apela a uma simplicidade, que, embora seja difícil de caracterizar, é marcada pelo gesto de recolha de trivialidades do cotidiano, do autor, do personagem, pela ordinariedade das vidas de escritores (não raramente autorretratados de maneira muito derrisória), pela incorporação do acaso, sugerindo uma coleção de histórias sempre incompletas que se dão a conhecer em seu estágio de montagem.