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Tema: Um livro natalício

O simbolismo atribuído a datas específicas é o que as torna, naturalmente, especiais. Porque revelam a sua essência e o modo como nos relacionamos com ela. Crescida no seio de uma família que prioriza elos de companheirismo, de afeto, de fé, de união, de empatia, de amor ao próximo, «fazendo o bem sem olhar a quem», compreendi que estes são os pilares basilares da quadra natalícia. Portanto, para corresponder ao último tema de Uma Dúzia de Livros, optei por abraçar uma obra que os evidencia, da inigualável Sophia de Mello Breyner Andresen.

Uma Noite de Natal tem um dialeto terno. Relacional. Envolvente. Mágico. Que fascina miúdos e graúdos, uma vez que a sua mensagem nos transcende - e comove - a todos. A história em si pode não ser a mais surpreendente, a mais original, mas tem uma alma honesta, que valoriza as ligações interpessoais. O aceitar e respeitar o espaço do outro. E a própria harmonia proveniente da natureza, sempre como elemento central, estabelecendo uma ponte entre outros contextos narrativos da autora - como alguém mencionou, parece que o Manuel habita a floresta d' O Cavaleiro da Dinamarca. Além disso, reforça o altruísmo da partilha e o espírito de autoconsciência, sobretudo, quando se percebe que se tem tanto e que há quem tenha tão pouco. E, claro, homenageia o que nos mantém conectados e, inúmeras vezes, a salvo: a amizade.

Neste livro, de cariz pedagógico e com uma temática forte, encontramos detalhes maravilhosos e duas formas distintas de viver esta época cheia de luz, colocando em perspetiva a sua celebração, atendendo a que confronta a pobreza e a abundância; a que opõe uma família com uma mesa farta e decorações luxuosas a um menino que nem uma casa, propriamente dita, tem. E este retrato faz-nos refletir. Faz-nos sair da nossa bolha. E enfrentar a realidade. No mesmo compasso, ensina-nos a sermos mais gratos. Mais atentos. E a pensar mais nos outros, cuidando do seu bem-estar. Porque, embora não possamos garantir uma consoada digna e aconchegante para todos, somos capazes de fazer a diferença na vida de alguém, se formos mais como a Joana e não vivermos, unicamente, concentrados no nosso umbigo, pois não estamos sozinhos. E esta estrada precisa de mais corações em sintonia.

A Noite de Natal transporta-nos para o nosso imaginário infantil, embalando-nos na lírica tão característica da poetisa Sophia. Envolvida numa simplicidade doce, representando, ainda, o nascimento de Jesus, esta história aborda valores como a solidariedade, a presença e a igualdade. E, por esse motivo, será sempre atual.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha» [p:7];

«- E onde é que brincas?

- Brinco em toda a parte» [p:10];

«Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam...» [p:17];

«E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras, Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar» [p:29];

«O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz» [p:31].

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