E S C R E V E R
Marguerite Duras
Tradução: Rubens Figueiredo
⁂
É numa casa que a
gente se sente só. Não do lado de fora, mas dentro. Em um parque, há pássaros,
gatos. E de vez em quando um esquilo, um furão. Em um parque a gente não está
sozinha. Mas dentro da casa a gente fica tão só que às vezes se perde. Só agora
sei que permaneci na casa dez anos. Sozinha. E para escrever livros que
mostraram, para mim e para os outros, que eu era a escritora que sou. Como isso
aconteceu? E como isso pode ser expresso? O que posso dizer e que o tipo de solidão
que há em Neauphle foi feito por mim. Para mim. E que é apenas dentro dessa casa
que fico só. Para escrever. Não para escrever como havia feito até então. Mas
escrever livros desconhecidos para mim, e nunca previamente determinados, por
mim nem por ninguém. La escrevi Le
Ravissement de Lol V. Stein e Le Vice-cônsul.
E outros depois desses. Compreendi que eu era uma pessoa sozinha com a minha
escrita, sozinha e muito distante de tudo. Isso durou dez anos, talvez, não sei
mais, raramente contei o tempo que passei escrevendo e qualquer outro tempo.
Contei o tempo que passei esperando por Robert Antelme e Marie-Louise, sua
jovem irmã. Depois, não contei mais nada.
Le Ravissement de Lol V. Stein e Le Vice-cônsul, eu os escrevi lá em cima, no meu quarto, aquele de armários azuis, hoje, que pena, destruídos por jovens pedreiros. Às vezes eu também escrevia aqui, nessa mesa da sala.
Guardei essa solidão
dos primeiros livros. Ela me acompanha. Minha escrita, eu sempre a levo comigo,
aonde quer que eu vá, Paris, Trouville. Ou Nova York. Foi em Trouville que cai
na loucura de me tornar Lola Valérie Stein. Foi também em Trouville que o nome
de Yann Andréa Steiner me veio com uma evidencia inesquecível. Foi há um ano.
A solidão da escrita
e uma solidão sem a qual o texto não se produz, ou então a gente se acaba,
exangue, de tanto procurar o que escrever. Sem sangue, o autor não reconhece
mais o seu texto. E acima de tudo e necessário que ele nunca seja ditado a
qualquer secretaria, por mais hábil que ela possa ser, e que nessa fase o texto
nunca seja mostrado a um editor.
É sempre necessária
uma separação da pessoa que escreve livros em relação às pessoas que a rodeiam.
É uma solidão. É a solidão do autor, a solidão da escrita. Para começar, o
autor se pergunta que silencio é esse ao redor de si. E praticamente em cada
passo que ele dá no interior de uma casa, e em todas as horas do dia, em todas
as luzes, tanto as do lado de fora como as lâmpadas acesas do lado de dentro.
Essa real solidão do corpo transforma-se na outra, inviolável, a solidão da
escrita. Eu não falava sobre isso com ninguém. Nesse período da minha primeira solidão
eu já havia descoberto que escrever era o que eu precisava fazer. Eu já tinha
sido aprovada por Raymond Queneau. O simples veredito de Raymond Queneau, aquela
frase: “Não faça mais nada a não ser isso, escrever.”
Escrever, essa foi a única
coisa que habitou minha vida e que a encantou. Eu o fiz. A escrita não me
abandonou nunca.
Meu quarto não é uma
cama, nem aqui, nem em Paris, nem em Trouville. É uma certa janela, uma certa
mesa, a intimidade com a tinta preta, marcas de tinta preta impossíveis de
achar em outro lugar, e uma certa cadeira. É certos hábitos que reencontro
sempre, a onde quer que eu vá ou esteja, mesmo nos lugares em que não escrevo,
como quartos de hotel, por exemplo, o habito de sempre ter uísque na minha mala,
para o caso de insônias ou súbitos desesperos. Durante aquele período eu tive amantes.
Raras vezes fiquei sem amante algum. Eles se acostumavam a solidão de Neauphle.
E, como seu encanto, ela as vezes lhes permitia escrever livros. Eu raramente
dava meus livros para meus amantes lerem. Aos amantes, as mulheres não devem
mostrar os livros que estão escrevendo. Tao logo terminava um capitulo, eu o
escondia. A coisa e tão verdadeira, no que me toca, que eu me pergunto como e possível
ser de outro modo quando se é mulher e se tem um marido ou um amante. Nesse
caso, também se deve esconder dos amantes o amor do marido, O meu nunca foi substituído.
Sei disso a cada dia da minha vida.
Esta casa e o lugar da solidão, no entanto da para uma rua, uma praga, um tanque muito antigo, a escola da cidade. Quando o tanque fica congelado, algumas crianças vêm patinar e me impedem de trabalhar. Não mando embora essas crianças. Tomo conta delas. Todas as mulheres que tiveram filhos tomam conta dessas crianças, desobedientes, doidas, como todas as crianças. Mas que medo, cada vez pior. E que amor.
A solidão não se
encontra, se faz. A solidão se faz sozinha. Eu a fiz. Porque resolvi que ali eu
deveria ficar só, para escrever livros. Foi assim que aconteceu. Eu estava
sozinha nesta casa. Eu me fechei — eu tive medo também, e claro. E depois eu amei
esta casa. Esta casa se tornou a casa da escrita. Meus livros saíram desta
casa. Desta luz também, do parque. Desta luz que reverbera no tanque. Precisei
de vinte anos para escrever isso que acabei de dizer.
Da para caminhar de
uma ponta a outra dentro desta casa. Sim. Da para ir e voltar também. E depois há
o parque. Lá, existem arvores milenares e arvores ainda jovens. Há lariços, e
macieiras, uma nogueira, ameixeiras e uma cere- jeira. O pé de abricó morreu.
Na frente do meu quarto, há aquela roseira formidável de L’Homme Atlantique. Um salgueiro. Há também cerejeiras-do-japão,
palmas-de-santa-rita. E embaixo de uma janela da sala de música há uma camélia,
que Dionys Mascolo plantou para mim.
Primeiro troquei a mobília
da casa, depois mandei pintar as paredes de novo. E então, talvez dois anos
depois, minha vida com a casa teve inicio. Aqui terminei Lol V. Stein, redigi o final do livro aqui e em Trouville, a
beira-mar. Sozinha não, eu não estava sozinha, havia um homem comigo naquele
tempo. Mas não falávamos disso. Como eu escrevia, era preciso evitar falar
sobre livros. Os homens não suportam isso: uma mulher que escreve. E cruel para
o homem. E difícil para todos. Exceto para Robert A.
Em Trouville, porem,
havia a praia, o mar, a imensidão do céu, das areias. E era isso a solidão. Foi
em Trouville que contemplei o mar até o nada. Trouville e uma solidão para a
vida inteira. Ainda tenho essa solidão, inexpugnável, a minha volta. Por vezes,
fecho as portas, corto o telefone, corto minha voz, não quero mais nada.
Posso dizer aquilo
que quero, e não descobrirei jamais por que razão se escreve e como não se
escreve.
Às vezes, quando
estou aqui sozinha, em Neauphle, reconheço os objetos, como um radiador. Lembro
que havia uma tabua grande em cima do radiador e que muitas vezes eu me sentava
nessa tabua para ver os carros passar.
Aqui, quando estou
sozinha, não toco piano. Não toco mal, mas toco bem pouco porque acredito que não
posso tocar quando estou só, quando não há ninguém senão eu na casa. E muito difícil
de suportar. Porque isso parece ter um sentido drástico. Porem, em certos casos
bem pessoais, só a escrita faz sentido. Pois eu a manejo, a prático. Ao passo
que o piano e um objeto distante, ainda inacessível, e para mim sempre o mesmo.
Creio que, se eu tivesse tocado piano profissionalmente, não teria escrito
livros. Mas não tenho certeza. Acho mesmo que é falso. Acho que teria escrito
livros de um jeito ou de outro, mesmo no caso da música paralela. Livros ilegíveis,
mas completos. Tao longe de todas as palavras quanto o desconhecido se encontra
de um amor sem objeto. Como o de Cristo ou o de J. S. Bach — ambos de uma equivalência
vertiginosa.
A solidão também quer
dizer isso: ou a morte, ou o livro. Mas antes de tudo quer dizer álcool. Quer
dizer uísque. Até agora, nunca fui capaz, nunca mesmo, realmente nunca, ou
talvez fosse preciso procurar bem longe... nunca fui capaz de começar um livro
sem terminar. Nunca fiz um livro que não fosse minha razão de ser na hora em
que está sendo escrito, e isso vale para qualquer livro. E em toda parte. Em
todas as estações do ano. Essa paixão, eu a descobri aqui em Yvelines, nesta
casa. Eu tinha afinal uma casa onde me esconder para escrever livros. Queria
viver nessa casa. Para que? Começou desse jeito, como uma brincadeira. Talvez
escrever, disse a mim mesmo, quem sabe eu sou capaz? Já havia começado livros
que deixara de lado. Esquecera até os títulos. Le Vice-cônsul, não. Eu não o abandonei, penso nele muitas vezes.
Em Lol V. Stein não penso mais. Ninguém
pode conhece-la, L. V. S., nem vocês nem eu. E mesmo aquilo que Lacan disse a
respeito do livro, eu nunca cheguei a entender direito. Lacan me deixava
atordoada. E aquela sua frase: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que
escreve. Porque ela se perderia. E isso seria uma catástrofe. ” Esta frase
tornou-se, para mim, uma espécie de identidade de princípio, um “direito de
dizer” totalmente ignorado pelas mulheres.
Achar-se em um
buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a
escrita pode nos salvar. Achar-se sem assunto para o livro, sem a menor ideia
do livro significa achar-se, descobrir-se, diante de um livro. Lima imensidão
vazia. Um livro eventual. Diante de nada. Diante de algo semelhante a uma
escrita viva e nua, algo terrível, terrível de ser subjugado. Acho que a pessoa
que escreve não tem a ideia de um livro, tem as mãos vazias, a mente vazia, e
dessa aventura do livro ela conhece apenas a escrita seca e nua, sem futuro,
sem eco, distante, com suas regras de ouro, elementares: a ortografia, o
sentido.
Le Vice-cônsul é um livro que gritou, sem voz, por todo lado. Não gosto desta expressão, mas quando releio o livro eu a reencontro, qual- quer coisa desse tipo. E verdade, o vice-cônsul berrava todo dia... mas de um lugar secreto para mim, Como se reza todo dia, ele todo dia berrava. Isto e verdade, gritava com força e pelas noites de Lahore ele disparava nos jardins de Shalimar para matar. Não importava quem fosse, mas matar. Ele matava por matar. A partir do momento cm que não importava quem fosse, a Índia inteira podia se achar em estado de decomposição. Ele berrava em casa, na Residência Oficial, e quando estava sozinho na noite negra de uma Calcutá deserta. Ele está louco, louco de inteligência, o vice-cônsul. Ele mata Lahore todas as noites.
Nunca o encontrei em
outro lugar, não o encontrei senão dentro do ator que o representava, meu
amigo, o genial Michael Lonsdale — mesmo em seus outros papeis, para mim, ele
ainda e o vice-cônsul da França em Lahore. É meu amigo, meu irmão.
E no vice-cônsul que
eu acredito. O grito do vice-cônsul, “a única política”, ele também registrou-se
aqui, em Neauphle-le-Château. Foi aqui que ele a chamou, a ela, sim, aqui. Ela,
A. M, S. Anna-Maria Guardi. Foi ela, Delphine Seyrig. E todas as pessoas do
filme choravam. Eram lagrimas livres, sem noção do sentido que possuíam, inevitáveis,
as lagrimas verdadeiras, as lagrimas da gente da miséria.
Chega um momento na
vida, e acho que isso e fatal, do qual não se pode escapar, no qual tudo e
posto em dúvida: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Não as crianças.
As crianças jamais são colocadas em questão. E nossa dúvida cresce a nossa
volta. Essa dúvida existe sozinha, e a duvida da solidão. Nasce daí, da solidão.
Já se pode nomear a palavra. Acho que muita gente não d capaz de suportar isso
que estou dizendo, fugiriam. Talvez este seja o motivo por que todos os homens não
são escritores. Sim. Esta e a diferença. Está é a verdade. Nada além disso. A dúvida
e escrever. Portanto, e também o escritor. E com o escritor o mundo inteiro
escreve. Sempre se soube isso.
Também acho que sem
esta dúvida primordial sobre o gesto da escrita não existe solidão. Ninguém
jamais escreveu a duas vozes. Foi possível cantar as duas vozes, e também tocar
música, e jogar tênis, mas escrever não. Jamais. De saída, fiz livros chamados
de políticos. O primeiro foi Abahn,
Sabana, David, um dos que me são mais caros. Creio que isso e um detalhe, o
fato de um livro ser mais ou menos difícil de guiar do que é a vida comum. A
dificuldade e uma coisa que simplesmente existe. Um livro e difícil de guiar,
na direção do leitor, na direção da sua leitura. Se eu não tivesse escrito,
teria me tornado uma alcoólatra incurável. Trata-se de um estado prático,
achar-se perdido sem poder mais escrever... É aí que se bebe. A partir do
momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que
perder, aí é que se escreve. Ao passo que o livro está ali, e grita, exige ser
terminado, exige que se escreva. A pessoa se vê obrigada a se colocar a seu serviço.
É impossível escapar de um livro, antes que ele esteja afinal escrito — ou
seja: sozinho e livre de você que o escreveu. É tão insuportável quanto um
crime. Não acredito nas pessoas que dizem: “Rasguei meu manuscrito, joguei tudo
fora. ” Não acredito nisso. Ou o que estava escrito não existia para os outros,
ou não era um livro. E sempre se sabe quando não é um livro. Se chegara um dia
a ser um livro, não, isso nunca se sabe. Nunca.
Quando ia me deitar,
cobria o rosto. Eu tinha pouco de mim mesma. Não sei como não sei por que. E
por isso bebia álcool antes de dormir. Para me esquecer de mim. Isso passa num
instante pelo sangue, e depois vem o sono. A solidão alcoólica e angustiante. O
coração, sim, é isso. De repente ele começa a bater ligeiro demais.
Tudo escrevia quando
eu escrevia na casa. A escrita estava por todo lado. E quando via os amigos, as
vezes mal os reconhecia. Houve muitos anos assim, difíceis, para mim, dez anos
talvez, foi quanto durou. E quando os amigos, mesmo os mais queridos, vinham me
ver, também era terrível. Não sabiam nada de mim: me queriam bem e vinham por
gentileza, acreditando que me faziam bem. E o mais estranho era que eu não
pensava em nada disso.
Isso torna a escrita selvagem. Vai-se ao encontro de uma selvageria anterior a vida. E sempre a reconhecemos, e aquela das florestas, tão antiga quanto o tempo. O medo de tudo, algo distinto e ao mesmo tempo inseparável da própria vida. Encarniçado. Não se pode escrever sem a força do corpo. E preciso ser mais forte do que si mesmo para abordar a escrita. E uma coisa gozada, sim. Não e apenas a escrita, o escrito, e o grito das feras noturnas, de todos, de você e eu, os gritos dos cães. É a vulgaridade maciça, desesperadora, da sociedade. A dor, também Cristo e Moises e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias, e é também a bondade mais violenta. Sempre, acredito nisso.
Esta casa em Neauphle-le-Château, comprei-a com os direitos da adaptação do meu livro Un Barrage contre le Pacifique para o cinema. Ela me pertencia, ela estava em meu nome. Essa compra precedeu a loucura da escrita. Uma espécie de vulcão. Acho que esta casa e assim para muitos. Ela me consola de todas as dores da infância. Quando a comprei, soube logo que tinha feito alguma coisa importante, para mim, e definitiva. Alguma coisa só para mim e para meu filho, pela primeira vez na vida. E me dediquei a rasa. Limpei-a. Fiquei bastante “ocupada” com ela. Depois, quando embarquei nos meus livros, me ocupei menos.
A escrita vai muito
longe.... Até se acabar. Às vezes e algo insustentável. De súbito, tudo adquire
um sentido em relação escrita, e de deixar a gente doida. As pessoas que
conhecemos não as conhecemos mais, e aquelas que não conhecemos, achamos tê-las
visto antes. Não há duvida de que eu estava já simplesmente, e um pouco mais
que os outros, cansada de viver. Era um estado de dor sem sofrimento. Não
tentava me proteger dos outros, sobretudo das pessoas que me conheciam. Não era
triste. Era desesperado. Eu tinha embarcado no trabalho mais difícil da minha
vida: meu amante de Lahore, escrever sua vida. Escrever Le Vice-cônsul. Precisei dedicar três anos a este livro. Não podia
falar do assunto porque a menor intrusão no livro, a menor informação
“objetiva” teria apagado tudo do livro. Uma outra escrita, corrigida, teria destruído
a escrita do livro e o que eu sabia de mim em relação ao livro. Essa ilusão que
se tem — e que é justa — de ser o único que escreveu o que está escrito, seja
uma nulidade ou uma maravilha. E quando lia os críticos, a maior parte do tempo
eu me achava sensível ao fato de que se dizia que aquilo não se parecia com
nada. Quer dizer que aquilo vinha ao encontro da solidão inicial do autor.
Eu achava que tinha adquirido esta casa em Neauphle também para meus amigos, para recebe-los, mas eu estava enganada. Comprei-a para mim. É só agora que o entendo e que o digo. Certas noites havia muitos amigos, os Gallimard vinham muitas vezes, e suas esposas e seus amigos. Eram muitos, os Gallimard, uns quinze talvez, às vezes. Eu pedia que viessem um pouco antes para colocar as mesas em um mesmo cômodo a fim de ficarmos juntos. Estas noites de que falo eram, para todos, muito alegres. As mais a alegres de todas. Ha via sempre Robert Antelme, Dionys Mascolo e seus amigos. E meus amantes também, sobretudo Gerard Jarlot, que era o sedutor em pessoa, e que se tornou amigo dos Gallimard.
Quando havia o mundo,
me sentia ao mesmo tempo menos só e mais abandonada. Essa solidão, para
aborda-la, e preciso atravessar a noite. À noite, imaginar Duras em seu leito
tentando dormir sozinha em uma casa de quatrocentos metros quadrados. Quando eu
ia até o fim da casa, lá do outro lado, na direção da “casa pequena”, tinha
medo do espaço como de uma emboscada. Posso dizer que tinha medo todas as
noites. No entanto jamais fiz o menor gesto para que alguém viesse morar aqui. Às
vezes, de noite, eu saia já tarde. Adorava as caminhadas, com as pessoas da
aldeia, os amigos, os habitantes de Neauphle. Bebíamos. Conversávamos bastante.
Íamos a uma espécie de cafeteria grande como Uma aldeia de muitos hectares. O
auge vinha às três horas da manhã. Lembro o nome: era Parly II. Lugares onde
estamos também perdidos. Os garçons vigiavam, como se fossem policiais, aquele
imenso território da nossa solidão.
Não é uma casa de campo, esta casa, aqui. Não se pode dizer isso. Antes, era uma chácara, com o tanque, e depois virou a casa de campo de um tabelião, o grande Tabelionato de Paris.
Quando abriram para
mim a porta de entra- da, vi o parque. Durou alguns segundos. Eu disse que sim,
que ia comprar a casa, desde o instante em que atravessei a porta. Comprei-a
imediata- mente. Paguei no ato, em espécie.
Agora ela se tornou
uma casa de todas as estacoes. E dei-a também ao meu filho. Ela pertence a nos
dois. Ele se sente tão ligado a ela quanto a mim, agora creio nisso. Guardou
tudo o que e meu dentro desta casa. Nela, ainda posso estar sozinha. Tenho
minha mesa, minha cama, meu telefone, meus quadros e meus livros. E os
argumentos de meus filmes. E quando entro nesta casa, meu filho fica muito
contente. Essa alegria, do meu filho, € agora a alegria da minha vida.
É uma coisa curiosa um escritor. Uma contradição e também um absurdo. Escrever é também não falar. E se calar. E berrar sem fazer barulho. E muitas vezes o repouso de um escritor, e ele tem muito a ouvir. Não fala muito porque é impossível falar com alguém de um livro que se escreveu e sobretudo de um livro que se está escrevendo. É impossível. É o contrário do cinema, o contrário do teatro, e de outros espetáculos. É o contrário de todas as leituras. E o mais difícil de tudo. É o pior. Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim. É o livro que avança, que cresce, que avança nas direções que se supõem exploradas, que avança para o seu próprio destino e do seu autor, agora aniquilado pela sua publicação: a separação entre os dois, o livro sonhado, como a criança recém-nascida, sempre a mais amada.
Um livro aberto e também a noite.
Não sei por que,
estas palavras que acabei de dizer me fazem chorar.
Escrever apesar do
desespero. Não: com desespero. Que desespero, eu não sei, não sei o nome disso.
Escrever ao lado daquilo que precede o escrito e sempre estragá-lo. E é preciso,
no entanto, aceitar isto: estragar o fracasso significa retornar para um outro
livro, para um outro possível deste mesmo livro.
Esse perder-se de si no interior da casa não é voluntario, em absoluto. Eu não dizia: “Estou fechada aqui todos os dias do ano.” Eu não estava, isso seria dizer algo falso. Ia dar voltas, ia ao café. Mas ao mesmo tempo estava aqui. A aldeia e a casa são semelhantes. E a mesa diante do tanque. E a tinta preta. E o papel branco e parecido. Com os livros, não, de repente, com eles nunca e parecido.
Antes de mim, ninguém havia escrito nesta casa. Perguntei ao administrador da municipalidade, aos vizinhos, aos comerciantes. Não. Nunca. Telefonei diversas vezes para Versailles a fim de tentar saber o nome das pessoas que tinham morado nesta casa. Na série dos nomes dos moradores e seus prenomes e sua profissão não havia um só escritor. Ora, todos esses nomes podiam ser nomes de escritores. Todos. Mas não eram. Em volta, havia chácaras de várias famílias. O que encontrei na terra foram as lixeiras dos alemães. A casa foi de fato ocupada por oficiais alemães. Suas lixeiras eram buracos, buracos na terra. Havia muitas conchas de ostras, caixas vazias de produtos caros, sobretudo patê de fois gras, caviar. E muita louça quebrada. Mandei jogar tudo fora. Exceto os cacos de louça, sem dúvida nenhuma louça de Sèvres, os desenhos estavam intactos. E o azul era o azul inocente dos olhos de algumas de nossas crianças.
Quando um livro chega ao fim — quero dizer, um livro que se terminou de escrever —, não se pode mais dizer, ao ser lido, que este livro seja um livro escrito por você, nem que coisas estão escritas nele, nem em que estado de desespero ou em que felicidade, a de um achado ou de um fracasso de todo o seu ser. Porque, no final, em um livro, não se pode ver nada igual. A escrita e, de algum modo, uniforme, ajuizada. Nada mais pode entrar em um livro assim, terminado e distribuído. E ele recupera a inocência indecifrável da sua vinda ao mundo.
Estar sozinha com o
livro ainda não escrito significa estar ainda no primeiro sono da humanidade. E
assim. E também estar sozinha com a escrita ainda não semeada. Tentar não
morrer por isso. Estar sozinha em um abrigo durante a guerra. Mas sem preces,
sem Deus, sem qualquer pensamento salvo o louco desejo de matar a nação alemã até
o último dos nazistas.
A escrita sempre foi destituída
de quaisquer referencias, caso contrário ela e... Ela ainda se acha como no
primeiro dia. Selvagem. Diferente. Exceto a gente, as pessoas que circulam no
interior do livro, durante o trabalho o autor nunca as esquece, nunca as lamenta.
Não, disto estou certa, não, a escrita de um livro, o escrito. Portanto e
sempre a porta aberta para o abando no. Existe o suicídio na solidão de um
escritor. E possível sentir-se sozinho no interior da sua própria solidão.
Sempre inconcebível. Sempre perigosa. Sim. Um preço a pagar por ter ousado sair
e gritar.
Na casa, era no
primeiro andar que eu escrevia, não escrevia embaixo. Depois, ao contrário, escrevi
no grande cômodo central no térreo para estar menos só, talvez, não sei mais, e
também para ver o parque.
Existe isso no livro:
a solidão nele e a solidão do mundo inteiro. Está em toda parte. Invadiu tudo.
Sempre creio nesta invasão. Como todos. A solidão é aquilo sem o que nada
fazemos. Aquilo sem o que nada pode ser visto. É uma forma de pensar, de
raciocinar, mas apenas com o pensamento cotidiano. Isso também existe na função
de escrever e sobretudo, talvez, dizer a si mesmo que não e preciso se matar
todos os dias, visto que é possível se matar a qualquer dia. Isto e a escrita
de um livro, isto não é a solidão. Falo da solidão mas não estava sozinha pois
tinha esse trabalho para realizar, trazer a luz, esse trabalho de condenado:
escrever Le Vice-cônsul de France a Lahore. E foi feito e traduzido para línguas do mundo todo, e foi
guardado. Nesse livro, o vice-cônsul atira na lepra, nos leprosos, nos
miseráveis, nos cães e depois atira nos Brancos, nos governantes brancos.
Matava tudo menos ela, aquela que na manhã de um certo dia se afogou no Delta,
Lola Valérie Stein, essa Rainha da minha infância e de S. Thala, essa mulher do
governador de Vinh Long.
Esse livro foi o
primeiro livro da minha vida. Foi em Lahore, e também lá, no Camboja, nas plantações,
em toda parte. Le Vice-cônsul começou com uma criança de quinze anos que esta
gravida, a pequena Annamite, expulsa da casa da mãe e que se volta para o maciço
de mármore azul chamado Pursat. Não sei mais como continua, depois disso.
Lembro que tive muita dificuldade para encontrar esse lugar, a montanha de
Pursat, aonde nunca fui. O mapa estava ali, na minha escrivaninha, e segui os
atalhos da marcha dos mendigos e das crianças de pernas quebradas, abandonadas
por suas mães, e que comiam lixo. Era um livro bem difícil de fazer. Não
existia piano algum possível para expor a amplitude da infelicidade porque já não
havia restado mais nada dos fatos visíveis que a provocaram. Nada havia senão a
Fome e a Dor.
Não havia mais encadeamento algum entre os fatos de natureza selvagem, assim não havia nunca programação. Isso jamais existiu na minha vida. Jamais. Nem na vida nem nos livros, nem uma única vez.
Escrevia todas as
manhas. Mas sem horário certo. Nunca. Exceto quanto à cozinha. Sabia quando
precisava vir porque a panela estava fervendo ou para que a comida não
queimasse. Quanto aos livros, também era assim. Juro. Tudo, eu juro. Nunca
menti em um livro. Nem na vida. Exceto para os homens. Nunca. E isso porque
minha mãe me assustou com a mentira de que as crianças mentirosas acabavam
sendo mortas.
Acho que é isso que
condeno nos livros, em geral, o fato de que não são livres. Vê-se isto através
da escrita: eles são fabricados, organizados, regulamentados, convenientes, poderíamos
dizer. Uma função de revisão que o escritor, muitas vezes, exerce em relação a
si mesmo. O escritor, assim, se converte em policial de si mesmo. Entendo desta
maneira a busca da boa forma, ou seja, a forma mais corrente, a mais clara e a
mais inofensiva. Ha ainda gerações de mortos que fazem livros pudibundos. Mesmo
os jovens: Livros charmosos, sem o
menor prolongamento, sem noite. Sem silencio. Em outras palavras: sem autor
verdadeiro autor verdadeiro. Livros do dia, de passatempo, de viagem. Mas não
livros que se incrustam no pensamento e que exprimem o luto negro da vida
inteira, o lugar-comum de todo pensamento.
Não sei o que é um
livro. Ninguém sabe. Mas dá para saber quando aparece um livro. E quando não há
nada, dá para saber, do mesmo modo que se sabe que estamos vivos, que ainda não
morremos.
Cada livro, como cada
escritor, tem alguma passagem mais difícil, incontornável. E ele deve tomar a decisão
de deixar este erro no livro para que permaneça um livro verdadeiro, e não de
mentira. A solidão, ainda não sei em que ela se transforma depois. Ainda não
posso falar disso. O que acho é que essa solidão se torna banal, com o tempo ela
se torna vulgar, e que isso é uma felicidade.
Quando pela primeira
vez falei do amor entre Anne-Marie Stretter, a embaixadora da França em Lahore,
e o vice-cônsul, tive o sentimento de ter destruído o livro, de ter retirado o
livro do estado de espera. Mas não, isso não só foi preservado, mas também o contrário
disso. Existem erros dos autores, coisas que na verdade são acasos. Os erros
bem-sucedidos entusiasmam muito, são coisas magníficas, e até os outros,
aqueles fáceis como os relativos a infância, muitas vezes são também
maravilhosos.
Os livros dos outros, eu muitas vezes os acho "adequados”, mas muitas vezes me parecem dependentes de um classicismo sem risco algum. A palavra seria fatal, sem dúvida. Não sei.
As grandes leituras
da minha vida, aquelas que só eu fiz, são as escritas por homens. É Michelet,
Michelet e sempre Michelet, até as lágrimas. Os textos políticos também, mas menos.
É Saint-Juste, Stendhal, e de uma forma Bizarra não e Balzac. O Texto dos
textos é o Velho Testamento.
Não sei como sai
disso que se pode chamar uma crise, como se diria crise de nervos ou crise de
moleza, de degradação, como seria um sono fingido. A solidão também era isso.
Um tipo de escrita. E ler era escrever.
Alguns escritores são
apavorados. Têm medo de escrever. O que contou no meu caso foi talvez nunca ter
tido medo desse medo. Fiz livros incompreensíveis e foram lidos. Há um que li i
recentemente, que não relia há trinta anos, e que acho mágico. Seu título é La Vie tranquille. Dele, eu esquecera
tudo, salvo a última frase: "Ninguém, a não ser eu, tinha visto o homem se
afogar. ” É um livro feito de uma assentada só, segundo a lógica sombria e
bastante banal de um assassino. Nesse livro, é possível ir mais longe do que o
livro mesmo, do que o assassino do livro. Não dá para saber para onde se vai,
sem dúvida para a adoração da irmã, a história de amor da irmã e do irmão,
ainda, sim, para a eternidade de um amor deslumbrante, irrefletido, castigado.
Somos doentes da esperança,
nós, os de 68, a esperança era aquilo que colocávamos no papel do proletariado.
E lei alguma, coisa alguma, nem nada nem ninguém vai nos curar dessa esperança.
Eu queria voltar a me inscrever no PC. Mas ao mesmo tempo sei que não seria
necessário. E queria também me dirigir a direita e insultá-la com toda minha cólera.
O insulto e tão forte quanto a escrita. E uma escrita mais dirigida. Insultei
pessoas em meus artigos e é tão satisfatório quanto escrever um belo poema.
Para mim, há uma diferença radical entre um homem de esquerda e um homem de
direita. Parece que são as mesmas pessoas. Na esquerda, há Beregovoy, que ninguém
vai substituir. O Beregovoy número um é Mitterrand, que não se parece com ninguém.
Eu pareço com todo
mundo. Acho que ninguém jamais me reconheceu na rua. Sou a banalidade. O
triunfo da banalidade. Como aquela velha senhora do livro: Le Camion.
Viver assim, como
digo que eu vivia, nessa solidão, por um longo tempo, cria riscos que se
precisa correr. E inevitável. Desde o momento em que o ser humano se vê
sozinho, ele oscila para a demência. Acredito nisso: acredito que uma pessoa
entregue a si mesma já se acha acometida de loucura, porque não há nada que barre
seu caminho quando ocorre um delírio pessoal.
Nunca se está só.
Nunca se está só, fisicamente. Em parte alguma. Sempre se está em algum lugar.
Ouvem-se barulhos na cozinha, na televisão, ou no rádio, nos apartamentos vizinhos,
e no prédio inteiro. Sobretudo quando nunca se precisou do silencio como eu
sempre fiz.
Vou adorar contar a história que contei pela primeira vez a Michelle Porte, que tinha feito um filme sobre mim. Àquela altura da história, eu me encontrava naquilo que se chama a “despensa” na “casa pequena”, que se comunica com a casa grande. Estava sozinha. Esperava por Michelle Porte naquela despensa. Muitas vezes fico assim em lugares calmos e vazios. Por longo tempo. E foi no interior desse silencio, naquele dia de repente vi e ouvi, rente a parede, bem perto de mim, os últimos minutos da vida de uma mosca comum.
Sentei no chão para não
assustá-la. Não mexi mais.
Estava sozinha com
ela na casa inteira. Nunca tinha pensado nas moscas até então, exceto para
rogar pragas contra elas. Como vocês. Fui educada, como vocês, no horror dessa
calamidade para o mundo inteiro, que transmite a peste e o colera.
Cheguei perto para vê-la
morrer.
Ela queria escapar a
parede, onde corria o risco de se tornar prisioneira da areia e do cimento que
se depositavam sobre a parede, com a umidade do parque. Olhei como uma mosca
dessas morria. Foi demorado. Ela se debatia contra a morte. Durou talvez algo
entre dez e quinze minutos e depois cessou. A vida precisara cessar. Ainda
fiquei ali para ver. A mosca continuou parada junto a parede como eu a tinha
visto, como chumbada a parede.
Eu estava enganada:
ela ainda vivia.
Ainda estou ali, a
olhar, na esperança de que ela recomece a esperar, a viver.
Minha presença
tornava aquela morte ainda mais atroz. Sabia disso e fiquei ali. Para ver. Ver
como aquela morte invadia a mosca progressiva- mente. E também tentar ver de
onde vinha essa morte. De fora, ou da espessura da parede, ou do sol. De que
noite ela vinha, da terra ou do céu, das florestas vizinhas, ou de um nada
ainda inominável, talvez muito próximo, talvez de mim, que tentava refazer os
caminhos da mosca no esforço de passar para a eternidade.
Não sei mais qual foi
o final. Sem dúvida, a mosca, no final de suas forças, acabou tombando. As
patas se desprenderam da parede. E ela caiu da parede. Não sei mais nada,
exceto que sai de lá. Disse para mim mesma: “Você está a ponto de ficar doida.
” E sai de lá.
Quando Michelle Porte
chegou, mostrei a ela o lugar e contei que uma mosca morrera ali as três e
vinte. Michelle Porte riu um bocado. Ela teve um ataque de riso. Tinha razão.
Sorri paia ela, como intuito de pôr um fim naquela história. Mas não: ela riu
ainda mais. E eu, quando conto de novo a história para vocês, assim, a pura
verdade, a minha verdade, foi tudo como acabei de dizer, aquilo que se passou
entre mim e a mosca, e que ainda não se presta a risos.
A morte de uma mosca
e a morte. E a morte em marcha para um determinado fim do mundo, que estende o
campo do sono derradeiro. Vemos morrer um cão, vemos morrer um cavalo, e
dizemos qualquer coisa, por exemplo, coitado do bicho... Mas se uma mosca
morre, não dizemos nada, não registramos nada.
Agora está escrito.
E, talvez, a este tipo de derrapagem não gosto desta palavra — muito sombria
que nos arriscamos. Não chega a ser grave, mas d um fato em si mesmo, total, de
um sentido enorme: de um sentido inacessível e de uma extensão sem limites.
Pensei nos judeus. i Odeio a Alemanha como nos primeiros dias da guerra, com
todo meu corpo, com toda minha força. Assim, durante a guerra, a cada alemão
que passava na rua, eu pensava no seu assassinato, que eu cometeria, inventado
e aperfeiçoado por mim, pensava nessa alegria colossal, um corpo alemão aos
meus pés, morto.
E bom também se o
escrito conduz a isso, a essa mosca em agonia, quero dizer: escrever o pavor de
escrever. A hora exata da morte, registrada, a tornava já inacessível. Isso lhe
dava uma importância de caráter geral, digamos, um lugar preciso no mapa geral
da vida sobre a terra.
Essa exatidão da hora
da morte faria com que a mosca tivesse funerais secretos. Vinte anos depois da
sua morte, a prova esta aqui mesmo, ainda falamos dela,
Nunca contei a morte
dessa mosca, sua demora, sua lentidão, seu medo atroz, sua verdade.
A exatidão da hora da
morte remete a coexistência com o homem, com os povos coloniza- dos, com a
massa fabulosa dos desconhecidos do mundo, as pessoas sós, na solidão
universal. A vida, ela está em toda parte. Da bactéria ao elefante. Da terra
aos céus divinos ou já mortos.
Não organizei nada em
torno da morte da mosca. As paredes brancas, lisas eram já sua mortalha e
fizeram com que sua morte se tornas- se um acontecimento público, natural e inevitável.
Aquela mosca evidentemente estava no final da vida. Eu não podia me impedir de vê-la
morrer. Ela não se mexia mais. Também havia isso, e de saber também que não se
pode contar que essa mosca existiu.
Isso foi há vinte
anos. Nunca contei este fato como acabei de contar aqui, nem mesmo para Michelle
Porte. O que eu sabia — o que eu via — era que a mosca já sabia que aquele gelo
que a atravessava era a morte. Isso era o mais assusta- dor. O mais inesperado.
Ela sabia. E ela aceitava.
Uma casa só, isso não
existe desse jeito. E preciso que o tempo passe ao redor dela, pessoas,
historias, “reviravoltas”, coisas como o casamento ou a morte daquela mosca, a
morte, a morte banal — a da unidade e do nome ao mesmo tempo, a morte planetária,
proletária. A morte provocada pelas guerras, as montanhas de guerras que
existem na Terra.
Naquele dia. Naquela
data, deum encontro com minha amiga Michelle Porte, um fato visto apenas por
mim, naquele dia sem hora, uma mosca morreu.
No momento em que
olhei para ela, de repente eram três horas e vinte da tarde, um pouco mais: o
ruído dos elitros havia cessado.
A mosca estava morta.
Aquela rainha. Negra
e azul.
Aquela, que eu tinha
visto, eu, ela estava morta. Lentamente. Ela se debatera até o ultimo
sobressalto. E em seguida ela cedeu. Isso durou talvez de cinco a oito minutos.
Foi demorado. Foi um momento de medo absoluto. E assim foi a partida da morte
para outros céus, outros planetas, outros lugares.
Eu queria me salvar e
ao mesmo tempo me dizia que era preciso olhar na direção daquele barulho no chão,
apesar de já ter ouvido, certa vez, aquele ruído de fogo na madeira verde que tem
a morte de uma mosca comum.
Sim. E isso, essa
morte da mosca tomou-se um deslocamento da literatura. Escreve-se sem saber.
Escreve-se sobre olhar uma mosca morrer. Existe o direito de fazê-lo.
Michelle Porte teve
um ataque de riso quando eu disse a que horas a mosca tinha morrido. E agora
penso que talvez não tenha sido eu que contou essa morte de um jeito engraçado.
Àquela altura eu me achava privada dos meios de expressão porque eu olhava essa
morte, a agonia daquela mosca negra e azul.
A solidão está sempre
acompanhada de loucura. Sei disso. A loucura não se vê. Às vezes apenas a
pressentimos. Não creio que possa ser de outro modo. Quando um livro inteiro
sai de dentro da pessoa, e inevitável o estado particular de uma certa solidão
que não se pode partilhar com ninguém. Não se pode fazer nada para partilhar
isso. E preciso ler sozinho o livro que se escreveu, enclausurar-se no livro.
Isto possui evidentemente um aspecto religioso, mas não se percebe de imediato,
podemos pensar nisso mais tarde (como penso neste momento) em razão de algo que
seria a vida, por exemplo, ou uma solução para a vida do livro, da palavra, dos
gritos, dos urros surdos, silenciosamente terríveis de todos os povos do mundo.
À nossa volta, tudo
escreve, e isso que se deve perceber, tudo escreve, a mosca, ela também
escreve, sobre as paredes, ela escreveu bastante na luz da grande sala, refratada
pelo tanque. A escrita da mosca era capaz de sustentar uma página inteira. Então
já e uma escrita, A partir do momento em que poderia ser uma escrita, já e uma
escrita. Um dia, talvez, no correr dos séculos futuros, alguém lera essa
escrita, ela também será decifrada, traduzida. E a imensidão de um poema legível
se desdobrara pelo céu.
Mas, apesar de tudo,
em qualquer lugar do mundo fazem-se livros. Todo mundo faz. Acredito nisso.
Tenho certeza de que é assim. Para Blanchot, por exemplo, e assim. Existe a
loucura que gira a seu redor. A loucura e também a morte. Não para Bataille.
Por que Bataille se achava a salvo do pensamento livre, louco? Eu não saberia
responder.
Sobre a história da
mosca eu gostaria.de dizer ainda alguma coisa,
Ainda a vejo, ela, aquela
mosca na parede branca, morrendo. Primeiro na luz solar, depois na luz
refratada e sombria do chão de ladrilhos.
E também possível não escrever, esquecer uma mosca. Apenas olhar para ela. Ver como ela rodopiava, se debatia de uma forma terrível e compatibilizada comum céu desconhecido e de nada.
Eis tudo.
Vou falar de nada.
De nada.
Todas as casas em
Neauphle são habitadas: no inverno, mais ou menos, e verdade, mas mesmo assim são
habitadas. Não são reservadas para o verão como ocorre muitas vezes. Ficam
abertas o ano inteiro, habitadas.
O que conta nesta
casa de Neauphle-le-Château são as janelas que dão para o parque e a estrada de
Paris diante da casa. A estrada por onde passam as mulheres de meus livros.
Dormi bastante
naquele aposento que se converteu em sala. Por muito tempo acreditei que um
quarto de dormir fosse uma coisa convencional. Foi quando trabalhei ali que um quarto
de dormir se tornou algo indispensável como os demais quartos, mesmo aqueles
vazios, dos outros andares. O espelho da sala era dos proprietários que me
precederam. Deixaram-no para mim. O piano, eu o comprei logo depois de comprar
a casa, quase pelo mesmo preço.
Ao lado da casa, cem anos atrás, havia uma trilha para o gado vir beber no tanque. Agora o tanque se encontra dentro do meu parque. E não existe mais gado. Na aldeia, não há mais leite fresco de manhã. Há cem anos.
Na verdade, e quando
se roda um filme aqui que a casa aparece como outra casa, aquela que existiu,
certa época, para gente que viveu antes de nos. Na solidão, mostra
imediatamente sua graça, como uma outra casa que pertenceria ainda a outras
pessoas. Como se algo tão monstruoso como a perda da posse desta casa pudesse
ser visto.
O lugar onde se
colocam as frutas, os legumes, a manteiga salgada, para manter tudo fresco, lá
dentro.... Havia um lugar assim... escuro e frio... acho que era assim, uma
despensa, e isso mesmo. Esta e a palavra. Para pôr a salvo as provisões de
guerra.
As primeiras plantas
que nasceram aqui são as que estão no parapeito das janelas da entrada. E o gerânio-rosa
vindo do sui da Espanha. Aromático como o Oriente.
Nesta casa, nunca se
jogam as flores fora. É um habito, não uma regra. Nunca, mesmo quando estão
mortas, elas sempre ficam onde estão. Existem pétalas de rosas que estão no
mesmo lugar ha quarenta anos, na mesma jarra. Estão ainda bem rosadas. Secas e
Rosas.
O problema, o ano
todo, e o crepúsculo. Tanto no verão quanto no inverno.
Há o primeiro crepúsculo,
aquele do verão, e não e preciso iluminar o interior da casa.
Depois há o
verdadeiro, o crepúsculo do inverno. Às vezes, fecho os postigos das janelas
para não ver isso. Ha também as cadeiras, elas são arrumadas para o verão. E no
terraço que se costuma ficar no verão. Ali converso com os amigos que vem
durante o dia. Para isso, muitas vezes: conversar.
Sempre e triste, mas não
trágico, o inverno, a vida, a injustiça. O horror absoluto de uma certa manhã.
É apenas isso,
triste. Nem com o tempo dá para se acostumar com isso.
O mais difícil, nesta
casa, e o temor pela sorte das arvores. Sempre. E cada vez. Cada vez que há
tempestade, e há muitas tempestades por aqui, a gente torce pelas arvores, tem
medo do que possa acontecer com elas. Não sei mais seus nomes na ponta da língua.
A hora do crepúsculo do
anoitecer é a hora em que, ao redor do escritor, todo mundo para de trabalhar.
Nas cidades, nas
aldeias, em toda parte, os escritores são pessoas sós. Em toda parte, e sempre,
foram assim.
No mundo inteiro, com
o fim da luz, vem o fim do trabalho.
E sempre senti essa
hora como não sendo, para mim, a hora do fim do trabalho, mas a hora do começo
do trabalho. Existe, na natureza, um tipo de inversão de valores em relação ao
escritor.
Para os escritores, o
outro trabalho e aquele que as vezes chega a dar vergonha, aquele que provoca,
na maior parte do tempo, um desgosto de ordem políticos, o mais violento de
todos. Sei que isso deixa a pessoa inconsolável. E que a gente acaba malvada,
como cães da polícia.
Aqui, a gente se
sente separada do trabalho manual. Mas contra isso, contra esse sentimento a
que € preciso se adaptar, se habituar, nada poderá ser eficaz. O que vai
dominar sempre, e isto nos faz chorar, e o inferno e a injustiça do mundo do
trabalho. O inferno das fabricas, os rigores do desprezo, a injustiça do
patronato, seu horror, o horror do regime capitalista, toda a infelicidade que
ele emana, o direito dos ricos terem o proletariado a seu dispor e fazerem dele
a razão de seu fracasso, nunca de seu sucesso. O mistério e por que o
proletariado aceita. Mas são numerosos, e cada dia cresce mais o número
daqueles que acreditam que isto não pode durar mais muito tempo. Que alguma
coisa foi alcançada por nós todos, uma nova leitura talvez de seus textos
desonrosos. Sim, e isso mesmo.
Não insisto, vou
embora. Mas digo aquilo que todos sofrem, mesmo quando não sabem que sofrem.
Muitas vezes, com o
fim do trabalho, nos vem a lembranças da maior injustiça. Falo do cotidiano da
vida. Não t de manhã, e de noite que isso acontece, entra nas casas, vem até
nos. E se não e assim, então não e absolutamente nada. Não é: nada. E sempre,
em todos os casos, em todas as aldeias, sabe-se disso.
A libertação ocorre
quando a noite começa a se instalar. Quando o trabalho cessa lá fora. Resta
esse luxo que temos, nos, de poder escrever durante a noite. Podemos escrever a
qualquer hora. Não recebemos autorização de ninguém, horários, chefes, armas,
muitas, guardas, chefes dos chefes. E galinhas chocas dos fascismos de a manhã.
A luta do vice-cônsul
é uma luta ao mesmo tempo ingênua e revolucionaria.
E esta a maior injustiça
de todos os tempos: e se não chorarmos por isso, pelo menos uma vez na vida, não
vamos chorar por mais nada. E não chorar nunca e não viver.
Chorar, e preciso que isto também aconteça.
Se chorar é inútil,
mesmo assim creio que e preciso chorar. Pois o desespero é tangível. Perdura. A
lembranças do desespero, isto perdura. As vezes mata.
Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
E preciso dizer: não
se pode.
E se escreve.
É o desconhecido que
trazemos conosco: escrever, é isto o que se alcança. Isto ou nada.
Pode-se falar de uma doença
da escrita.
Não e simples o que
tento dizer aqui, mas acho que e possível reencontrarmo-nos aqui, camaradas de
todos os países.
Ha uma loucura de
escrever que existe em si mesma, uma furiosa loucura de escrever, mas não e por
isso que se cai na loucura. Ao contrário.
A escrita e o
desconhecido. Antes de escrever, nada se sabe do que se vai escrever. E em
total lucidez.
E o desconhecido de
si mesmo, de sua cabeça, de seu corpo. Escrever não e sequer uma reflexão, e um
tipo de faculdade que se possui ao lado da personalidade, paralelo a ela, uma
outra pessoa que aparece e avança, invisível, dotada de pensamento, colera, e
que por vezes acaba colocando a si mesma em risco de perder a vida.
Se soubéssemos algo
daquilo que se vai escrever, antes de fazê-lo, antes de escrever, nunca escreveríamos.
Não ia valer a pena.
Escrever significa
tentar saber aquilo que se escreveria se fossemos escrever — só se pode saber
depois — antes, é a pergunta mais perigosa que se pode fazer. Mas também a mais
comum.
A escrita vem como o
vento, nua, é de tinta, a escrita, e passa como nada mais passa na vida, nada, exceto
ela, a vida.
