Encantado, espetáculo da Companhia Lia Rodrigues, em cartaz no Sesc Pinheiros, é a elaboração de um encanto, a formação de uma mitologia.
Bruno Pernambuco

Parafraseando João Cabral de Melo Neto, é possível dizer que para os bichos humanos nascer já é rastejar. Entrar no húmus primordial da terra, movimentar-se nesse espaço inicial, é fundar a própria humanidade, e similarmente penetrar em uma malha cultural e histórica, escolher panos da sabedoria que vem de gerações, transformar seus sentidos, e ver o que lhe cabe, é parte do “estudo para o ofício de ter alma”, como descreveu Cecília Meireles no poema Terra.
Encantado, espetáculo da Companhia Lia Rodrigues, em cartaz no Sesc Pinheiros, é a elaboração de um encanto, a formação de uma mitologia. Desde uma imagem inicial de surgimento do mundo, suas representações se assemelham a itãs da cultura Iorubá, a histórias que representam um conhecimento universal, e que se apresentam na forma de imagens.
Figuras de diferentes tipos, personagens humanos e representações mitológicas, são apresentados ao longo do espetáculo, que tem como fio condutor, literalmente, entre as imagens, o trabalho com panos que compõe o cenário, e que ao longo da grande coreografia da apresentação se tornam uma espécie de figurino mutável para os atores. A troca de fantasias acompanha uma completa transformação corporal, na metamorfose de personagens
Viva Dionísio!
Ainda ecoando o poema de Cecília Meireles, o espetáculo lembra o quanto é um esforço físico, um treino, um trabalho dos músculos, acessar a própria alma e respeitar o seu valor.
A mutação corporal cria imagens incrivelmente belas, destacando personagens que entram e saem de um grande movimento do coro.
A coreografia de Encantado traz elementos de improviso e de espontaneidade que vão além da simples resposta à diferença inevitável dos materiais em cada apresentação.
Seria impossível animar suas figuras sem representar um movimento impensado, impulsivo, que não parte de definições rígidas- afinal está fabulada no espetáculo uma mitologia que se faz viva sob o domínio de Dionísio, que se aviva na presença imediata dos corpos.
Isso não quer dizer que os movimentos coreografados não sejam importantes para compreender as figuras que são encenadas, nem que dessas coreografias não saiam belezas enormes, surgidas da dificuldade dos movimentos. Mas para receber, como espectador, no próprio corpo essa afirmação da vida e do corpo que Encantado é de maneira tão original, é necessário estar presente nessa debilidade do deus grego, anterior a qualquer elaboração intelectual dos sentidos. Em Encantado, de maneira privilegiada, se pode afirmar, do fundo dos pulmões, com a força vinda da raiva da repressão do corpo: “Dionísio está vivo!”
Dança que vive
O momento mais tocante, como em tantas vezes, está no ato após o último, no contágio da plateia pelas emoções da dança, na forma como o movimento permanece com alguns espectadores que saem do teatro.
A música que acompanha a coreografia do espetáculo utiliza, em seus cantos e instrumentos de corda, sons tradicionais de cantos indígenas. Além disso, nessa trilha sonora se destaca uma batida primal, simples, de um ritmo essencial. É um ritmo que se convida a ser assumido pelo espectador, trazendo a reação de acompanha-lo com qualquer compasso improvisado que se possa fazer com as mãos ou com os pés.
Essa transmissão de elementos da peça para a individualidade do espectador é uma afirmação da força de vida de Encantado. Partindo de uma rica teia de cosmogonias, misturado referências de origem africana e indígena, Encantado transmite uma lição aberta, de sentido individual, que se corporifica- se faz aprender de cor- em cada espectador.
Se quem assiste não pode, necessariamente, almejar o ponto de “tornar-se Encantado”, ao menos o encontro com o espetáculo pode reacender o encanto que há no trabalho de cada individualidade, e de cada presença no mundo.
Encantado
Cia. Lia Rodrigues de Dança
Temporada: 17/3 a 10/4. Quinta a sábado: 21h. Domingos: 18h
Sesc Pinheiros (Rua Pais Leme, 195, São Paulo)
Classificação: 16 anos
Entrada: R$40 (inteira)/ R$20 (meia entrada ou credencial plena do sesc)