(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de abril de 2008)

“… Em Borges é como se tudo se tivesse desgarrado de todo contexto histórico, para existir em absoluta autonomia com relação à realidade…”

Quando escreveu tais palavras (que fazem parte do ensaio que serviu como intróito para uma das várias edições da tradução de Carlos Nejar publicadas pela Globo), Davi Arrigucci Jr. não imaginava que viria a ser o novo tradutor de Ficções, de Jorge Luis Borges, um livro cultuado mundialmente, como provam as afirmações seguintes do mais especial dos seus admiradores: “Se tivesse de apontar quem na literatura realizou perfeitamente o ideal da exatidão de imaginação e de linguagem construindo obras que correspondem à rigorosa geometria do cristal e à abstração do raciocínio dedutivo, diria sem hesitar: Borges… textos contidos em poucas páginas, com exemplar economia de expressão… seus contos adotam freqüentemente a forma exterior de algum gênero da cultura popular, formas consagradas por longo uso, que as transforma quase em estruturas míticas.”(Italo Calvino).

Também eu, mais modestamente, tenho já meu quarto de século de prazeres e descobertas dos 16 contos (nas últimas edições excluiu-se Aproximação a Almotásim), divididos em duas partes: O Jardim de Veredas que se Bifurcam (1941) e Artifícios (1944). Cada uma apresenta contos inesgotáveis. Na primeira, o mais famoso é A Biblioteca de Babel, mas há também o conto-título, As Ruínas Circulares, Pierre Menard, Autor do Quixote, e o conto de abertura, o originalíssimo Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, que começa inesquecivelmente: “Devo à conjunção de um espelho com uma enciclopédia a descoberta de Uqbar (depois de ler isso não há como parar); na segunda, temos O Sul, Funes, o memorioso, Tema do Traidor e do Herói, O Milagre Secreto, e principalmente aquele que, numa escolha pessoal, ocupa o lugar de honra: A Morte e a Bússola.

É uma mistura de paródia de história policial com conto filosófico (e pensar que Ernesto Sabato, a quem o texto desagradava, escreveu que “Borges é um escritor inglês que sai a blasfemar nos subúrbios… de Buenos Aires e da filosofia, que bom para Buenos Aires e para a filosofia): o criminoso Red Scharlach vai transformando a capital argentina numa armadilha para seu arquiinimigo (e duplo), o detetive Erik Lönrot, através de uma série de assassinatos cheios de detalhes elaboradíssimos.

A ironia da história é que a armadilha é bem sucedida justamente devido à vaidade dedutiva de Lönrot, que evoca a dos detetives como Sherlock e Poirot, mas também a do racionalismo cartesiano que crê ser possível pesar, medir e analisar tudo. O clímax acontece na chácara Triste-le-Roy que “abusava de inúteis simetrias e repetições obsessivas, localizada num arrabalde que, de repente, é o cerne da literatura contemporânea (sorry, Sabato): “Por ante-salas e galerias foi dar em pátios iguais e repetidas vezes no mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente se multiplicou em espelhos opostos; cansou de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, de várias alturas e vários ângulos, o mesmo desolado jardim; dentro, móveis com capas amarelas e lustres embalados em tarlatana. Um dormitório o reteve; nesse dormitório, uma única flor num copo de porcelana; ao primeiro toque as pétalas antigas desfizeram-se. No segundo andar, o último, a casa lhe pareceu infinita e crescente…”

No seu ensaio, “Borges ou do conto filosófico”, Arrigucci Jr. mostrava que era um engodo a indiferença de Borges à história, e provava. Mas o que é delicioso, e já inscrito no próprio título do livro, é que Ficções é uma festa do fingido, do artificioso, do engenho fabricado, da intenção de levar uma existência absolutamente autônoma com relação à realidade. Nos tempos que correm, de fixação infantil em reality shows e coisas do gênero, como é saudável haver tais Ficções que não se envergonham de sê-las.  O que enche mesmo a paciência são os imitadores da grande arte borgiana.