“é preciso estar pronta para escutar as pequenas chances que o passado dá…”
Luana Rodrigues

Créditos da imagem: Ana Elisa Egreja. Natureza morta com ovos, 2023. Obra de arte concebida especialmente para a capa do livro As pequenas chances.
“A morte é abstrata mas dói em detalhes concretos, e essas duas instâncias, a concreta e a abstrata, nunca se encontram, daí a estranheza”.
Após imergir nos sentimentos que permeiam os relacionamentos contemporâneos em Copo Vazio, Natália Timerman agora se aventura por um outro caminho, narrando em seu novo livro uma ausência ainda mais difícil. Em As Pequenas Chances, Timerman explora a tensão entre a ficção e a vida, desfiando as lembranças que envolveram a morte de seu pai e o nascimento de seu primeiro filho: “parir é partir: ir embora de si mesma, e então poder chegar de novo depois de morrer”. As páginas desta obra esculpem um caminho sinuoso que vai do luto profundo à celebração da vida, no qual as lembranças e o amor se entrelaçam como fios de um tecido emocionalmente denso.
As Pequenas Chances se desdobra em três capítulos que adotam uma tonalidade por vezes ensaística, tecendo uma intricada mescla do pessoal e do coletivo. Nas duas primeiras partes da obra lemos a intensidade dos sentimentos de luto, acompanhamos a autodescoberta de Natália e o retorno angustiado da irmã Gabi que, do outro lado do mundo, espera chegar a tempo de ver o pai com vida. A terceira parte vai ao encontro da dimensão coletiva da narrativa. Nessa etapa, a trama desloca-se para o panorama mais abrangente da história judaica, numa tentativa de traçar as linhas que conectam não apenas a família de Natália, mas também diversas outras famílias judias que encontraram abrigo no Brasil no início do século. Através dos emaranhados da realidade e da ficção, as lacunas da história coletiva e as memórias do pai de Natália podem tornar-se presença viva.
A narrativa nos conduz, então, desde as tentativas da protagonista de encontrar uma ordem interna diante da inescapável realidade da morte de seu pai até a jornada de Natália, personagem central, através de terras romenas e ucranianas em busca de uma possível reconstrução das memórias de seus avós. Esses avós, judeus que emigraram para o Brasil antes da Segunda Guerra Mundial, surgem como figuras que continuam a ecoar no tecido de sua existência e nas páginas desta narrativa multifacetada.
Assim, a autora, através de sua escrita, encontra uma voz que ressoa na intensidade de seu próprio luto, uma voz que reverbera na tessitura das palavras que constrói. O eu narrativo se manifesta como um agente ativo, utilizando a escrita não apenas como um meio de expressão. A narrativa explora os matizes da perda e reelabora a própria subjetividade da protagonista a partir da consciência brutal da mortalidade: “A morte é abstrata porque nunca vivemos o tempo todo na presença de alguém. A ausência das pessoas faz parte da vida, sempre se dá, cotidianamente; nada indica que seja definitiva dessa vez. A pessoa estava longe porque ia trabalhar, viajava, ficava na sua casa ou dormia. Tudo está mais ou menos no mesmo lugar, vive-se na mesma cidade, a mesma rotina, então a consciência repentina e aleatória que nos assalta de tempos em tempos, de que a ausência agora é definitiva, causa também algum tipo de culpa, como se, ao nos depararmos com o definitivo da morte, a estivéssemos provocando de novo”.