Que legal: na nova Escriva, a revista virtual da Escrita Criativa da PUCRS, saiu um conto inédito meu, ao lado dos trabalhos criativos de outros colegas e escritores, além de um dossiê sobre sátira, ironia e opressões de gênero na literatura.
Quem desejar ler o meu conto e os dos outros escritores que fizeram parte da revista, segue aqui o link:
http://www.revistaescriva.com/somos-todos-assassinos.html
Em “Somos todos assassinos”, a tentativa de desvendar o mistério contido em “O assassino ameaçado” de Magritte faz com que o personagem descubra o outro homem que mora dentro do seu corpo.
Com participações especialíssimas – e creditadas – de Balzac, Rousseau, Thoreau e Iron Maiden.
Boa leitura.
Somos todos assassinos

Levantou cedo para caminhar no parque: precisava pensar em um artigo sobre “O assassino ameaçado”, de Magritte. Existe algo de tranquilizante quando se caminha em círculos ao redor de uma paisagem estática, um passo sucedendo ao outro, a sequência não necessariamente linear, mas progressiva, assim como funcionavam os termos de uma oração, uma letra colada na sua vizinha, a palavra posterior precipitando-se depois da anterior – ambas formando uma frase – e o consequente encadeamento de frases dando origens a parágrafos até desembocar no inevitável texto. Escrever e caminhar em círculos não é tão diferente assim, e o pensamento lhe divertiu. Não estava passeando, mas escrevendo a si próprio, e lembrou-se de mais pessoas nessa situação: Flaubert passeando entre as aleias congeladas de sua propriedade; os louvores de Voltaire ao caminhante solitário; a saída de Balzac que devia durar uma hora e acabara se estendendo por todo o dia, pois ele escreveu mentalmente os dezessete volumes de “A Comédia Humana” enquanto caminhava; os passeios infindáveis de Thoreau pela floresta onde se isolara. Ato contínuo, os fones de ouvido despejaram dentro da sua cabeça “The loneliness of the long distance runner”; sentiu-se em um lugar inóspito, onde seus passos eram o elemento destoante e onde cada pegada era única e ficaria ali pelo resto dos tempos, sem ser atrapalhada pelo vento ou por outros seres, uma lembrança de que ele deixara marcas por onde passara.
O grande obstáculo para o artigo era não entender o que estava na imagem. Era um crítico de arte de renome, e a simples existência de uma obra que não cedia diante das suas investidas interpretativas era singular. O assassino acabou de cometer o crime: todos sabiam que ele era o responsável, e vários olhos seguiam os seus movimentos. O próprio espectador acompanhava os passos sorrateiros. Ele estava de costas para a mulher assassinada, aparentando interesse pelo gramofone. Ao lado da porta, dois homens esperavam para entrar no quarto, um deles portando um porrete, o outro uma rede. Na janela, mais três desconhecidos de chapéu mantinham-se atentos, em uma atitude quase voyeur. O homem permanecia sob vigilância, mas não ameaçado. A sua calma contrastava com o ambiente repleto de tensão. Ele não agia como alguém culpado e sequer parecia com um, pois qual é o bandido que retira o casaco e o chapéu antes de cometer um crime? A semelhança dos traços fisionômicos do assassino com os guardas que estavam prestes a capturá-lo era outro ingrediente contraditório, pois dava a sensação de que todos ali se confundiam, flagrados em meio a um crime confuso.
Pensava em como iniciar o artigo – pois, afinal, uma frase seguiria a outra, em uma atração quase inevitável, o difícil era a faísca inicial – quando foi interrompido por uma mulher segurando uma planilha. Ela mascava chicletes, e as mandíbulas mexendo de forma escandalosa hipnotizaram-no por alguns segundos. No meio daquele levantar e abaixar sincopado de dentes, saiu uma pergunta meio mastigada: não quer participar de uma rústica ao redor do parque? Demorou segundos para entender o que era uma rústica. Sua primeira reação foi de raiva, pois considerou grosseira a interrupção. No entanto, logo veio a perplexidade – uma rústica? Mas ele não corria desde a época do colégio! Aprontava-se para seguir adiante quando a mulher, olhando as próprias unhas, acrescentou que uma equipe de televisão tinha vindo e ele só participaria da filmagem como figurante, para fazer volume, não era para correr a sério, não te preocupa, meia volta no parque e tu pode ir embora.
Por instantes, a imagem do assassino cercado por inimigos foi esquecida. Quem era aquela mulher para tratá-lo com tamanho desrespeito, como se ele fosse um figurante na grande história da vida, um dos anônimos que ficavam no meio das multidões nos filmes, sempre ladeando os verdadeiros atores? Ela não o chamou para correr, e sim para fechar um número aceitável de participantes capazes de justificar a presença da rústica em dez segundos de algum telejornal noturno. Era muito desaforo.
Ao mesmo tempo, cresceu a dúvida: e se? Fazia tanto tempo que não corria, nem lembrava mais como era. Não tinha ninguém ali o olhando. Ele era o perfeito desconhecido. Ninguém saberia que o famoso professor de crítica de arte entregara-se à voluptuosidade da corrida. Não existiriam julgamentos ou risadas. Por Deus, era só correr por diversão, que mal existiria nisso?
Quando percebeu, estava assinando a ficha de participação e recebendo um número para colar na camisa, 177. Com passos de quem não sabia a etiqueta para se comportar, ele se reuniu aos demais competidores, espalhados em pequenos círculos na extremidade do parque. Percebeu os olhares divertidos ao redor. Todos possuíam corpos atléticos e estavam no auge da forma física. Vendo aquele homem baixinho, com uma barriga nada discreta e a roupa inapropriada para correr, sabiam que ali não estava alguém digno de ser considerado como oponente. Era mais um daqueles retardatários que entravam na corrida para serem ultrapassados, mais um dos percalços de qualquer competição que se pretende democrática e acolhedora a todos, mas não passa de um arremedo de igualdade.
Enquanto esperava o início da prova, o homem ajeitou a sequência de músicas no seu tocador digital. Resolveu escolher a mais empolgante primeiro, em seguida outra empolgante, depois uma visceral, uma pela batida da bateria, após uma música eletrônica desgarrada e, ao final, uma romântica. Devia ser o bastante. Enquanto selecionava as músicas, deixou seu pensamento vagar: o assassino estava na sala. O piso continuava limpo. Todos sabiam, todos o acompanhavam. Mas ele não cometeu o crime, pois faltava nos seus gestos toda a intenção de se transformar em um assassino. Estava sendo implicado por algo que não fizera, e o crítico sentiu que, dependendo da sua argumentação, podia lançar uma nova e perturbadora possibilidade sobre o quadro de Magritte.
Percebeu uma movimentação no grupo. Ao longe, a equipe de televisão estava posicionada. Todos pararam junto à largada e o homem acionou a sequência de músicas escolhidas, sentindo o corpo ser preenchido pelos acordes. A música desencadeou uma reação repentina nos músculos envelhecidos. Percebeu a energia espalhar-se em ondas como uma queimação, partindo do cérebro e das orelhas. Foi violentado por algo muito maior do que a própria vida. Ergueu a cabeça e viu o céu encharcado de azul, as árvores trêmulas, duas pombas atravessando uma nuvem perdida. O ar da manhã ainda era jovem, como aquele que permeava a primeira aurora do mundo. Quando abaixou a cabeça depois de um tempo indefinido, o sangue apossou-se dos seus olhos e, por trás da civilização dos seus 55 anos, notou o animal pulsante, ansioso para se libertar da sua capa humana. Ansioso para correr.
As pessoas superestimavam a Humanidade. Existia uma besta sanguinolenta dentro de cada um, e a música nos seus ouvidos pareceu-lhe a cerimônia que ressuscitava um deus morto. Os pulmões encheram-se de ar. Os pés ciscaram o chão, inquietos. Nas suas retinas, o assassino deslizava, melífluo como a água de uma cascata, pois nunca seria pego. O gramofone, aí estava o centro do quadro. O seu pensamento não se articulava de forma coerente, tudo se misturava, ele, Balzac contendo 17 volumes dentro da sua cabeça, o latido distante de um cachorro, Voltaire diante de um lago crispado pela neve ainda imberbe, o resfolegar dos homens e mulheres ao seu redor esperando o juiz, Thoreau conversando com as árvores, o assassino ignorando a mulher morta – um mundo inteiro morava dentro dele.
O disparo.
O primeiro passo coincidiu com o momento exato em que ocorreu a troca da música. Um novo ímpeto apossou-se de si e ele se lançou na corrida. Ultrapassou a primeira pessoa e aquele foi o estímulo necessário para lançar-se à perseguição dos demais corredores. Os pés ansiavam em se libertar dos tênis, encontrar a força telúrica que morava nos cascalhos ancestrais. Não pensava em nada: o estraçalhar do vento, o desprezo à gravidade, e ele se transformara em um fio desencapado, repleto de violência. Enquanto corria, o coração bombeava sangue com raiva e os pulmões gritavam de felicidade ao se sentirem, enfim, depois de tantos anos, novamente úteis.

Ultrapassou mais alguns, e a primeira curva o encontrou logo atrás do pelotão que liderava a corrida. Risadas estranguladas escapavam dos lábios secos, e o suor tomara conta da sua camisa. Percebeu os corredores virando o pescoço por breves segundos e deixou uma gargalhada alvejar as costas inimigas. Eles não queriam correr? Pois estava na hora da aula, jovens.
Em uma manobra ousada, por fora da pista, ultrapassou os cinco competidores que mantinham a dianteira. Percebeu os olhares em pânico no momento em que a terceira música se apossou da sua alma e se entremeou no seu DNA. Sentiu as vísceras retorcerem, lembrando o motivo pelo qual dormitavam no fundo do seu corpo. Estava levando os músculos das pernas a limites que eles desconheciam. Calafrios atravessavam os seus pelos, mas ele não podia parar, e pequenos buracos negros acordaram no meio das suas coxas, mas ele não podia parar. Estava na iminência de uma falha generalizada do corpo. Ter esta noção o fez gritar mentalmente que ou eles iam correr como nunca tinham corrido ou morreriam juntos, mas desistir não era uma opção. Como um general ordenando as suas tropas, sentiu os calafrios se recolherem, os músculos das pernas se submeterem à dor, os vazios nas coxas voltarem a ser preenchidos de carne e de medo.
Quando o coração cedeu às evidências de que não poderia suportar aquele ritmo tresloucado, não depois de tantos anos de preguiça e sedentarismo, o professor começou a ofegar. Os demais competidores se aproximaram. Não dava mais conta do ritmo imposto a si mesmo e, no momento em que anteviu a possibilidade de desmoronar, a música com um tuc-tuc-tuc selvagem iniciou. Ele se concentrou no que escutava. A bateria impregnada de juventude ensinou o coração a recuperar o ritmo, a se concentrar nas batidas. Os passos passaram a acompanhar a música, assim como o coração, e logo ele voltava ao mesmo ritmo forte de antes.
Ultrapassava a metade do percurso no instante em que a idade lhe atingiu como um soco invisível. Em um princípio de pânico, sentiu os anos de excessos apresentarem a sua fatura. A cervejinha diária, o cigarro largado quatro meses atrás e ainda queimando por dentro como uma brasa obscena, os churrascos empilhando gordura nas artérias, as noites que passava sem dormir, o cotidiano dentro de um carro. Alguém da sua idade não podia fazer aquilo, correr como um desesperado inconsequente era coisa de gente jovem, por Deus, ele era um professor de respeito, um homem acostumado a dar palestras pelo país todo, um pesquisador cujas maiores caminhadas eram dadas em insossos coquetéis de universidade. A razão saiu do canto da alma onde se escondia e, com sua língua bífida, veio lhe sussurrar motivos. A contragosto, deixou o ritmo diminuir. Concluiu que tinha ido longe demais na loucura, mas, no mesmo segundo, a música eletrônica intrometeu-se no seu playlist e lembrou-lhe da sua juventude, quando tudo parecia ao alcance da mão. Junto com tal imagem, notou que estava correndo contra si mesmo. O único oponente era o outro homem cansado que corria dentro da sua sombra, e lembrou-se de Crísias, “seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa”, o segredo da juventude era deixar a sombra sempre correndo atrás. O pensamento foi o combustível para afastar a idade, este veneno que se espalhava como ervas daninhas pelo seu corpo, erodindo o seu espírito com a sabedoria de um musgo antigo, e ele enfim se libertou dos limites do próprio tempo.
Aproximava-se a parte final da corrida. Entrou na última reta. Não existiam mais oponentes a lhe ameaçar, mas o seu inimigo interno continuava construindo castelos de vento. Sangue ribombava pelas suas veias, triunfal, alardeando a sua passagem com os clarins de um exército vencedor. No entanto, a insuficiência do que estava fazendo começou a lhe pesar nas passadas. O que pretendia provar? Que podia correr como um jovem? Qual o sentido daquele sacrifício, de tamanha dor? Podia ver a linha de chegada crescer no horizonte, mas também sentia passos invisíveis e resfolegantes a lhe perseguirem e os dedos insidiosos da dúvida tentando interromper a jornada. Ele podia se refugiar nos louros da sua vitória interna: correra de igual para igual uma corrida impossível. Não precisava mostrar mais nada para ninguém, a única plateia que interessava era ele mesmo.

Confortava-se com tal pensamento quando o amor do passado ressuscitou dentro dos seus ouvidos, trazido pelas ondas sonoras. A recordação trouxe a menina de cabelos cacheados e olhos tristes, e ele entendeu a resposta. Mais do que o corpo, mais do que a raiva, mais do que o tempo, o que movia todos os seus passos era o amor. A música sussurrava promessas impossíveis de algo maior do que ele, e o homem viu que não era mais um ser humano, e sim uma máquina disputando a corrida da vida, sabendo que tudo faria sentido se o beijo acalentador o esperasse ao final, um cálice de calma no meio do turbilhão do mundo. Foi com o sonho de um beijo que ele atravessou a linha de chegada, saudado pelos aplausos das poucas pessoas que esperavam.
Com dificuldade, o professor parou a corrida. No mesmo momento, todo o cansaço e o desgaste lhe atingiram como se fossem corredores retardatários. Sentiu que o seu corpo se esgarçava até o limite do universo. Só não desmaiou por que a vergonha de cair na frente de desconhecidos superou a tomada de consciência do que acontecera.
Demorou um pouco para retomar o controle. Viu os demais corredores cochichando, tentando entender como o figurante anônimo conseguira se destacar. Quando percebeu os flashes, estava sobre um improvisado pódio, um arremedo de coroa de flores sobre a cabeça e câmeras apontadas na sua direção, enquanto uma medalha dependurava-se no seu pescoço.
Com passos lentos, voltou para casa. Tinha certeza de que levaria uma semana, quiçá duas, para as fibras musculares voltarem a se acalmar; lembraria da corrida quando sentasse, quando deitasse, quando sorrisse. Pensava em como explicar para a sua mulher e para os dois filhos aquela medalha. Era melhor dizer que achara em um banco do parque. Livrou-se da coroa improvisada. Demorou um pouco para perceber que os barulhos do cotidiano infestavam a cidade. O tocador digital estava silencioso. Ele analisou a ordem das músicas: ali estava o comando mental que o forçava a correr. Foi uma coincidência que ditou a sua escolha naquele dia, mas devia existir uma sequência para cada fato humano, uma ordem musical ou de quadros ou de movimentos de dança ou de livros ou de qualquer outra expressão artística, algo capaz de deflagrar o surgimento de outro homem. As pessoas passam a vida procurando a programação que irá fazê-las amar, ou escrever como se tudo na vida se limitasse a dedos e a pena, ou cozinhar jantares dignos de um panteão olímpico. Não era espantoso que Magritte tivesse colocado a verdade dentro de um quadro, diante dos olhos das testemunhas e espectadores que se detinham perante a obra: o homem retratado descobrira a sequência musical que o fazia matar e quedava-se, surpreso, diante do gramofone.
Dessa maneira atribulada, nasceu a primeira frase do texto futuro: “Somos todos assassinos, só que ainda não sabemos.” O professor apressou-se, ansioso para prender a ideia dentro das quatro linhas de um papel, a medalha esquecida na mão, a coroa de louros e a sua vitória apodrecendo dentro de um lixo anônimo.