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Mar22

Maria do Rosário Pedreira

De há uns doze anos a esta parte dedico-me quase exclusivamente à edição de literatura em língua portuguesa, a que acrescento, esporadicamente, livros estrangeiros de jovens autores promissores, especialmente de países com línguas menos procuradas pelos meus colegas (catalão, coreano, neerlandês, alemão...); mas quando comecei a carreira, e ao longo de quase de vinte anos, publiquei muitíssimos livros traduzidos, de ficção e não-ficção, de biografias a testemunhos, ensaios ou aquilo a que os ingleses chamam «não-ficção narrativa». Já há séculos, porém, que não era contactada por esses editores e agentes com quem trabalhei muito no passado. Mas eis que eles de repente aparecem a propor obras com um denominador comum: o facto de serem de autores ucranianos ou dizerem mal da Rússia e lhe apontarem os defeitos e os podres. E, reparem, nem tem nada que ver com a Rússia de Putin, muitas vezes são livros já esquecidos de dissidentes da União Soviética, que deviam estar parados nos catálogos; mas, em cenário de guerra, ressuscitam e são potenciais sucessos de vendas. Se alguma vez pensei que as terríveis circunstâncias que vivemos ainda se haveriam de tornar motivo para uns negócios em livros que pareciam obsoletos... Ele há coisas.