Eric D. Snider, jornalista free-lancer de Portland, foi banido pela Paramount Pictures de todas as entrevistas coletivas e pré-estréias patrocinadas pela produtora. Motivo: ele aceitou um convite para participar de um destes eventos, e em vez de escrever uma matéria elogiosa, contou tudo que aconteceu e perguntou: “Será que é preciso gastar tanto dinheiro, de uma maneira tão idiota, sob o pretexto de divulgar um filme?” O artigo intitula-se “I was a junket whore”, “Eu me prostituí por mordomias” (“junket” significa algo como “mordomia, boca-livre”), e pode ser lido em: http://www.ericdsnider.com/snide/i-was-a-junket-whore. Snider viajou de Portland a Seattle para cobrir o lançamento de “World Trade Center”, de Oliver Stone. Ganhou duas diárias num hotel de luxo, 125 dólares para alimentação, e o direito a duas conversas de 20 minutos, com mais seis jornalistas, com atores do filme e com os personagens reais que eles interpretam, e por fim mais 20 minutos com Oliver Stone.

Snider embarcou na empreitada achando que havia algo de errado, e já disposto a criticar. Mas seu julgamento é sensato, bem argumentado, com alguns toques de humor mas evitando o tom frívolo da imprensa “pop”. Um dos jornalistas presentes com ele ao papo com Oliver Stone mencionou de modo casual em sua coluna, dias depois: “Acabei de lanchar com Oliver Stone: uma bandeja com frutas e queijo, além de bolachas, nas quais ele mal tocou, limitando-se a pedir café. Stone disse que decidiu lançar uma versão reeditada de Alexandre...” Ou seja: o sujeito passa para seus leitores a sensação de que é importante, de que teve um lanche-a-dois com uma estrela de Hollywood. Na verdade, eram seis jornalistas de um lado da mesa, Stone entrou, cumprimentou todos, de um por um, respondeu as perguntas, tomou café, voltou a cumprimentar todos, e saiu para a próxima entrevista.

Diz Snider, sobre seus coleguinhas: “Quando eles falavam sobre filmes, não falavam se eles eram bons ou maus. Falavam sobre quem aparecia neles, e como eram essas pessoas. O cara de Vancouver parecia pensar em filmes somente em termos de quem eram as estrelas e se ele conseguira ou não entrevistá-las. A idéia de criticar um filme, discutir seus méritos como arte ou como entretenimento, pareciam-lhe totalmente estranhas. Eu, como crítico de cinema, achava aquilo inquietante, uma versão Mundo Bizarro do mundo em que vivíamos eu e meus colegas”.

Entre passagens de avião, táxi, hotel e alimentação, a Paramount gastou 1.100 dólares com Snider, para não falar no aluguel das suítes onde transcorria a entrevista, os lanches, etc. e tal. Pergunta ele: multiplicando isto por todos os jornalistas-de-aluguel que participam, será que vale a pena, em termos de ingressos vendidos? Isto pode ser considerado divulgação, mesmo do ponto de vista estritamente financeiro dos balancetes da empresa (deixando-se de lado questões como ética jornalística, importância da crítica de cinema, etc.)?