Desde seu surgimento, as Histórias em Quadrinhos percorreram um longo caminho para, enfim, alcançarem o devido reconhecimento como uma nova forma de arte. Sucesso juvenil e editorial, as HQ’s, em determinado período histórico, passaram a ser atacados por jornalistas, educadores, políticos, religiosos. Estes enxergavam ali apenas imoralidades, subliteratura que tornava as coisas demasiadamente fáceis, falta de estilo e sutileza, humorismo imbecil que reduz a grandeza da linguagem a grosseiros monossílabos.
O reconhecimento das histórias em quadrinhos como uma produção cultural, artística e ideológica deu grandes passos nos últimos 30 anos, a partir da valorização por intelectuais europeus do porte de Umberto Eco, Alain Resnais e Frederico Fellini. Em âmbito nacional merecem destaques, como pioneiros na reflexão sobre teoria e história dos quadrinhos: Moacy Cirne, Marcos Antônio da Silva, Álvaro Moya, Sônia Bibe Luyteb, entre outros (SÁ, 2006).
Até a metade do Século XX, os quadrinhos estavam dominados, sobretudo, por personagens infantis, super-heróis e histórias de aventura. Contudo foi a partir da década de 60, à luz do movimento underground, que as HQ’s foram viradas de cabeça para baixo. A temática underground girava em torno da contracultura e, portanto, trazia para a cena os questionamentos sobre a guerra do Vietnam, direitos humanos, anarquismo, comunismo, socialismo, liberação das mulheres, sexo, drogas.
A caça às bruxas e a má-vontade com os quadrinhos não impediram o surgimento de autores como Will Eisner, Harvey Kurtzman, Robert Crumb, Frank Miller, Alan Moore, Dave Gibbons, Art Spiegelman, entre tantos outros, que transcendiam os gêneros existentes e as estruturas mais comerciais para inovar na narrativa, deixando marcas positivas nas transformações que posteriormente os quadrinhos viria a absorver.
Na década de 70 Will Eisner inaugura o termo graphic novel na obra “Contrato com Deus”, aproximando ainda mais os quadrinhos do romance e da literatura. Agora o quadrinho tinha um formato que lhe possibilitava um desenvolvimento e variedade maior nos seus aspectos narrativos, o termo a seguir, também elaborado pelo próprio Eisner, foi arte-seqüencial. Este termo denota uma preocupação com a arte de narrar através de imagens sucessivas em seus diversos enquadramentos, suas relações entre texto e imagem, e que lhe garantiria maiores possibilidades artísticas e narrativas. (EISNER, 1999)
“O Contrato com Deus”, de Will Eisner, foi um dos álbuns que inaugurou o quadrinho de testemunho. Na verdade eram histórias inspiradas na vivência pessoal do autor, procurando resgatar a “história” através das “memórias”. Servindo como estímulo, vários autores têm aprofundado essa relação, alguns por meio dos relatos autobiográficos, outros que trabalhavam os quadrinhos de forma jornalística. Dentre todas graphic novel nenhuma foi tão aclamada quanto a obra MAUS, de Art Spiegelman.
O universo das histórias em quadrinhos está dividido em antes e depois de MAUS. Responsável pelo primeiro Prêmio Pulitzer para uma HQ, o filho de um sobrevivente dos campos de concentração foi fundo ao representar a crueza inominável de Auschwitz.
Maus – rato em alemão – é a narrativa memorialista em quadrinhos dos fatos ocorridos com Vladek Spiegelman – pai de Art Spiegelman, artista conhecido por suas incursões no universo da vanguarda dos quadrinhos. A narrativa aborda o período anterior à II Guerra Mundial, passando pelos campos de concentração. O livro descreve o próprio processo de criação de MAUS, do ambiente em que as conversas se deram, do complicado relacionamento entre pai e filho, das mudanças na vida pessoal do autor durante a produção da revista.
A característica dessa obra foi de quebrar com a linguagem do quadrinho hiper-real e se aproximar de um caráter mais documental: toda em preto e branco, enquadramentos muitas vezes simples, pouco espetaculares, trabalho minucioso com a memória e a metalinguagem. Sua narrativa é centralizada na relação entre texto, imagem e como esta relação constrói a noção de espaço e tempo, passando para o leitor a idéia do real.
Como numa fábula, na qual animais representam comportamentos e características humanas, em MAUS os personagens são caracterizando de forma minimalista – os nazistas como gatos, os judeus como ratos, poloneses como porcos, franceses como sapos e americanos como cachorros – o autor consegue, através de um trabalho psicológico dado aos seus personagens e descrevendo apenas simples fatos do cotidiano, apresentar profundas memórias sobre algo que nos parece tão distante, mas ainda dói em muitos, e deixa cicatrizes: o Holocausto.
O Holocausto judeu – considerado por muitos como o acontecimento mais degradante e desumano que figurou na II Grande Guerra – causa dúvidas, indignação e produz controvérsias entre os estudiosos. De um lado, cada vez mais, e com maior evidência, os chamados revisionistas procuram pôr em dúvida a veracidade, as proporções, a intensidade e as conseqüências do horror do Holocausto, procurando suscitar a desconfiança inclusive quanto aos relatos dos sobreviventes.
Considerando todas as interrogações e suas respostas, o que realmente chegamos a conhecer e saber sobre o Holocausto, para ultrapassar as versões oficias que os livros de história nos apresentam?
Este trabalhado, tão bem recebido pela crítica, nos possibilita uma nova interpretação do holocausto. A leitura dessa obra é imprescindível, já que nos deparamos com uma corrente histórica que nega o holocausto, seu legado, suas testemunhas e a memória dos seus sobreviventes.
De acordo com Jacques Le Goff (1994, p. 447), é neste processo de memória – construção e manutenção – que os indivíduos acabam por moldar sua própria identidade, individual e coletiva. E no caso das vítimas do anti-semitismo – seja dos horrores do holocausto ou até formas mais recentes deste mal – este processo é de suma importância, inclusive para a própria existência dos personagens envoltos neste processo. Nessa perspectiva que percebemos como MAUS, se configura como importante elemento de suporte na manutenção da memória. Memória não apenas pessoal, mas coletiva.
Em MAUS espera-se dos leitores uma participação ativa na criação da história, por isso o minimalismo, aqui os personagens são figuras banais, comuns, inexpressivas, nunca famosos heróis, detetives ou ricos fabulosos. MAUS no pouco nos diz muito, proporcionando em muitos inquietações, dúvidas, anseios, angústias e lágrimas, mas quem sabe um sorriso, por saber que os que morreram não foram esquecidos e aqueles que resistiram ao terror tem muito o que contar e ensinar.
Como fim desse humilde ensaio eu deixo uma pergunta. Caso MAUS fosse uma fábula, qual seria sua moral?
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Editora da Unicamp, 1994.
MOYA, Álvaro de. História da História em Quadrinhos. São Paulo: Brasiliense,
1996.
SÁ, Antônio Fernando de Araújo. Combates entre História e Memória. São Cristovão/SE. Editora UFS, 2005. V1. 326p.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. O século sombrio: Uma historia geral do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. 345p.
SPIEGELMAN, Art. Maus. São Paulo: Cia. das letras, 2005.by

por José Reinaldo do Nascimento Filho
Desde seu surgimento, as Histórias em Quadrinhos percorreram um longo caminho para, enfim, alcançarem o devido reconhecimento como uma nova forma de arte. Sucesso juvenil e editorial, as HQ’s, em determinado período histórico, passaram a ser atacados por jornalistas, educadores, políticos, religiosos. Estes enxergavam ali apenas imoralidades, subliteratura que tornava as coisas demasiadamente fáceis, falta de estilo e sutileza, humorismo imbecil que reduz a grandeza da linguagem a grosseiros monossílabos.
O reconhecimento das histórias em quadrinhos como uma produção cultural, artística e ideológica deu grandes passos nos últimos 30 anos, a partir da valorização por intelectuais europeus do porte de Umberto Eco, Alain Resnais e Frederico Fellini. Em âmbito nacional merecem destaques, como pioneiros na reflexão sobre teoria e história dos quadrinhos: Moacy Cirne, Marcos Antônio da Silva, Álvaro Moya, Sônia Bibe Luyteb, entre outros (SÁ, 2006).
Até a metade do Século XX, os quadrinhos estavam dominados, sobretudo, por personagens infantis, super-heróis e histórias de aventura. Contudo foi a partir da década de 60, à luz do movimento underground, que as HQ’s foram viradas de cabeça para baixo. A temática underground girava em torno da contracultura e, portanto, trazia para a cena os questionamentos sobre a guerra do Vietnam, direitos humanos, anarquismo, comunismo, socialismo, liberação das mulheres, sexo, drogas.
A caça às bruxas e a má-vontade com os quadrinhos não impediram o surgimento de autores como Will Eisner, Harvey Kurtzman, Robert Crumb, Frank Miller, Alan Moore, Dave Gibbons, Art Spiegelman, entre tantos outros, que transcendiam os gêneros existentes e as estruturas mais comerciais para inovar na narrativa, deixando marcas positivas nas transformações que posteriormente os quadrinhos viria a absorver.
Na década de 70 Will Eisner inaugura o termo graphic novel na obra “Contrato com Deus”, aproximando ainda mais os quadrinhos do romance e da literatura. Agora o quadrinho tinha um formato que lhe possibilitava um desenvolvimento e variedade maior nos seus aspectos narrativos, o termo a seguir, também elaborado pelo próprio Eisner, foi arte-seqüencial. Este termo denota uma preocupação com a arte de narrar através de imagens sucessivas em seus diversos enquadramentos, suas relações entre texto e imagem, e que lhe garantiria maiores possibilidades artísticas e narrativas. (EISNER, 1999)
“O Contrato com Deus”, de Will Eisner, foi um dos álbuns que inaugurou o quadrinho de testemunho. Na verdade eram histórias inspiradas na vivência pessoal do autor, procurando resgatar a “história” através das “memórias”. Servindo como estímulo, vários autores têm aprofundado essa relação, alguns por meio dos relatos autobiográficos, outros que trabalhavam os quadrinhos de forma jornalística. Dentre todas graphic novel nenhuma foi tão aclamada quanto a obra MAUS, de Art Spiegelman.
O universo das histórias em quadrinhos está dividido em antes e depois de MAUS. Responsável pelo primeiro Prêmio Pulitzer para uma HQ, o filho de um sobrevivente dos campos de concentração foi fundo ao representar a crueza inominável de Auschwitz.
Maus – rato em alemão – é a narrativa memorialista em quadrinhos dos fatos ocorridos com Vladek Spiegelman – pai de Art Spiegelman, artista conhecido por suas incursões no universo da vanguarda dos quadrinhos. A narrativa aborda o período anterior à II Guerra Mundial, passando pelos campos de concentração. O livro descreve o próprio processo de criação de MAUS, do ambiente em que as conversas se deram, do complicado relacionamento entre pai e filho, das mudanças na vida pessoal do autor durante a produção da revista.
A característica dessa obra foi de quebrar com a linguagem do quadrinho hiper-real e se aproximar de um caráter mais documental: toda em preto e branco, enquadramentos muitas vezes simples, pouco espetaculares, trabalho minucioso com a memória e a metalinguagem. Sua narrativa é centralizada na relação entre texto, imagem e como esta relação constrói a noção de espaço e tempo, passando para o leitor a idéia do real.
Como numa fábula, na qual animais representam comportamentos e características humanas, em MAUS os personagens são caracterizando de forma minimalista – os nazistas como gatos, os judeus como ratos, poloneses como porcos, franceses como sapos e americanos como cachorros – o autor consegue, através de um trabalho psicológico dado aos seus personagens e descrevendo apenas simples fatos do cotidiano, apresentar profundas memórias sobre algo que nos parece tão distante, mas ainda dói em muitos, e deixa cicatrizes: o Holocausto.
O Holocausto judeu – considerado por muitos como o acontecimento mais degradante e desumano que figurou na II Grande Guerra – causa dúvidas, indignação e produz controvérsias entre os estudiosos. De um lado, cada vez mais, e com maior evidência, os chamados revisionistas procuram pôr em dúvida a veracidade, as proporções, a intensidade e as conseqüências do horror do Holocausto, procurando suscitar a desconfiança inclusive quanto aos relatos dos sobreviventes.
Considerando todas as interrogações e suas respostas, o que realmente chegamos a conhecer e saber sobre o Holocausto, para ultrapassar as versões oficias que os livros de história nos apresentam?
Este trabalhado, tão bem recebido pela crítica, nos possibilita uma nova interpretação do holocausto. A leitura dessa obra é imprescindível, já que nos deparamos com uma corrente histórica que nega o holocausto, seu legado, suas testemunhas e a memória dos seus sobreviventes.
De acordo com Jacques Le Goff (1994, p. 447), é neste processo de memória – construção e manutenção – que os indivíduos acabam por moldar sua própria identidade, individual e coletiva. E no caso das vítimas do anti-semitismo – seja dos horrores do holocausto ou até formas mais recentes deste mal – este processo é de suma importância, inclusive para a própria existência dos personagens envoltos neste processo. Nessa perspectiva que percebemos como MAUS, se configura como importante elemento de suporte na manutenção da memória. Memória não apenas pessoal, mas coletiva.
Em MAUS espera-se dos leitores uma participação ativa na criação da história, por isso o minimalismo, aqui os personagens são figuras banais, comuns, inexpressivas, nunca famosos heróis, detetives ou ricos fabulosos. MAUS no pouco nos diz muito, proporcionando em muitos inquietações, dúvidas, anseios, angústias e lágrimas, mas quem sabe um sorriso, por saber que os que morreram não foram esquecidos e aqueles que resistiram ao terror tem muito o que contar e ensinar.
Como fim desse humilde ensaio eu deixo uma pergunta. Caso MAUS fosse uma fábula, qual seria sua moral?
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Editora da Unicamp, 1994.
MOYA, Álvaro de. História da História em Quadrinhos. São Paulo: Brasiliense,1996.
SÁ, Antônio Fernando de Araújo. Combates entre História e Memória. São Cristovão/SE. Editora UFS, 2005. V1. 326p.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. O século sombrio: Uma historia geral do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. 345p.
SPIEGELMAN, Art. Maus. São Paulo: Cia. das letras, 2005.