como escritor é que eu me vejo tradutor, de fato; como alguém que escreve, ou reescreve, um texto agora, assumindo a responsabilidade de uma escrita.
Bruno Pernambuco
Guilherme Gontijo Flores, tradutor, professor universitário de latim e poeta, autor de livros como carvão::capim (2018) e Potlatch (2022), traduziu, em 2021, Pantagruel e Gargântua, compêndio de romances de François Rabelais. Abaixo, Guilherme conversa conversa com a Fina sobre a elaboração do livro e sobre sua experiência no trabalho de tradução
Fina: O que do seu trabalho como escritor você sente que trouxe para o projeto de traduzir textos de Rabelais? Teve algo que você precisou deixar de lado?
Guilherme: Bom, como escritor é que eu me vejo tradutor, de fato; como alguém que escreve, ou reescreve, um texto agora, assumindo a responsabilidade de uma escrita. Claro que a tradução envolve a obra de outra pessoa, o abismo anacrônico de um encontro, então preciso levar isso em conta, mas nunca penso como quem precisa deixar algo de lado. Recuso a ideia de perda em tradução e prefiro, em seu lugar, insistir no processo de criação paralela, em diálogo intenso. O que posso perder, no caso, é o leitor sincrônico de Rabelais, mas ganho os leitores do português, os meus contemporâneos como leitores de um sabor de linguagem que só pode existir aqui, agora.
F: Existe, para você, alguma sensação em especial em traduzir um texto de importância histórica, como as obras de Rabelais?
G: Tenho comigo a sensação de que Rabelais até hoje não teve sua merecida recepção no Brasil. Todos sabem que é um clássico, que é uma obra importantíssima; mas segue sendo muito pouco lido, se compararmos com clássicos de outras línguas, como o Quixote, para ficarmos num só exemplo. Com isso, mais do que o fascínio com a importância histórica da obra original, me toca a possibilidade de abrir caminhos para a obra via tradução, quer dizer, fazer da tradução uma obra viva que se desdobra em outro mundo, que provavelmente Rabelais nem chegou a imaginar como possível.
F: Você diria que suas expectativas, no começo do projeto, se mantiveram ao longo do trabalho de tradução?
G: Eu diria que se ampliaram muito. É diferente o conhecimento de leitura do conhecimento de tradução. Ao me embrenhar no projeto, pude perceber muito concretamente o tamanho do desafio, mas também o tamanho do deleite de me ver diante dessa tradução. Nisso, o cansaço dá lugar ao fascínio, ao prazer desmedido da tradução, que só pode acontecer no imprevisto.
F: Para você, traduzir o senso de humor de Rabelais foi uma tarefa possível?
G: Sim, e a cereja do bolo. Mas para traduzir o humor é preciso ter humor hoje. Em outras palavras, eu preciso confiar nos modos de fazer humor, que são sempre históricos, preciso confiar na linguagem viva do meu tempo, sem palavras em estado de dicionário, sem decalques etimológicos puros com o texto francês. Para traduzir o humor da linguagem, a língua traduzida tem que se contorcer e se multiplicar, estar aberta a um gozo que existe além de uma fidelidade semântica com o original.
F: O quê, a respeito da sua própria língua, você aprendeu ao traduzir uma versão “antiga” de uma língua estrangeira?
G: Pencas de palavras, com certeza. Porque apostei numa mistura de registros de classe, de região, de período histórico etc., para produzir uma língua de cruzamentos que meio que só existe nesta tradução de Rabelais. É o efeito de uma aventura que assumi. Precisei aprender o prazer quase cretino de curtir a linguagem. Adorei. E não sei mesmo se terei novamente outra alegria dessa ordem na tradução. Qualquer outra coisa terá de ser diferente, mesmo que hilária, mesmo que experimental; será outra aventura.
F: Por onde você diria que começou a sua tradução de Pantagruel e Gargântua?
G: Eu sou uma pessoa terrivelmente pé no chão. Comecei pela primeira página. Não antes de ler mil coisas, de tomar notas teóricas mentais, de conferir várias traduções em português e mais algumas em outras línguas. Mas a tradução começa assim, na primeira página, no enfrentamento concreto. Todo o resto pode ser preâmbulo em vão, se não chegarmos à matéria bruta da linguagem criativa.