06

Fev24

Maria do Rosário Pedreira

A pergunta do título faz sentido porque, na capa deste pequeno livro de ficção chamado O Vestido de Noiva, de Filipa Leal, na realidade o vestido é preto... Hum, que trama nos espera então nestas páginas? Pois bem, sem querer ser desmancha-prazeres, alguém leva intempestivamente um vestido de noiva a uma lavandaria ao fim de dez anos de casamento para pedir que o tinjam de preto. Imaginam porquê? Não? Pois eu não posso contar, evidentemente, sob o risco de vos poupar a leitura (e o importante é lerem!); mas o mais inesperado na circunstância nem é esse pedido, mas sim o facto de a mulher que traz o vestido vir completamente nua... Assim às primeiras, pode parecer nonsense, mas não é, e há que perceber que existem efectivamente razões para mudar a cor do vestido e uma razão para a nudez, melhor do que qualquer outra; para isso, porém, é preciso mergulhar o nariz nestas páginas (poucas, e por isso boas para uma viagem de comboio ou duas noites de uma semana aborrecida) e descobrir que, ao contrário do que muitos podiam esperar, esta ficção não é nada poética, embora a sua autora seja uma poetisa conhecida, tendo afinal o texto mais afinidades com o  seu trabalho de guionista  (algumas das páginas até contêm partes de parágrafos que podiam ser notas para a realização de um sketch). Com algumas frases atravessando todo o texto («se lá estivéssemos» ou «como lá não estávamos») em que o «nós» que conta a história parece saber tudo apesar de não ter assistido a nada (o que é bem curioso como técnica narrativa), esta é uma história com laivos de comédia, mas não só. A colecção, de contos longos num formato bem simpático, tem (pelo menos no caso dos autores portugueses) como organizadora a escritora Ana Margarida de Carvalho.