Filme de Mikhaël Hers tem tintas de François Ozon e trilha sonora dançante 

Uma Paris noturna é o convidativo cenário que o diretor Mikhaël Hers escolheu para ambientar seu novo filme, Noites de Paris, com Charlotte Gainsbourg interpretando uma recém divorciada. Elisabeth, sua personagem, é mãe com dois filhos adolescentes que precisa trabalhar, depois de anos no conforto de um casamento morno, ela arruma emprego em um programa de rádio no horário da madrugada, em que Vanda (Emmanuelle Béart) dá conselhos para todo tipo de pessoa. 

Esquisitões, stalkers e desesperados contam sua história na atração, mas antes passam pelo filtro de Elisabeth. Em uma dessas noites, quando o episódio traz ouvintes para a rádio, Vanda entrevista Tallulah (Charlotte Gainsbourg), uma jovem problemática que vive pelas ruas, vagando entre pensões e abrigos. Elisabeth a leva para casa inicialmente em segredo e, aos poucos, ela trava amizade com o casal de filhos, principalmente com Mathias (Quito Rayon Richter).  

Disperso na escola e amoroso, Mathias quer ser poeta e fica a rabiscar as folhas de seus cadernos com versos, até ter a atenção chamada pela professora. Apoia a mãe, com quem tem uma relação franca, e defende Tallulah até mesmo da irmã (Megan Northam), um exemplo de jovem deslumbrada com os revolucionários de maio de 68, que marcharam por Paris pedindo a paz e justiça, contra a repressão. 

Quando o garoto leva Tallulah ao terraço do prédio, a noite de Paris está ao fundo, com as luzes coloridas e os prédios espigões de frente para o edifício em que moram, o filme se aproxima de um lado francês menos art-déco, mais nova iorquino. Juntos, eles saem pela cidade de madrugada, aventuram-se pelas ruas; aos poucos nasce um amor inocente, que será interrompido pela inconstância da jovem. 

Esse trajeto noite adentro, equilibrando cortes em filmagens Technicolor, é acompanhado de uma trilha sonora dançante, com faixas dos anos 1970 e 1980, como See No Evil, do Television, que guia as personagens quando vidas progridem – seja no amor, caso de Elisabeth, que conhece um bonitão na biblioteca, ou nas cenas de felicidade entre Tallulah e a família. 

Ao ambientar o drama no final da década de 1980, Hers mostra uma relação não usual entre a burguesia decadente de apartamento e os enfants terribles que vagam pelas ruas. Quando Tallulah se vicia em heroína, a rotina da família é alterada e o processo de dor vira uma luta conjunta, principalmente ao garoto apaixonado. A paleta de cores do filme e as músicas mostram como a juventude se aventurava pelas cidades, em tempos de walkman e das matinês lotadas por jovens.

Uma ambientação com tintas de François Ozon, que rodou seu ‘Verão de 85’ amparado pela nostalgia da década de 1980, ao contar a história de um jovem que cruzou a noite escaldante da riviera francesa e suas luzes cintilantes ao som de pop do século 20, mas foi destruído por uma tragédia.

 No filme de Hers, com a mãe em evidência, essa mesma atmosfera de juventude guia a personagem, que estabelece primeiros contatos tardios com paixões intensas, empregos instáveis e a relação com a jovem problemática. 

Para Elisabeth, a noite de Paris é o momento da paz para sua nova paixão e fumar despreocupada na janela trajando jeans azul americano. Ela coloca músicas dançantes em sua vitrola e, ao longo do filme, a mãe abandonada se transforma em uma mulher de espírito livre a se lançar em aventuras. O mundo estremece ao redor de Joe Dassin, com o refrão ecoando: Et si tu n’existais pas. 

Noites de Paris 

Mikhaël Hers

Nord-Ouest Films

2022

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino