Livros sobre cães? Mas é claro.
(O Lassie aguarda-me na estante)
Li O Cão e os Caluandas por sugestão do meu respectivo, proprietário da edição em causa, não sendo a minha primeira incursão pela obra de Pepetela (já tinha lido A Parábola do Cágado Velho e O Quase Fim do Mundo).
O cão em questão é um Pastor Alemão e, através de uma investigação, seguindo o rasto do cão, que deambula por Luanda, obtemos um retrato da sociedade pós-independência. A perspectiva é, sem dúvida, original - a recolha de vários relatos, em vários registos, não sendo possível ao leitor apurar o que será real ou falso, se o cão é sempre o mesmo (há relatos algo contraditórios sobre a localização do mesmo em determinado momento)...
Mas será que isso importa? Todos os relatos apresentam um cão de personalidade peculiar, quase capaz de estar em dois sítios ao mesmo tempo - capaz de percorrer centenas de kilómetros em curto espaço de tempo, de viajar à boleia, seja de ferry, seja de carro. Desaparecendo de forma tão súbita quanto aparecera, o cão é o catalisador de cada capítulo, que, ao perturbar as vidas da população local, a vida simples da metrópole de Luanda, possibilita que conheçamos os anos de 1980, os tempos difíceis, o dia-a-dia da independência.
Os narradores são, todos eles, pessoas diferentes, de contextos diferentes, e com diferentes encontros com o cão. O poeta, de poema publicado no jornal, que especula na alimentação, acha que o cão é parasita; o branco que finge não ver que o colega negro rouba, para não ser apodado de colono; e, no meio das denúncias, as burocracias, os despachos que demoram meses, tudo em nome do socialismo, denúncias várias, dissimuladas, descritas em depoimentos, contos, cartas, actas de reuniões, um cão que é jogador de futebol e desfila no carnaval, a buganvília que representa a infestação que não permite que, num espaço, se possa conviver em harmonia.
Ao reconstruir a história, o trajecto do pastor alemão, que dá pelo nome de Lucapa, ou quiçá qualquer outro nome (ou vários), temos uma história coesa - não só do próprio cão, mas da sociedade, dos caluandas, com personagens-tipo que representam um período de crise.
O cão é um herói improvável, e eu adoro-o.



