Fotografia da minha autoria

Tema: Um livro que nos falte ler do nosso autor favorito

A literatura é uma âncora que me impede de naufragar. De estagnar. De perder o contacto com o mundo - mesmo que não passe de um lugar de fantasia. E é extraordinária a sensação de estarmos em casa, quando retomamos o[s] nosso[s] escritor[es] favorito[s]. Valter Hugo Mãe não é o meu. Mas é um dos que figura na minha lista de preferências. Porque tem uma sensibilidade na sua escrita emocionante. Portanto, neste novo tema do The Bibliophile Club, optei por resgatá-lo, provando-me que tenho mesmo que priorizar mais obras da sua autoria.

Serei Sempre o Teu Abrigo é uma prosa poética sobre a fragilidade dos avós. Partindo do olhar atento e confidente do neto, sentimos, por oposição, a força que o amor conquista no interior de um casal, mas também as repercussões que o mesmo estende a toda a família. E o grande impacto desta narrativa centra-se nos laços familiares. No afeto. Na empatia. E no ato nobre e altruísta que é saber cuidar dos demais. Além disso, a mensagem fica mais poderosa, quando compreendemos que a história surge da necessidade que o autor teve de transformar uma experiência pessoal delicada em algo leve, retirando-lhe toda a sua carga sombria. E este vínculo aproxima-nos. Comove-nos.

É uma leitura que se faz num sopro. No entanto, apresenta inúmeras camadas interessantes, a começar pelo aconchego de um abraço, fazendo a travessia pela relação com a comida e a natureza e terminando na aceitação de que todos temos maneiras distintas de demonstrar os nossos sentimentos, o que não significa que sejam menos intensos. Envolto numa energia dicotómica, este exemplar também representa a luz e a escuridão, intercalando páginas pretas [com ilustrações belas] e páginas brancas [com o texto], numa clara interpretação da avó e do avô, tão diferentes na personalidade, tão cúmplices e equilibrados naquilo que é o mais importante: o amor. E o respeito pelo espaço do outro. Com memórias descritivas e uma linguagem terna, viajamos por momentos passados que nunca se perderão. Porque há elos inquebráveis.

Valter Hugo Mãe, através do seu dialeto tão próprio, desperta-nos sempre traços de comoção, pois tem a capacidade de abordar temas de uma grandiosidade sentimental, afastando-nos ou convidando-nos para a nossa bolha. Em simultâneo, não posso deixar de destacar um pensamento sublime da sua nota de autor: será que o amor «escapará do lugar dos sentimentos depois de uma operação de peito aberto? E poderão dois corações diferentes, zumbindo um como um eletrodoméstico e o outro chiando silenciosamente como um ratinho que corre numa roda, ser um conjunto perfeito?». Assim que concluímos a leitura, a resposta não poderia ser mais transparente, deixando-nos de coração a transbordar.

Serei Sempre o Teu Abrigo ensina-nos a amar para lá das dificuldades. A persistir, mesmo quando a vida «torna os dias longos de perdas». A estimar, embora possamos não estar presentes. Porque este livro é uma lição de ser. E é, sobretudo, uma homenagem às nossas pessoas-abrigo.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Ela dizia: amar é saber. E dizia: amar é melhorar» [p:7];

«A avó julgava que a comida era a poesia do avô, aquilo que encontrara para traduzir delicadeza e carinho por todos nós» [p:15];

«As pessoas abrigam-se umas nas outras. Mesmo ausentes, nossos abrigos existem. Estamos debaixo da memória» [p:30];

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