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“Lygia Fagundes Telles, de certo modo, cria um dicionário ficcional de símbolos, o seu mundo simbólico particular, minuciosamente escolhido. Ela constrói suas narrativas como se estivesse numa partida de xadrez, construindo o mundo ficcional a cada um de seus lances—prevendo reações, provocando-as. Ela nos chama para um jogo.”
(Nilton Resende, Ar-te-sa-ni-as: modos do alegórico em contos de Lygia Fagundes Telles)
I
De 1944 até o começo dos anos 1980, grosso modo, Lygia Fagundes Telles apresenta uma produção quantitativamente (da qualidade, nem é preciso falar) expressiva de contos, embora não exageradamente prolífica (pelos meus cálculos, caso exatos, são 76 contos publicados, de Praia viva a Mistérios).
Cinco são as coletâneas originais dessa fase: Praia viva (1944), O cacto vermelho (1949), Histórias do desencontro (1958), O jardim selvagem (1965) e Seminário dos ratos (1977). Apenas a última delas foi reeditada nas mudanças de casa editorial (para a Nova Fronteira, para a Rocco e para a Companhia das Letras). E, salvo engano, nenhum dos 10 contos de Praia Viva até hoje reapareceu, assim como boa parte dos 12 de O cacto vermelho e alguns poucos de Histórias do desencontro. A única coletânea em que todos os contos ainda reaparecem, embora dispersos em publicações diferentes, é O jardim selvagem.
A curiosa contrapartida desse movimento supressor de títulos é a das “antologias de si mesma” preparadas pela autora. Um ponto a se destacar é que TODAS ELAS apresentam sempre contos ainda não-publicados em livros de sua própria autoria. Quando publicou Histórias escolhidas (1964), uma espécie de “saldão” pré-O jardim selvagem, incluiu dois contos (As cerejas; O noivo); quando fez de Antes do baile verde (1970) uma grande triagem da sua produção, e um título que passou a ser uma espécie de obra-referência da sua contística, um “portable Lygia” (principalmente depois da sua versão de 1971, pela José Olympio), publicou cinco textos dispersos (a chama Trilogia da confissão- Apenas um saxofone, Helga, O moço do saxofone; Os objetos e Verde lagarto amarelo).
Na escolha de seus Filhos pródigos, em 1978 (o título original, muito mais feliz, da seleção posteriormente republicada em 1991, com a poda de um conto, como A estrutura da bolha de sabão[1]), ela incluiu textos que ainda não tinham aparecido em nenhum de suas coletâneas, como o próprio A estrutura da bolha de sabão e sua versão para Missa do galo. E, ao lançar, a coletânea de suas “histórias extraordinárias”, dos seus contos do grotesco e do arabesco, Mistérios (1981), que—a meu ver– fecha essa grande fase, também foram publicados três textos até então não-reunidos: Emanuel, Negra jogada amarela, O muro.
Ao lançar Mistérios, Lygia Fagundes Telles encontrava-se publicada pela Nova Fronteira e a década de 1980, após aquele título, no tocante ao conto (em 1989, ela lançou seu quarto romance, As horas nuas), foi uma década que passou “em branco”. Aliás, com a exceção dos filhos pródigos rebatizados como A estrutura da bolha de sabão, essa situação se manteve até 1995, com o último lançamento pela Nova Fronteira, A noite escura mais eu, que marca uma nova fase produtiva, após um hiato de 15 anos pelo menos, pois todos os textos da coletânea (a única, à exceção de Histórias do desencontro, sem um conto-título[2]) são inéditos.
Meu amigo, Nilton Resende, grande conhecedor da obra de Lygia[3] e que muito me ajudou para os dados deste meu texto (sem que tenha responsabilidade por qualquer informação errônea ou inexata), tem marcada predileção por esse livro, e sou obrigado (prazerosamente, é verdade) a concordar: é obra de mestre.
Pois bem, ao chegar a esse ponto, da sua produção de livros de contos sobraram:
Antes do baile verde (20 contos)
Seminário dos ratos (14 contos)
A estrutura da bolha de sabão (ex-Filhos pródigos)- 8 contos
Mistérios (19 contos)
e mais A noite escura e mais eu (9 contos)
II
A transferência para a editora Rocco foi auspiciosa, a princípio. Numa nova demonstração de vitalidade criativa, de vigor, surgiu mais uma coletânea totalmente inédita (com 15 textos), Invenção e Memória (2000). Aqui não temos nada da complacência, simpática decerto, mas morna sobretudo, de livros-miscelâneas que pouco acrescentam à sua obra tão incrível (o anterior, ainda pela Nova Fronteira, A disciplina do amor, os posteriores Durante aquele estranho chá e Conspiração de nuvens).
A predileção que Nilton Resende nutre por A noite escura e mais eu, por mais que eu admire esse livro, reservo mais para Invenção e Memória: tenho a impressão que ali ela se renovou de fato, arejou a casa, implodiu a solenidade de “grande dama da literatura”, aquela coisa petrificada que ameaça todo escritor da gema, conseguindo alguns textos de raro calibre, entre os melhores de sua obra, e inclusive fazendo uma alquimia perfeita entre o cunho memorialístico e o prazer da ficção.
Mas aí, a mesma escritora que sempre alegou não republicar seus títulos mais “juvenis” e imaturos (para não falar do “ginasiano” Porão e sobrado, de 1938, do qual nunca encontrei vestígio) e que nunca pensou em pelo menos reeditar a seleção impecável de O jardim selvagem, na sua feição original de 1965, talvez por questões contratuais e mercantis desairosas, aparece com contrafações do tipo Meus contos preferidos, Meus contos esquecidos, Histórias de mistério !!!!??????
III
A produtividade tardia, no sentido da maestria absoluta (A noite escura mais eu, que me lembra a produção mais tardia de Henry James no texto curto, com sua densidade) ou no da verve e vitalidade (Invenção e Memória) se esgotou e, no novo milênio em curso, Lygia Fagundes Telles chega aos 90 anos com sua obra editada por outra casa, a Companhia das Letras, que unificou as capas numa série de notável bom-gosto, que se diga de saída.
Esperava-se que, aí, a série livros-para-o-chá-das-cinco (com o silêncio opressivo do jardim selvagem por trás) e também as auto-antologizações mais derrisórias (do tipo Meus contos…) cessassem. Ledo engano. Após republicar as obras que formam o cânone estabelecido pela própria autora, a Companhia passou a apelar também para os “novos títulos”: A disciplina do amor, Durante aquele estranho chá e Conspiração de nuvens têm agora a companhia de Passaporte para a China. E surge mais um volume de “filhos pródigos” (ufa, que prole indisciplinada e difícil!), ou de “meus contos esquecidos” ou de coisa-que-o-valha: Um coração ardente, que reúne Um coração ardente (de Histórias do desencontro), Dezembro no bairro (de O jardim selvagem, a primeira versão, de 1965, e não—como se informa erroneamente— a segunda, de 1974, versão misteriosa[4]—que merecia um texto à parte), O dedo (da segunda versão de O jardim selvagem, de 1974, e que reapareceu em Mistérios), Biruta (de Histórias do desencontro), Emanuel (de Mistérios), As cartas (de Histórias do desencontro), A estrela branca (de O cacto vermelho, e não originalmente em Mistérios, como consta erroneamente na edição), O encontro (de Histórias do desencontro); a rigor, dois contos (que apareceram pela primeira vez em Histórias escolhidas e não na versão 1974 de Jardim selvagem como consta erroneamente na edição) é que justificariam esse “novo” título, O noivo e As cerejas , os quais que ficaram muito tempo “perdidos” no labirinto das publicações lygianas.
Mas não é assim com todos, ao fim e ao cabo?
Não contente, a Companhia das Letras ainda lançou (com o pretexto de atrair o leitor mais jovem), O segredo e outras histórias de descoberta. Há muito tempo um livro da Ática vem cumprindo essa função sem tanta pirotecnia editorial: a coletânea com o título Venha ver o pôr-do-sol, que ainda se encontra em catálogo, e foi lançada nos anos 1970, foi a porta de entrada para mim, e certamente para muitos outros, junto com o volume a ela dedicado na coleção Literatura Comentada (1980), e onde aparece As cerejas.
nota de agosto de 2013- Nilton Resende me informou que “O segredo”, de A noite escura e mais eu já havia sido publicado, numa versão anterior, no ESTADÃO, em 1961. Portanto, o conto não é um trabalho novo, mas uma nova versão de um texto mais antigo.
ANEXO– Lista da produção contística de Lygia Fagundes Telles com a contribuição de cada título:
Praia viva (1944)
Além da estrada larga
Comício
Delírio
Flor de laranjeira
Há um grilo sob a janela
O avô
Paredes de vidro
Ponto número seis
Praia viva
Táxi, cavalheiro?
O cacto vermelho (1949)
Confissões de Leontina
A estrela branca
A recompensa
Correspondência
Felicidade
Madrugada grotesca
Migra
O cacto vermelho
Olho de vidro
O menino
Os mortos
O suicídio de Leocádia
Histórias do Desencontro (1958)
A ceia
A fuga
As cartas
A sonata
As pérolas
A testemunha
A viagem
Biruta
Eu era mudo e só
Ho-Ho
Natal na barca
O encontro
Um coração ardente
Venha ver o pôr-do-sol
Histórias escolhidas (1964)
As cerejas
O noivo
O Jardim Selvagem (1965)
A caçada
A chave
A janela
A medalha
Antes do baile verde
Dezembro no bairro
Meia-noite em Xangai
O espartilho
O jardim selvagem
O tesouro
Uma história de amor
Um chá bem forte e três xícaras
Antes do baile verde (1971)
Apenas um saxofone
Helga
O moço do saxofone
Os objetos
Verde lagarto amarelo
Jardim selvagem-2ª.versão (1974)
Gaby
O dedo
Seminário dos Ratos (1977)
A consulta
A mão no ombro
A presença
A sauna
As formigas
Herbarium
Lua crescente em Amsterdã
Noturno amarelo
O X do problema
Pomba enamorada ou Uma história de amor
Seminário dos ratos
Senhor Diretor
Tigrela
WM
Filhos pródigos (1978)
A estrutura da bolha de sabão
Missa do galo
Mistérios (1981)
Emanuel
Negra jogada amarela
O muro
A noite escura e mais eu (1995)
Anão de jardim
A rosa verde
Boa noite, Maria
Dolly
O crachá nos dentes
O segredo
Papoulas em feltro negro
Uma branca sombra pálida
Você não acha que esfriou?
Invenção e Memória (2000)
A chave na porta
A dança com o anjo
Dia de dizer não
Cinema Gato Preto
Heffman
História de passarinho
Nada de novo na frente ocidental
O Cristo da Bahia
O menino e o velho
Potyra
Que número faz favor
Que se chama solidão
Rua Sabará, 2000
Se és capaz
Suicídio na granja
Nota 1- Em Histórias de mistério (2002) e O segredo e outras histórias de descoberta (2012) aparecem dois textos não-arrolados acima, O gorro do pintor e Onde estiveste de noit
Nota 2- A lista acima foi elaborada com a ajuda valiosa do livro de Vera Tietzmann, Dispersos e inéditos: estudos sobre Lygia Fagundes Telles, do qual Nilton Resende gentilmente escaneou algumas páginas.
(escrito especialmente para o blog, em abril de 2013, em função dos 90 anos de Lygia Fagundes Telles, em 19 de abril)
[1] Aliás, sempre é bom lembrar que na supressão das coletâneas mais antigas, perdemos belos títulos como Histórias do desencontro e O jardim selvagem.
[2] Para o meu leitor não ficar perdido, lembro que dividi as publicações de Lygia Fagundes Telles em duas categorias:
–as coletâneas realmente inéditas
__as antologias de si mesma (nesse sentido, Filhos pródigos & Mistérios não tinham um conto-título).
[3] E que, além disso, conseguiu estudá-la por vários anos, sem que isso comprometesse sua própria “voz” como autor, como provam os belos contos de seu livro Diabolô (2011).
[4] Nela, foram publicados:
A MEDALHA
-AS CEREJAS
-GABY
-O ENCONTRO
-DEZEMBRO NO BAIRRO
-O DEDO
-O NOIVO
-VENHA VER O PÔR-DO-SOL
-O JARDIM SELVAGEM
-A CAÇADA
-A CEIA
-O TESOURO
Na edição original de Jardim Selvagem, temos:
A MEDALHA
UM CHÁ BEM FORTE E TRÊS XÍCARAS
O ESPARTILHO
A JANELA
ANTES DO BAILE VERDE
A CAÇADA
A CHAVE
DEZEMBRO NO BAIRRO
UMA HISTÓRIA DE AMOR
O TESOURO
MEIA-NOITE EM PONTO EM XANGAI
O JARDIM SELVAGEM


















