Em tempo de Óscares, os nossos meios de comunicação (rádio, televisão, jornais...) dedicaram bastante espaço à história da atribuição da estatueta dourada ao longo do tempo. Numa página aqui da Sapo, aprendi uma coisa que não sabia: que no primeiro ano em que foram entregues os Óscares havia duas categorias para aquilo que, em pouco tempo, se tornou uma só: a de Melhor Filme. Este prémio é entregue, na verdade, ao produtor (o realizador tem direito ao seu próprio galardão) e, em 1928, quando tudo começou, foi dado a duas produtoras distintas, uma que correspondia simplemente à «Melhor Produção», outra à «Produção de Maior Qualidade Artística». Ou seja, competência e arte. Neste último chapéu, o da arte, a estatueta foi para Aurora, de Murnau; Asas, de William A. Wellman, deu o Óscar à eficaz Paramount. Isto levou-me a pensar nos livros, em coisas que lemos extremamente bem feitas e em coisas que lemos altamente criativas. Já vi o melhor prémio de romance ser entregue aos dois tipos atrás referidos. De uma das vezes que foi atribuído ao romance A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, um importante prémio em Portugal, a elite intelectual indispôs-se bastante, achando que, por muito bem engendrada que fosse a narrativa, o livro era leve, não dizia nada de novo e, enfim, não merecia (em Espanha, de resto, aconteceu a mesmíssima coisa, e lá nem sequer tinha a aliciante de mostrar Barcelona aos leitores, pois muitos eram de lá). E, porém, há muitos livros que arrecadam os grandes prémios pela arte da escrita e são passíveis de agradar a muito menos gente (como a minha Marguerite Duras, por exemplo). Lembro-me de um grande leitor que conheço não ter percebido porque Jon Fosse ganhou o Nobel, achando que tudo o que o norueguês escreveu é insuportavelmente repetitivo e quase pueril. Enfim, tudo é subjectivo, mas talvez pudéssemos criar um prémio ao lado do de Melhor Romance para Romance extremamente Competente (mas não necessariamente de alta literatura).