O senhor Ventura | Miguel Torga

O Senhor Ventura narra uma história verosímil de um português saltimbanco, a quem a curiosidade impede de passar à beira dum abismo sem olhar, e que percorre o oriente numa persistente busca pela fortuna que, no seu país, se encontra fora do seu alcance.

Um D. Quixote lusitano, sem a loucura mística do da triste figura nem a sua castidade, percorre os confins do império português, espreitando sempre mais além e enfrentando, com destemor, os desafios que se lhe apresentam e dos quais não consegue fugir. Sem luzes para discernir através de momentos complicados, conta sempre com o seu instinto para o guiar. Um homem, em terras que lhe são estranhas, pode desabafar na língua materna sem incorrer em inconfidências, expondo-se apenas a que o tomem por louco.

O autor desabafa no prefácio, ser nesta vertente da vida em que se olham com lucidez e benevolência os verdores da mocidade que decide pegar na obra e mortificá-la na bigorna do ofício para lhe dar uma segunda volta, quarenta anos depois. E reconhece já não conceber na sua escrita uma narrativa tão linear e apressada. A vida, tal como o tempo literário, exige amadurecimento e sabedoria que limem as arestas das palavras. Uma escrita contemporânea, onde o leitor não tropeça num léxico desaparecido, e em que as imagens, após um tão denegrido “como”, surgem de uma limpidez cristalina: A escuridão descera sobre o navio como um manto cúmplice e calado. A diáspora do português não se esgota sem que nele se cumpra o apelo do local pobre onde nasceu e que o persegue por cima da fome, da peste, da guerra e de todos os flagelos da humanidade.

Havia naquele rio fundos onde apenas olhos frios e penetrantes poderiam descer sem se afogar.

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