José Reinaldo do Nascimento Filho

– Se for Doucas, mande-o entrar – disse Guy. – E depois é melhor você se mandar e ir lá para cima.

(…)

– E se ouvir uma barulheira – sugeriu -, é melhor enfiar a cabeça debaixo do travesseiro e pensar na melhor maneira de limpar sangue do tapete.

Perfeito. É exatamente esse tipo de frase debochada que o leitor dificilmente encontrará no romance Dália Negra, de James Ellroy (vide post e entenda).

Inserido na coleção Tiros da Noite vol.1, da L&PM Pocket Noir, o trecho acima, do conto “A mulher do bandido”, de Dashiell Hammett, é, para mim, pouco conhecedor do estilo “Noir”, aquilo que representa com perfeição esse estilo tão emocionante e sedutor.

No conto supracitado, uma mulher acorda ao sentir um fragrância peculiar e nada usual nos seus aposentos: cheiro de magnólia. Ela se levanta; e ao chegar à cozinha, depara-se com “um homem gordo, vestido de preto”. Apesar de muito assustada, a mulher conversa com o invasor; este, por sua vez, na maior naturalidade, como se estivesse no seu direito, diz que está a procurar “Guy”. Ela, Margaret, diz que o seu marido viajou e não sabe quando ele regressará. O estranho pede que ela lhe faça um favor, e diz:

“A… senhora… poderia… fazer… o favor… de… dizer-lhe… que… eu… o… espero… no… hotel? (…) Diga… que… Leonidas… Doucas… espera… por… ele…”

O homem vai embora. Margaret espera pela chegada do marido. Começa a pensar nas coisas escusas que ele faz nas constantes viagens. Reflete a respeito dos comentários maldosos da vizinhança, porque todos sabem: ela é a mulher de um bandido. Guy volta. Junto com ele, dinheiro e muitas histórias escabrosas. Ela dá o recado solicitado pelo “Doucas”. Este pensa e chega a conclusão:

Vou deixar que ele mesmo dê as caras. Se quiser me ver, que venha até aqui. Ele conhece o caminho”.

Leonidas Doucas bate à porta.

Margaret, apesar de ser a protagonista, nada mais é que “a mulher do bandido”, e aí se encontra a graciosidade desse conto. Nós conhecemos esse curtíssimo fato (relatado em 19 páginas) através dos olhos de alguém que pouco/ou nada conhece daquele mundo sujo no qual os dois homens – Doucas e Guy – fazem parte.

Ps: O trecho inicia, obviamente, é o começo do desfecho.

Ps2: A frase final do conto é onde está contida todo o charme e surpresa.

PS: Nada de ler de graça. Comprem clicando aqui: http://www.submarino.com.br/produto/1/1945497/mulher+do+bandido,+a+-+vol.+1#A1 (se quiserem, claro)