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| Fotografia da minha autoria |
«É preciso coragem, fé e, acima de tudo, amor»
O encantado mundo dos blogues tem-me proporcionado experiências inspiradoras. Não só pela possibilidade de explorar a minha escrita e o meu lado criativo, mas também pelo contacto com distintos criadores de conteúdo e outras visões da realidade. Por isso é que faço por manter saudável o elo da interação, pois acrescenta-me a vários níveis. E, recentemente, voltei a sentir o quanto é mágico trocarmos impressões, perdendo-nos em histórias escritas por outras mãos.
A Teresa Lobo cruzou-se com As gavetas da minha casa encantada e enviou-me uma mensagem, com o intuito de eu partilhar uma crítica literária acerca do seu mais recente eBook, em edição de autor. O meu retorno, como seria expectável, foi positivo, até porque oportunidades desta natureza são sempre gratificantes, já para não mencionar a confiança inerente a todo o processo. E foi assim que fiquei a conhecer o seu maravilhoso Alecrim, cujos contornos foram desenvolvidos a partir do pseudónimo José Vieira. E fui agradavelmente surpreendida, uma vez que é um relato muito credível. Proximal. E inquietante, atendendo à temática e à energia que o envolvem.
Uma particularidade interessante, excluindo os dilemas morais e as metamorfoses da protagonista, é a evolução cíclica, que perpetua comportamentos que a própria condena, demonstrando que somos falíveis e dependentes das circunstâncias. Por essa razão, assistimos a uma passagem de testemunho inconsciente. E somos, ainda, confrontados pela vontade e, sobretudo, pela necessidade de quebrar a iminência do abismo. Porque contactamos com maus tratos físicos e psicológicos, um passado doloroso, traços de religiosidade e a brutalidade de manter as aparências. Além disso, percebemos o quanto a situação familiar é contaminada pela falta de amor e pelo facto de a maternidade ser encarada como um castigo. Quando nos anulamos pelos outros, as relações tornam-se tóxicas, prevalecendo o sentimento de culpa.
Este manuscrito, embora apresente uma linha narrativa fluída e coesa, deixou-me com algumas questões, pois senti falta de uma abordagem mais pormenorizada em certas passagens. No entanto, após ter lido o Epílogo e ter conversado com a autora, compreendi a ausência desses detalhes. Porque esta obra é baseada em factos reais. E foi, durante vários anos, conotada como assunto proibido. Em simultâneo, por envolver um crime, há dados do processo judicial aos quais não tem acesso. Assim, partindo das poucas informações de que dispunha, optou por romancear a história da sua trisavó Carlota, que assume a personificação de um ato de superação, despertando[-nos] a vontade de recuar à época em que decorre a ação, para sermos capazes de unir as pontas soltas.
Alecrim, cujo simbolismo é marcante, tem uma mensagem bonita, com traços de fé, de esperança, de coragem e de amor. Apesar dos contornos cruéis e angustiantes, que espelham uma revolta e uma mágoa interiores, comprova que o nosso passado não tem que nos condicionar. Sendo um enredo cheio de camadas, percebemos que a nossa existência permanece enquanto existir alguém disposto a prolongar a nossa memória. Lido num par de horas, é daquelas obras que soam a uma conversa entre amigos, levando-nos a refletir sobre temas intemporais.
Deixo-vos, agora, com algumas citações
«Tal e qual Maria Madalena fui rotulada de pecadora. Uma criatura que não merecia nem perdão nem misericórdia. Uma reles e vil mulher que só tinha direito ao castigo» [p:12];
«Deslocada.
Era assim que me sentia. Deslocada do tempo e do espaço. Sentia que aquela vida, a minha vida, não era para mim» [p:34];
«Casámos num dia chuvoso. Parecia que os anjos choravam pela decisão tomada» [p:43]
