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Abr11
Maria do Rosário Pedreira
Estive recentemente numa apresentação do último romance de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, que ainda não li mas a que espero poder lançar a mão em breve. No pequeno debate que se seguiu, uma senhora referiu que os livros da escritora não raro reflectem problemáticas do nosso tempo e da nossa geografia e que é isso que os torna excepcionalmente ricos e interessantes (e Lídia, embora sem perder a habitual modéstia, pareceu concordar). Francamente, tenho dúvidas de que seja esse o motivo da riqueza literária da sua obra e, de algum modo, também duvido de que, para se fazer melhor literatura, tenha o escritor de trazer para o que escreve os dramas do presente. António José Saraiva, creio que no seu ensaio Iniciação à Literatura Portuguesa, diz que não se pode pedir ao escritor que se envolva (senão como cidadão) nos problemas sociais e políticos do seu tempo, advogando, em vez disso, que é escrevendo que cumpre a sua obrigação para com a vida. Ora, embora Lídia Jorge reflicta frequentemente sobre questões de natureza política e social nos seus romances, não é isso que faz dela a excelente escritora que é; pois temos imensa gente a dedicar-se às mesmas questões que não seria capaz de produzir a literatura intensa que nos dá. Disse a romancista na mesma sessão que o material do escritor – as palavras – é o mesmo de que toda a gente dispõe; e que devia haver uma maquineta, como as que contam os batimentos cardíacos ao longo de um dia, que registasse a quantidade de palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem) pois estas seriam seguramente belíssimas. O escritor – notou então – só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz. Mais uma vez, acho que foi modesta e que, se houvesse realmente a tal maquineta, Lídia Jorge podia facilmente mudar de opinião...