![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«Sei que a vida é cheia de incertezas»
A nossa mente é um lugar curioso. Por isso é que procurar responder a cenários hipotéticos nem sempre é intuitivo. Ficamos no limbo da nossa imaginação, a ponderar saídas, mas sem alcançar uma verdade absoluta. Eu sempre escrevi. Mas não tive sempre um blogue. Houve uma fase em que as minhas palavras apenas confidenciavam com o papel. No entanto, já começa a ser difícil recordá-la. Porque esta plataforma revolucionou o meu percurso. E tornou-o muito mais significativo.
Se eu não tivesse criado o blogue, continuaria a refugiar-me nas letras e a utilizar a caneta como voz dos meus pensamentos e devaneios. Porém, iria limitar-me. Provavelmente, permaneceria no mesmo registo e não arriscaria noutros formatos, como os micro relatos de crime e mistério [com um texto a integrar A Audiência Escreveu Um Crime]. O meu universo ficcional teria menos espaço por onde pudesse deambular. E não seria capaz de alargar horizontes, pois não privilegiaria de outras perspetivas. Continuaria a contar as minhas histórias, mas o futuro seria mais empobrecido, atendendo a que lhes faltariam as emoções de potenciais leitores. Escrever mantém-se como um ato solitário, mas o produto da nossa criatividade adquire mais força quando repartido, sobretudo, com aqueles que entendem e partilham esta linguagem apaixonada pela criação de conteúdo.
Integrar a Blogosfera permitiu-me contactar com visões diferentes. E descobrir gavetas que eu não conhecia dentro de mim. Além disso, colocou-me de frente para as minhas fragilidades e fez-me compreender a importância do auto-conhecimento, da empatia e da valorização: pessoal e em relação aos demais. Nesta caminhada, aprendi a escutar e a respeitar ainda mais os outros; a saber quando vale a pena prosseguir e quando é preferível parar; a não ter receio de dizer que não. Nenhuma vertente da nossa alma é exclusiva. Há pontos que se cruzam. E lições valiosas que podemos transportar para as mais distintas áreas da nossa vida. Por essa razão, e em não tão escassas ocasiões assim, recorri ao meu trabalho e consistência enquanto blogger para aperfeiçoar a minha formação académica. Porque, ao escrever regularmente, melhorei a exposição das minhas conjeturas e a minha argumentação. Inclusive, tornei-me mais crítica e mais organizada no tratamento de dados. Embora saiba que me expresso bem por escrito, não se compara o antes e o depois. As minhas ideias tornaram-se mais maduras. E o meu diálogo muito mais coeso.
Se eu não tivesse criado o Parte do que sou, não teria descoberto que preciso de me reinventar para evoluir. Se eu não tivesse escutado o meu coração, As gavetas da minha casa encantada não existiriam e não teria percebido de quantas paixões sou feita. Se, há dez anos, eu não tivesse perdido o receio de criar um blogue, conversaria menos sobre livros. Partilharia menos música portuguesa. As fotografias ficariam somente guardadas em pastas do computador. E, talvez, emocionar-me-ia menos. Perderia a oportunidade de estreitar laços. De mostrar recantos deste país que me corre no sangue. E, certamente, seria menos completa. Claro que, se não tivesse avançado com este projeto, não saberia o que era não o ter. Mas agora que o tornei parte de mim, estou ciente da perda. E sentiria falta de cada um dos seus traços.
O blogue envolve muitos compartimentos da minha personalidade. E acredito que, numa vertente mais íntima, modificou - para melhor, é necessário frisar - a minha confiança. Auxiliou-me num processo de amor próprio e na capacidade de reconhecer as minhas qualidades. Além disso, revelou-se mais um recurso para não me levar tão a sério, mas sem esquecer que tenho uma voz que pode contribuir para uma mudança positiva. No fundo, é nesta plataforma que me vou descobrindo. E que vou reunindo tudo o que me permite crescer e ser a minha melhor versão. A vida não acontece em rede, acontece quando nos implicamos no quotidiano que se pinta do lado de fora da janela. Mas sendo este mundo virtual uma extensão da nossa conduta, procuro ancorá-lo ao que me move com verdade. Tornando-o fiel aos meus valores.
Procuro, cada vez mais, e de um modo consciente, trocar as suposições pelas certezas, ainda que as dúvidas façam parte e que o risco nunca desapareça. Portanto, se eu não tivesse criado o blogue, teria cometido um erro. E não estaria a desfrutar de uma viagem tão intensa, plural e com uma energia absolutamente inspiradora. Dez anos depois, sei que a minha presença aqui é relevante - sem falsa modéstia, porque refiro-me à construção do meu caráter. E enche-me de orgulho. Porque assumi um compromisso. E encontrei um porto de abrigo.
[Reflexão inspirada na Lyne - Imperium. E com uma questão da Marisa Cavaleiro - Marisa's Closet]
