09

Jul21

Maria do Rosário Pedreira

Portanto, o mestre disse: «Se dos troncos

    colheres um raminho a qualquer planta,

    os pensamentos teus se farão broncos.»

Então, junto a um silvado, se adianta

    a colher um raminho este meu punho;

    e o seu tronco gritou: «Quem me quebranta?»

E feito em sangue escuro testemunho,

    recomeçou: «Assim me dilaceras?

    Piedade a teu espírito não dá cunho?

Homens fomos e eis-nos silvas meras:

    bem deverias ter a mão mais pia,

    se em nós almas de serpes supuseras.»

E como em tição verde em que arderia

    uma das pontas, já a outra geme

    e range pelo vento que assobia,

assim juntos o lenho roto espreme

    sangue e palavra; e o ramo então de cima

    deixo cair, e quedo tal quem teme.

Dante Alighieri, A Divina Comédia, «Inferno», Canto XIII (versos 28 a 45),

tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores