Considerado o pai do teatro em Portugal, escreveu entre outros Autos, um que é ainda hoje analisado pelos nossos estudantes do 9º ano. Eu tive de o ler quando tinha os meus 14 anos, mas a leitura que fiz agora, com os meus alunos, foi completamente diferente porque me permitiu enquadrar e compreender esta obra de uma perspetiva totalmente diferente. Em primeiro lugar é preciso entender que este Auto faz parte de uma trilogia de sátiras: "Barca do Inferno", "Barca do Purgatório" e "Barca da Glória".

Gil Vicente terá nascido em Guimarães no ano de 1465 e falecido em Évora em 1536. Por falta de documentos, muitos fatos de sua vida são cercados de dúvidas, como o próprio local e ano de seu nascimento. Uma das dúvidas é mesmo quem foi Gil Vicente uma vez que há vários registo que se sobrepõem e que podem ser da mesma pessoa (ou não). Num deles, podemoss encontrar que apesar de ter estudado Direito Civil, "Gil Vicente possuía uma natureza poética e criativa que lhe possibilitou abandonar a vida jurídica e abraçar a vida literária, tornando-se reconhecido por suas obras inovadoras para a época". Sem dúvida sabemoss que foi dramaturgo e poeta, com uma extensa obra de autos, farsas e até de poesia trovadoresca, e ainda hoje é considerado um dos maiores representantes do teatro popular em Portugal. 

Sabe-se que sua atividade de dramaturgo foi desenvolvida em torno da corte portuguesa, abrangendo os reinados de D. Manuel I e de D. João III. Terá começado a sua "carreira" em 1502, quando encenou a peça “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III, filho de D. Manuel I e de D. Maria de Castela. No monólogo, escrito em castelhano, um simples homem do campo expressa a sua alegria pelo nascimento do príncípe herdeiro, desejando-lhe felicidades. Esta interpretação terá entusiasmado a "Rainha Dona Beatriz, que ainda estava de resguardo do filho recém-nascido" e que por ter "gostado do que vira, pediu ao autor que repetisse a apresentação no natal, mas que, na ocasião, o texto fosse dirigido ao nascimento do menino Jesus". A Corte ficou rendida e a partir daí, Gil Vicente torna-se organizador dos espetáculos palacianos por ocasião dos nascimentos, casamentos e receções reais.

Apesar de ter vivido em pleno período Renascentista, Gil Vicente não se deixou impregnar pelas conceções humanísticas e acaba por retratar através das suas peças, os valores populares e cristãos da vida medieval. As caraterísticas principais da obra deste dramaturgo, tornam-na até primitiva e popular, pese embora isso não fosse de esperar por ter surgido no ambiente da corte, para servir de entretenimento nos serões oferecidos ao rei.

São atribuídas ao dramaturgo lusitano mais de quarenta peças, algumas em espanhol e muitas em português, onde criticava impiedosamente toda a sociedade de seu tempo, de forma até considerada "impiedosa". Na sua obra está muito presente "a sátira, muitas vezes agressiva, contrabalançada pelo pensamento cristão." Podemos dividir a sua obra em três fases:

A primeira fase (1502-1508) tem a influência espanhola de Juan del Encina. Nesta, o autor apresenta peças que possuem um conteúdo religioso onde a mímica representa um importante papel:

  • Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro
  • Auto Pastoral Castelhano
  • Auto de São Martinho
  • Auto dos Reis Magos

Já na segunda fase (1508-1516), a sátira social apresenta uma ampla visão da sociedade da época e a linguagem utilizada adquire um caráter mais pessoal:

  • Quem Tem Farelos?
  • Auto da Índia
  • Rico Velho da Horta
  • Exortação da Guerra

Na terceira fase (1516-1536), pode-se dizer que é onde atinge a sua maturidade inteletual. Nesta fase, surgem lado a lado a crítica aos hábitos da época e as atitudes mais moralistas de caráter medieval. São dessa época as melhores obras teatrais da Literatura Portuguesa:

  • Farsa de Inês Pereira
  • Auto da Beira
  • O Clérigo da Beira
  • Auto da Lusitânia
  • Comédia do Viúvo
  • Trilogia das Barcas (Auto das Barcas do Inferno, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória)
  • A Floresta dos Enganos (de 1536, terá sido a sua última peça).

Além destas obras, Gil Vicente escreveu também poemas ao estilo das cantigas dos Trovadores medievais que foram incorporadas em muitos de seus autos. "Gil Vicente não era conhecido apenas em Portugal, mas também nos países mais cultos da Europa na época." Esta fama trouxe-lhe alguns infortúnios, uma vez que, "ser tão reconhecido, despertava inveja em muitos que lhe acusaram de roubar ideias de outros autores".

Fontes:

https://www.ebiografia.com/gil_vicente/

https://www.infoescola.com/biografias/gil-vicente/

https://www.portugues.com.br/literatura/gil-vicente-e-a-revolucao-teatro-portugues.html