A voz narrativa de Ana guia bem o leitor ao labirinto de seus ressentimentos e traumas, do presente até as reminiscências. Giovana Proença Uma existência entre as memórias dolorosas e a dor pela falta de memória. É assim que vive Ana, a protagonista de Para os que ficam. No romance de Alex Andrade, a personagem vive com o pai idoso, assumindo o papel de cuidadora do genitor, tomado pelo Alzheimer. Grande parte da trama concentra-se nesta relação solitária. Ana se debate com o pai, presa no vínculo familiar: um jogo de presença e ausência, síntese da vivência da protagonista. Na construção de Para os que ficam, Ana tem o papel de narradora, de modo que Andrade assume os riscos da primeira pessoa. Contudo, a voz narrativa guia bem o leitor ao labirinto de seus ressentimentos e traumas, do presente até as reminiscências. Aos quarenta e sete anos, Ana gravita no limbo daqueles que consideram não ter conquistado a vida que desejavam. Ela coleciona relações estilhaçadas: o irmão, a mãe e Jota, o ex-marido que a puxa para os vícios – com destaque para o álcool. Ao apresentar Ana e sua trajetória, Andrade transmite bem a essência da personagem. Ela é o fio condutor da narrativa; ainda que turva, de modo que seus afetos rancorosos distorcem a história que chega ao leitor. Também é verdade que, dentro do enredo, Ana é captada. O apartamento em que cuida do pai é opressivo, reforçando a clausura que sente a protagonista, capturada pelo dever de filha – o que sobrou a ela. O nome da protagonista de Andrade ressoa uma das mais célebres personagens dos contos de Clarice Lispector, a dona de casa Ana, de “Amor”. Se na ficção lispectoriana, a Ana da escritora se vê às voltas com o papel de mulher tradicional; a narradora de Andrade reflete sobre o conflito entre a vida que lhe era esperada (em um amontoada de expectativas sociais) e a sua transgressão, no casamento desajustado com Jota e em seus vícios. Com Para os que ficam, Alex Andrade apresenta uma vida enclausurada. São muitas as prisões de Ana: o alcoolismo, os sentimentos reprimidos, o preterimento, a opressão do apartamento, a doença do pai, os afetos ressentidos e as expectativas frustradas. Em um momento em que a literatura brasileira é inundada por personagens femininas que se debatem com as implicações sociais, Andrade cria mais uma dessas personas críveis – rompendo com um padrão, uma vez que a maioria destas personagens são escritas por autoras mulheres. No romance, vemos o que fica, quando o vazio parece ser tudo que resta. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença