Eu já levantava da cama querendo mais. Ler o próximo livro, pegar o próximo ônibus, chegar à próxima estação.
Maria Paula Curto *
Sempre fui uma menina muito curiosa. Queria saber tudo sobre tudo. Não sei como minha mãe me aguentou. Aliás, sei. Permaneci como filha única, porque ela dizia que euzinha já bastava e que o mundo não daria conta – e ela muito menos – de duas Maria Paulas. Ninguém merecia dose dupla de chatice questionadora! Era o dia inteiro atrás dela, perguntando o porquê disso e daquilo, e pedindo para a coitada ler tudo que eu via pela frente: de propaganda de xampu no outdoor da esquina à bula de remédio. Um verdadeiro inferno. E não me contentava com qualquer resposta. Tinha que ter uma lógica. A minha lógica. Por exemplo: para ficar mais bonito (tenho certeza de que eu não fazia ideia, ainda, do que seria concordância nominal), o nome do Rei tinha que ser RobertoS Carlos e não Roberto Carlos. Era tão óbvio para mim…. já imaginaram o que era me ter como filha?
Me levar ao supermercado também não era tarefa fácil. Eu colocava no carrinho toda e qualquer novidade. Principalmente os novos lançamentos de biscoitos (é biscoito e não bolacha. Pode ler no pacote, ok?), iogurtes e geleia de mocotó. Sim, eu era da época que se vendia geleia de mocotó em copos de vidro. Sabor morango, framboesa ou tutti frutti. Tudo com o mesmo gosto, claro: doce, muito doce. Dona Lucinda tinha que filtrar todos esses desejos por novidade e soltar o famoso: na volta a gente compra. A grande mentira da nossa infância. Mas algumas vezes – poucas – eu conseguia convencê-la a comprar pelo menos uma novidadezinha. E como eu tirava boas notas na escola, eu merecia, né? Segundo ela, nem tanto. A frase era sempre: não fez mais do que sua obrigação. A coroa era dura na queda.

Outra coisa que sempre me deixou louca foi ouvir alguma língua que eu não entendia nada. Entrava em um quase desespero. Queria porque queria compreender minimamente o que aquela pessoa dizia. E se ela estivesse pedindo ajuda? Ou se estivesse falando mal de mim? (todo curioso é um pouquinho fofoqueiro, devo confessar…) Eu precisava entender aquilo. Para ajudar (fazendo a pose da filantropia) ou para me defender (não podia levar desaforo para casa, mesmo que em língua estrangeira). Abusada a criatura aqui, não? E, claro, queria conhecer outras cidades, outros países e, se possível, outros continentes. A vida é curta e o mundo é muito grande pra gente dar conta dele numa encarnação só. Eu precisava começar o mais rápido possível. Quanta ansiedade, meu Deus! A vida mal tinha começado e eu precisava viver tudo ligada no 220.
Era esse desejo, ininterrupto e insaciável, de “mundo” que me movia. Eu já levantava da cama querendo mais. Ler o próximo livro, pegar o próximo ônibus, chegar à próxima estação. Era uma fome de novidade sem tamanho. Não só do que era novo, mas de tudo que me era diferente. Às vezes, a atração por esse desconhecido vinha com uma certa dose de medo (qual atração não é perigosa?), mas esse me era – e ainda é – um poderoso combustível. A possibilidade de expansão somente se dá ao reconhecermos o nosso limite. E é o outro quem determina o limite do que somos. É como desenhar a nossa mão numa folha de papel. O traçado se dá pelo contorno. Pela borda. Pela margem entre a mão e o que não é mão. Ninguém começa pelo miolo, pelo centro, mas pela determinação do que fica de fora. Respeitar essa fronteira é não se permitir crescer. Permanecer no mesmo pode até trazer conforto. Momentâneo. Insistir será narcotizar. Paralisar. Crescer é invadir esse não-ser, esse para-além-de-mim. Arriscado? Sim. Mas o que a vida pede da gente é coragem…e uma pitada de curiosidade.

Infelizmente, não sinto esse mesmo “instinto desbravador” nas minhas filhas ou nos amiguinhos dela. A nova geração me parece ter nascido sem esse chip. O excesso de dados à mão, on-line e real time, parece ter diluído essa vontade de saber das coisas. A dificuldade, além do perigo, pelo jeito, também é excitante. Se eu posso saber tudo, agora, com um simples toque de dedo ou somente perguntando ao Google ou a Siri, por que raios eu vou correr atrás? Com um agravante: como somos dominados por um algoritmo, tudo que eu recebo de informação tem relação com o que curto, com o que sou (ou estou), com o meu limite. Nada me chega para além das minhas fronteiras. Porque não dá Ibope. Nem retorno financeiro. E com isso, o meu esboço não se expande. E eu vou apenas engordando, por “acúmulo de iguais”. E vivendo na monotonia de um campo de asfódelos, descobrindo que, na verdade, o inferno não são os outros, mas o mesmo…
Como furar essa bolha e libertar esses jovens dessa droga alucinatória coletiva e do seu canto Tik Tok da sereia? Como despertar dessa letargia da mesmice e aguçar a imaginação para além do YouTube? Como estimular um diálogo ao vivo e a cores, sem emojis ou kkkk? Onde ficou o deleite da espera pela revelação? O prazer de olhar pelo buraco da fechadura e imaginar o que está para além da cena, por trás da cortina?
Esse mundo sem névoas nem brumas, em que tudo é dado à visão, claro, nítido, em full high definition não estimula a fantasia. Nem a curiosidade. Perdemos o mistério. E, com ele, a melhor parte de nós mesmos: o infinito das nossas possibilidades.
Curiosidade mata? Absolutamente. Curiosidade salva. E faz crescer.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.