Fotografia da minha autoria

«É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já»

A música aleatória do meu despertador invade e aconchega o quarto. São sete e meia da manhã, de um domingo outonal [apesar de estarmos em julho], e o sono ainda se manifesta com pesar. No entanto, sorrio. Porque há sempre uma magia diferente quando sabemos o programa que nos espera e, sobretudo, quando sabemos que o destino implica um novo passeio em família. Com o Moleskine e a máquina fotográfica na mochila, já só falta sair e partir à aventura.

Há uma lista de locais que pretendo revisitar e outra dos que ambiciono conhecer de raiz. E a Lousã situa-se algures no meio, como se fosse a ponte que une dois mundos vizinhos. Nesta vila não faltam atrações, a começar pela Serra que nos permite instituir um contacto umbilical com a Natureza e, em consequência, com paisagens que nos tiram o fôlego. Afastando-nos do seu centro - que ficará para uma próxima oportunidade -, refugiamo-nos no encanto das Aldeias de Xisto, nas quais é fácil detetar o cuidado de preservar uma imagem autêntica - e nada polida - destas rochas metamórficas. E esse é, para mim, um dos pontos mais característicos e identitários, porque a essência permanece para lá do tempo, das pessoas e das mudanças.

A estrada estreita e curvilínea apresenta um piso em ótimo estado, o que possibilita uma circulação mais agradável. Após uma passagem rápida por Casal Novo, que se revela um miradouro soberbo para a Lousã e o seu Castelo, fizemos a nossa primeira paragem no Talasnal. À entrada, na parede lateral da Casa da Eira, numa tabuleta amarela, é possível ler que «aqui reina a natureza» e eu nunca vi tamanha verdade! A vegetação de luxo, complementada pelo som da água que a envolve, abraça-nos numa tela pintada de memórias especiais. Percorrer os seus trilhos, de «onde derivam quelhas e becos», potencia-nos uma viagem ao passado, recuperando a cultura de produção de azeite nos lagares. A sua disposição não deixa, à vista desarmada, perceber a dimensão desta aldeia. Porém, este segredo tão bem guardado convida-nos a inúmeras descobertas, seduzindo-nos com a sua beleza sem igual. As varandas, as casas em recuperação, o declive da encosta e as suas escadas são parte do seu carisma, estabelecendo uma simbiose saudável entre a intervenção humana e o que nasceu livre, na terra.

Talasnal Montanhas de Amor é uma denominação perfeita. Porque sente-se a dedicação nos detalhes e a vista privilegiada para a Serra. Este «postal vivo [...], manto protetor e fonte de vida de todos os seus habitantes» deixou-me maravilhada. E a sua alma permanecerá para sempre no lado esquerdo do meu peito. Tivesse eu palavras para descrever o que senti em cada passo. A paz. A emoção. A sensação de pertença e de plenitude. Há paredes que se tornam colo, que nos estendem a passadeira e nos permite voar. Há locais únicos, que nos arrebatam. E que nos abrem a porta para sermos parte da sua história.

Já visitaram o Talasnal?