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«Fiquei fascinada por me envolver nesta experiência»

O balde de pipocas representa uma viagem simbólica pelo universo das longa-metragens e das obras repartidas em episódios. Sei que me repito, mas as séries continuam a ser, neste panorama, a minha prioridade, porque fascina-me o vínculo duradouro que estabelecemos com as histórias e as personagens. É como se fossem a extensão de uma família alternativa, com todas as emoções inerentes a estas relações.

Pela primeira vez, desde que iniciei as minhas retrospetivas, reuni um número simpático de filmes e séries que justificassem a existência deste top anual. A seleção não foi simples, ainda assim, mas eis os meus favoritos.

JANEIRO

Há uma série de assassinatos violentos a acontecer em Lisboa e a equipa de Isabel Garcia, Inspetora-Chefe da Polícia Judiciária, ficou responsável pelos casos que têm vitimado mulheres. Entre a obsessão de encontrar um culpado e as pistas que os levam a lugar nenhum, existe uma aura misteriosa que nos faz duvidar de vários comportamentos. Em simultâneo, acompanhamos o desnorte de uma adolescente, que apenas procura a aprovação dos seus pais. A premissa é interessante, embora tenha cenas um pouco forçadas/exageradas.

FEVEREIRO

As famílias unem-se na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte se intrometa no caminho. Mas e quando é a vida a fazê-lo? Com várias histórias que se cruzam, acabamos a refletir sobre as inúmeras visões do amor. Privilegiando uma aura nostálgica e cómica, num equilíbrio perfeito, Até Que a Vida nos Separe é muito humana - e, para mim, uma das melhores séries que a RTP lançou [disponível na RTP Play].

MARÇO

Listen [de Ana Rocha de Sousa] expõe a dura realidade de um casal emigrado, que não só se debate com dificuldades económicas, como também se vê na desgastante luta para recuperar os filhos. E é mesmo angustiante acompanhar a intransigência dos Serviços Sociais, que deveriam ser os primeiros a prestar auxílio às famílias. Assisti ao desenrolar da ação com o coração nas mãos e nem sequer sou mãe, o que só demonstra a carga emocional que envolve esta obra cinematográfica. Será que esta luta díspar terá um fim?

ABRIL

A aposta televisiva da SIC junta quatro nomes talentosíssimos - Bruno Nogueira, Salvador Martinha, Nuno Markl e Filipe Melo -, naquele que é, para mim, um dos conceitos mais geniais a que já assisti: pela originalidade, pela liberdade de criação, pela ousadia, pelo despropósito de alguns pensamentos e, claro, por dar palco a profissionais que admiro e que têm a capacidade inspiradora de pensar fora da caixa, sem se levarem demasiado a sério. Além disso, quando vemos amigos a divertirem-se, torna-se contagiante.

MAIO

Esta série de época - Vento Norte - sustenta-se na história dos Mellos, uma família de aristocratas do Minho, e na vida dos seus criados. E interliga dramas políticos e amores impossíveis. Em «plenos anos loucos», num país «à beira da ditadura», tudo pode acontecer. Mais uma excelente aposta! [disponível na RTP Play]

JUNHO

Carlos Coutinho Vilhena tem uma nova websérie, denominada Clube da Felicidade, que estreou no último dia de junho - mas o seu primeiro episódio foi tão impactante, que ofuscou o que aconteceu, antes, neste formato. Partindo da pergunta «e agora?», que surge quando se atinge o sucesso, deambularemos pelo bloqueio, pela síndrome do impostor e pela pressão que se cola à necessidade de corresponder às expectativas criadas.

JULHO

Quando soube deste episódio especial, rejubilei de felicidade, pois voltaria a cruzar-me com pessoas que, direta ou indiretamente, foram uma fonte de aprendizagem, de catarse e de lucidez. Contudo, demorei a ver a reunião porque há muitas emoções acumuladas. Porque há uma imagem que pretendo preservar. E porque abriria a porta à nostalgia. Por outro lado, implicaria uma nova despedida - para a qual não estaria preparada. Mas como as saudades bateram mais forte, só poderia embarcar nesta aventura. Se compensou? Totalmente!

AGOSTO

A RTP tem sido pioneira na capacidade de pensar fora da caixa e de investir em conteúdos que nunca vimos - ou que são pouco usuais na nossa grelha televisiva -, que nos desconcertam e que nos prendem do início ao fim. Por essa razão, assim que me cruzei com o anúncio de Pôr do Sol, anotei a data de estreia, pois não queria perder. Confesso que o primeiro episódio me deixou sem palavras, porque fui às cegas. No entanto, regressei no dia seguinte. E em todos os outros depois desse. Porque a surrealidade do projeto cativa - e vicia.

SETEMBRO

Esta série é uma viagem intimista, visceral, pelo mundo tão complexo das relações humanas. E é, também, uma mensagem sobre a importância de renascermos a cada nova adversidade, atendendo a que nós não somos um só momento. E, mesmo que o coração se fragmente, haveremos de encontrar o nosso lugar - físico e emocional. E de nos redefinirmos nele. Porque aprendemos a cair e a não permanecermos no chão.

OUTUBRO

Acompanhar esta série foi uma montanha russa de emoções. Mas todas fundamentais, visto que nos levam a refletir sobre o que é exposto e o que fica guardado atrás das cortinas, longe dos holofotes do palco. Ao longo de sete episódios, salientam-se as lutas internas e externas, as perdas, as conquistas, os dramas, os medos e a força de cada uma das Doce. Com muito humor à mistura, é um formato que inspira. E que transborda de empoderamento feminino. A banda mais icónica deste jardim à beira-mar plantado fez mesmo história.

NOVEMBRO

A segunda temporada de Auga Seca [uma produção portuguesa e espanhola] começou, este mês, e tem-me conquistado. Creio que está mais intensa que a primeira, até pela forma como tudo aparenta ser evidente e, ainda assim, carecerem as provas. Além disso, tem sido interessante acompanhar a falta de escrúpulos de alguns protagonistas, que estão dispostos a tudo para continuarem a fugir das suas responsabilidades.

DEZEMBRO

O Pintassilgo, adaptação cinematográfica do livro homónimo de Donna Tartt, estava na minha lista de espera, até porque a obra literária tornou-se uma das minhas favoritas de sempre. Com as expectativas em lume brando, para não me desiludir, embarquei nesta aventura alucinante, que faz justiça ao enredo do livro. É verdade que senti falta de mais intervenções do Hobie e da Pippa e que achei algumas passagens demasiado céleres, no entanto, creio que este filme espelha bem o sofrimento, a dor e o desnorte de Theo, enquanto criança. Em simultâneo, é um retrato, a longo prazo, das consequências da tragédia que teve de enfrentar. Explorando temas como o contrabando, a negligência parental e os vícios, O Pintassilgo tem uma carga humana bastante evidente. Por isso é que é tão fácil relacionarmo-nos, principalmente, com o protagonista.

Que séries/filmes marcaram o vosso ano?