(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 1995)
O filme Assédio Sexual é baseado no romance Revelação (o extremamente sem graça título nacional para Disclosure, 1994, em tradução de Sônia Coutinho para a Rocco), de Michael Crichton, que conta uma questão envolvendo o cargo de Diretor da Divisão de Seattle da DigiCom, companhia de alta tecnologia: Tom Sanders vai ao serviço, numa segunda-feira, acreditando que será promovido a esse posto, enquanto a sua empresa está sendo incorporada por uma editora, contudo descobre que Meredith Johnson, namorada de anos atrás (quando ainda não era casado, com dois filhos e sequer morava em Seattle) foi a indicada para ocupá-lo. Como está havendo problemas na linha de produção de drives de CD-ROM (responsabilidade de Sanders), ele se reúne com a nova “chefe”, que sem perda de tempo o ataca sexualmente. Meio dubiamente, tergiversando, Sanders resiste e se manda, para no dia seguinte descobrir que Meredith o acusa de assédio sexual.
REVELAÇÃO narra, portanto, como Sanders procura provar ter sido ele o assediado, mas principalmente como ele vai percebendo que sua disputa com Meredith encobre uma conspiração maior, envolvendo justamente a fusão de companhias e a linha de produção dos drives (alterada meses antes por Meredith e, por isso, com a qualidade comprometida). Para entreter o leitor com tal trama, Crichton repete o recurso que aperfeiçoou ao extremo num best seller anterior, Sol nascente (que resultou num filme inócuo, inexpressivo, de Philip Kaufman): tudo acontece em poucos dias,o que nos arrasta num clima claustrofóbico e aflitivo, quando se devoram centenas de páginas em poucas horas. O clímax, então (o confronto entre Sanders e Meredith numa reunião decisiva) mostra que Crichton seria um autor de telenovelas insuperável.
Ele nos faz torcer por um “herói” que não passa de um homem medíocre, sem maiores horizontes na vida do que ser um bem-sucedido acionista da sua empresa e derrotar sua chefe. É sua habilidade narrativa que dribla essa falta de estofo, de substância humana, e também sua capacidade de nos levar a domínios inéditos e ambientações originais (como a cena no corredor de realidade virtual, onde várias personagens se encontram e descobrimos os objetivos de Meredith).
Além de hábil, Crichton é um grande sacana: para mostrar como Sanders (e os machos em geral, por extensão) é oprimido pela nova situação da mulher (preparando, assim, o espírito do leitor a favor de Sanders contra Meredith, a qual, aliás, é convenientemente incompetente), inicia REVELAÇÃO mostrando como seu protagonista chega atrasado no serviço (num momento-chave) por ter de suprir a inabilidade da esposa em lidar com os filhos.
A disposição maliciosa, quase indecorosamente machista de Crichton foi suavizada no filme (que alterou, com inteligência, a participação da esposa), que não chega a ser ruim. Seu problema é ser dirigido pelo anódino Barry Levinson. Depois de oscilar entre o razoável (Diner, Os rivais, Avalon) e o ruim (Rain Man), e de ter conseguido seus melhores resultados como empregado da inspiração alheia (nos belos O enigma da pirâmide e Bugsy), Levinson resolveu imitar o estilo soturno, conspiratório e muitas vezes confuso e amorfo de certos thrillers de Alan J. Pakula (estou me referindo a coisas como A trama, Amantes & Finanças ou O dossiê Pelicano, não a filmes mais rigorosos e expressivos como Klute ou Todos os homens do presidente). O resultado: tudo parece antiquado, apesar da tecnologia de ponta.
O filme peca, também, por ser pudico no tratamento da verdadeira várzea de vulgaridade que são a linguagem sexual e as maledicências administrativas, que ficam claríssimas no romance e que talvez sejam o seu aspecto mais marcante. É até um desperdício porque suas duas estrelas, Michael Douglas e Demi Moore, os quais têm atrás de si alguns dos filmes mais desprezíveis já feitos (Atração fatal, Chuva negra, Instinto Selvagem, Ghost, Proposta indecente), poderiam ter encampado facilmente esse aspecto sórdido e baixo com mais impacto do que uma mera ceninha para chocar o público médio.
Pois o que faz Michael Crichton ser um pouco mais do que um escritor oportunista e ardiloso é o fato de levantar questões incômodas sobre o comportamento do homem moderno (pelo menos, o homem moderno norte-americano). É evidente, igualmente, que ele quer ganhar muito dinheiro, e por isso embala-as em enredos calculistas e vertiginosos (do ponto-de-vista da leitura fácil). Tão vertiginosos, de fato, que nenhum filme até agora baseado neles (a não ser Jurassic Park porque transformaram totalmente a história) conseguiu recriar seu pique. E essa é mais uma razão para Crichton ser interessante: seus romances ainda não são meros veículos para adaptações cinematográficas. Valem por si mesmos, pense-se o que quiser sobre a moralidade, a ideologia ou a disposição mercenária do autor.






