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Abr24

Maria do Rosário Pedreira

Foi nessa contemplação que apareceu num canto escuro uma mulher desagasalhada a embalar uma boneca, parecia alheia a todos os conceitos, métodos e simbologias da noite. Transferi para ela a compaixão, a mesma que eu teria para a mãe de Deus. Mãe é mãe.

Flor regressou, parou junto da mulher — parece que nos vinha observando — e entregou-lhe uma moeda de um dinheiro, «Noite feliz», desejou-lhe, deu-me a mão e tirou-me para o adro onde homens e mulheres recém-comungados desfrutavam do salutar parlatório pós-missa, todos de cabeça coberta por lenços e chapéus, não fazia sol, mas os catequizaram que nem só do sol e da chuva deve a aura ser protegida, é mister também resguardá-la do enguiço do próximo e das botas de Satã.

_ Onde arranjaste o dinheiro?,

perguntei-lhe com um riso inquisitório.

_ No pecado,

respondeu-me.

Sem mais cavaco, agarrou-me novamente pela cintura, ajustou seu passo esquerdo com o meu direito e bamboleámos rua acima, felizes por voltarmos aos dezassete, trinta anos depois.

Mário Lúcio Sousa, O Livro Que Me Escreveu

P.S. O lançamento é hoje, e tem música! Estão todos convidados. Apareçam!

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