resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em cinco de junho de 2001, de forma ligeiramente diferente

Seymour, uma apresentação merece atenção especial já pelo simples fato de ser difícil de se chegar a uma avaliação final sobre ele. Desde que o li pela primeira vez em 1984 (quando saiu no Brasil como Seymour, uma introdução), já o admirei muito, já o detestei e o achei incongruente, já o considerei um dos limites finais da ficção em matéria de ousadia formal, já o achei uma lengalenga, já o achei o máximo. São quase dezessete anos de um incessante movimento pendular.

Qual o problema? Na seção anterior, constatava-se que há um excesso de amor de Salinger pela família Glass, a qual povoa vários de seus textos. Em “Lá embaixo, no bote”, uma das Nove estórias, veja-se a descrição de Boo Boo Glass: “… ela era em termos de rostos eternamente memorável e imoderadamente perceptiva, uma moça definitiva e impressionante”!!?? É em termos eternamente memoráveis e imoderadamente perceptivos que se constrói (ou se destila?) a longa apresentação de Seymour Glass por seu irmão Buddy. Quem é Seymour? É um visionário, um poeta. Um santo?

Quando atirou na sua têmpora direita, ele deixava atrás de si 184 poemas. Buddy não transcreve nenhum, mas fala muito (muito mesmo) deles. Existirá algo mais irritante do que falar, no vazio, da obra de um personagem imaginário? Buddyt quer compor a hagiografia do irmão, quer santificá-lo como um poeta que foi além da poesia, isto é, como um místico que, no Ocidente, aplicou princípios orientais. Estamos diante de um Sócrates, e seu discípulo fala por ele, ou então de um Jesus, e vemos desdobrar-se o destino de um apóstolo? Ou Seymour era um avatar de Buda? Aí, o excesso de amor afeta a qualidade do texto, desequilibra-o consideravelmente.

“Teddy”, a última das Nove estórias, apresentava um garoto de 10 anos que dava aulas de espiritualidade em meio a uma viagem transatlântica. Apesar do personagem-título, que é um chato (e que não passa de mais um exemplo do eterno garoto-prodígio que aparece tanto na indústria cultural norte-americana), o conto é magnífico, soando falso e desequilibrando-se artisticamente apenas que dá a palavra a ele: “A lógica é a primeira coisa que você tem de abandonar…Sabe aquela maçã que o Adão comeu no Paraíso, de acordo com a Bíblia? Sabe o que havia naquela maçã? Lógica. Lógica e troços intelectuais. Era só isso que havia nela. Por isso, se você quiser ver as coisas como elas realmente são, então tem que vomitar tudo isso…. O problema é que a maioria das pessoas não quer ver as coisas como elas realmente são. Não querem nem parar de nascer e morrer o tempo todo. Todo mundo só quer ter um novo corpo, em vez de parar e ficar com Deus, que é o que é bom mesmo” (lembre-se, leitor, DEZ anos!).

O que irritava em Teddy irrita em Seymour: o papo é místico, mas o tom é de preleção, é professoral, vem de cima para baixo.

Não é impossível criar santidade com palavras: E. M. Forster provou isso em Passagem para a Índia com sua mrs. Moore, a personagem feminina mais admirável de toda a ficção (na opinião de quem aqui escreve, é claro) e um protótipo de evolução espiritual, quase uma santa laica. Mas Salinger derrapa nas suas pretensões e parece atolar mais no nível de percepção de Buddy Glass, o qual, ironicamente, é quem salva o texto de Seymour, uma apresentação para a literatura.

Evidentemente, ele tem um sério revanchismo subliminar com relação ao irmão, embora escamoteie-o através das mais diversas estratégias. O resultado dessas manobras é um dos estilos mais virtuosísticos jamais alcançados. Que Salinger fosse um virtuose do estilo se evidenciara desde O apanhador no campo de centeio, um daqueles romances raros que têm uma linguagem única, peculiaríssima, inimitável, onde tudo parece recém-inventado, como acontece também com Lolita, Grande Sertão:Veredas ou Viagem ao fim da noite, por exemplo. Entretanto, Seymour, uma apresentação leva essa peculiaridade ao extremo. E é o discurso de Buddy que acaba prevalecendo mais do que a presença artificiosa e forçada de Seymour. E descobrimos um narrador que não faria feio no mundo de Nabokov: o veneno retórico, a retaliação contra aqueles que não o aprovam e que ele não aprova, a ironia letal, mesmo num trecho aparentemente inofensivo como: “Vivo só (e sem gatos, faço questão de que todos saibam)”, o uso incessante dos parênteses paa criar múltiplos jogos de espelhos. E o que mais se evidencia na “apresentação” é o desgaste final do personagem “apresentado”, ele que aos 10 anos é tão pentelho quanto o Teddy do conto citado, ttanto que, quando o irmão mais novo está jogando bola de gude com um amigo, ele, como uma prima-do0na do esoterismo cósmico, aproxima-se e diz: “Por que você não tenta mirar menos?, perguntou-me sem se mover do lugar. Se você acertar quando mirar vai ser pura sorte, continuou falando, comunicando, sem por isso quebrar o encanto. Então eu tratei de quebrar o encanto. De propósito. Como é que vai ser sorte, se eu mirei?, respondi não muito alto, porém com mais irritação na voz do que estava de fato sentindo [vocês acreditam nisso, é claro!?]. Ele não disse nada por alguns intantes, apenas se deixou ficar equilibrado no meio-fio, olhando-me, eu sabia imperfeitamente, com amor: porque vai ser, acabou dizendo. Você vai ficar satisfeito se acertar a bola dele, não vai? Não vai ficar satisfeito? E, se você fica satisfeito quando acerta a bola de alguém, então, secretamente, é porque não esperava muito acertar. E é por isso que tem de haver uma dose de sorte, tem de ser meio sem querer, disse ele”.

O resto do texto (já é quase no final) é dedicado a extrair profundas lições espirituais dessa intervenção de Seymour e transmiti-las ao leitor.

Por que será, então, que decorridos quase 17 anos de releituras, a sensação é de que ele acaba induzindo o leitor a uma imagem antipática do irmão, quando este se manifesta verbalmente? Não tem jeito mesmo: admirável, detestável, incongruente, limite da ficção ou lengalenga, o mistério de Seymour, uma apresentação continua. E seu feitiço também.