Fotografia da minha autoria

«Baseado no livro homónimo de Donna Tartt»

Os escritores têm superpoderes: através das suas palavras e da sua imaginação, transportam-nos para mundos desconhecidos, para realidades que conseguem ser tão diferentes das nossas, despertando sensações e emoções que talvez não acreditássemos possíveis. E foi neste embalo que O Pintassilgo, de Donna Tartt, me transformou, assumindo-se como um dos livros da minha vida. Assim, tê-lo adaptado ao cinema foi mais uma maneira de eternizar aquilo que tem de mágico - desconcertante, mas tão inesquecível.

A HISTÓRIA

Aos 13 anos, Theodore Decker sobrevive a um atentado terrorista num museu. A mãe dele, porém, morre. Enquanto está a abandonar os destroços, encontra e leva para casa "O Pintassilgo", um quadro a óleo do holandês Carel Fabritius, pintado em 1654. Essa lembrança leva-o a entrar num mundo de falsificação de arte.

A ADAPTAÇÃO

A narrativa escrita marcou-me profundamente, por reunir um alargado panorama de vivencias e por nos envolver em cada uma delas, criando a ilusão que nos pertenciam, que aquele sufoco constante era uma extensão do nosso tormento. Por isso, senti necessidade de assistir ao filme com as expectativas em lume brando, para não sair desiludida. No entanto, sinto que esta aventura alucinante fez justiça ao enredo, mas não na totalidade, atendendo a que houve divergências e passagens um pouco descontextualizadas e forçadas.

O mundo do Theo ficou do avesso e passou a consumi-lo um intenso sentimento de culpa. Portanto, há uma carga humana densa, sombria e bastante visceral a ocupar a sua nova realidade. E é preciso encontrar a sensibilidade certa para interpretar este que é um dos elementos centrais da história, quase como se a dor, o medo e a tragédia fossem personagens principais. Enquanto assistia ao desenrolar da ação, senti na pele tudo isso. Não escondo, ainda assim, que algumas cenas foram demasiado céleres, o que prejudicou a contextualização dos respetivos momentos e comportamentos. Não obstante, de um modo geral, creio que espelhou bem o sofrimento e o desnorte do protagonista - não só durante a infância, mas também em adulto.

Recorrendo a flashbacks, estabelecendo uma comunicação entre o passado e o presente, faltou-me ter mais intervenções de Hobie e de Pippa, porque tiveram um papel preponderante na recuperação de Decker. Por outro lado, pareceu-me que a relação com Boris, que conseguiu ser a junção do caos e da paz que ele tanto procurava, foi bem explorada. Em simultâneo, foi mesmo interessante acompanhar esta dicotomia; foi importante contactar com estes planos emocionais antagónicos, que moldaram um miúdo completamente perdido, a almejar um rumo para a sua existência e a tentar juntar todas as peças que o/se quebraram.

Este retrato, a longo prazo, das consequências de uma perda atroz permitiu estabelecer uma ponte com várias temáticas, refletindo sobre o seu impacto no nosso caráter. E, sobretudo, deixou claro que, «na maioria das vezes, não se trata de gritar no momento, mas, antes, de processar o que aconteceu durante toda a vida».

A METÁFORA DO PINTASSILGO

Os efeitos da tragédia dividem-se por múltiplas origens e não só pela mais óbvia, numa manifestação prolongada de luto: a revolta, as máscaras que usamos para nos protegermos [de nós e dos outros], o ambiente familiar negligente e desestruturado, os traumas, a violência, os vícios, as decisões erradas, a escuridão interior e a procura por um propósito, por um sentido na vida. Além disso, é evidente que existe um antes e um depois, expondo tudo o que estamos dispostos a fazer para preservarmos aquilo que nos é valioso.

Creio, em vista disso, que este quadro representa muito mais do que uma tentativa de encontrar o seu lugar no mundo e que é muito mais do que uma história de superação. Aliás, o mais provável é que seja um espelho do quanto podemos sucumbir e tardar a reerguer-nos. Porém, honestamente, sinto que a sua metáfora é a liberdade. De ser. E, talvez, de milagre em milagre, Theo Decker se liberte e se salve como o Pintassilgo.