Lawrence Hill escreveu um livro chamado “The Book of Negroes”, algo que poderia ser traduzido “O livro dos pretos”, em português.

Um grupo holandês que diz representar as vítimas da escravidão no Suriname quer queimar esse livro.

Não, o livro não defende a escravidão nem ofende a dignidade dos negros. Conta, na verdade, a história épica de uma mulher africana, Aminata Diallo, que é vendida como escrava para os Estados Unidos, mas que sonha com sua liberdade e com a volta para casa. Ela foge, é arrancada de seu marido e filho, passa pela guerra, junta-se a um grupo de escravos libertos, até voltar à África, numa história que passa por três continentes e três décadas para trazer à tona um capítulo vergonhoso da história. Esse é mais ou menos o resumo que consta nos sites que vendem o livro, apenas para dar uma ideia daquilo que é tratado no romance.

Por que um grupo que representa as vítimas da escravidão quer queimar um livro que conta exatamente a história de uma escrava e de sua luta pela liberdade? Nada mais, nada menos do que por conta do título: o termo Negroes, de “The Book of Negroes”, equivale ao “nigger” americano e carrega um tom pejorativo, devendo, segundo o grupo, ser banido do vocabulário holandês. Adiante um trecho da manifestação (em inglês), retirada do site The New Yorker:

We, descendants of enslaved in the former Dutch colony Suriname, want to let you know that we do not accept a book with the title “The Book of Negroes.” We struggle for a long time to let the word “nigger” disappear from the Dutch language and now you set up your “Book of Negroes”! A real shame! That’s why we make the decision to burn this book on the 22nd of June 2011. Maybe you do not know, but June is the month before the 1st of July, the day that we remember the abolition from the Dutch, who put our ancestors in slavery.

Vale ressaltar que o nome do livro é uma referência a um documento histórico: The Book of Negroes registra informações dos escravos que lutaram pela Coroa Britânica na Revolução Americana, e tal documento está presente de forma decisiva na trama do livro.

Assim, essa ameaça de queimar os exemplares do livro (segundo o grupo, serão queimados hoje, dia 22/06/2011), perde todo o caráter de luta por uma causa, já que o próprio livro luta por essa mesma causa. Denota a estreiteza da mente que caracteriza qualquer “queimador”: agarram-se a detalhes, a pequenas coisas, fazem de uma palavra motivo para a fogueira.

Eis um trecho do que escreveu o autor do livro acerca dessa ameaça:

Burning books is designed to intimidate people. It underestimates the intelligence of readers, stifles dialogue and insults those who cherish the freedom to read and write. The leaders of the Spanish Inquisition burned books. Nazis burned books.