Dylan Dog: A Saga de Johnny Freak

Dylan Dog!

Dylan Dog estreou-se em Portugal em 2017, numa colecção Novela Gráfica da Levoir, tendo posteriormente visto dois volumes sair na Colecção Bonelli. Agora, é a G. Floy que vai lançar mais obras deste universo, tendo começado com dois lançamentos no Coimbra BD: O Velho que Lê, e Até que a Morte Vos Separe.

Este livro é da Colecção Bonelli, lançada há um ano. Dylan Dog é um detective privado que, juntamente com o seu amigo, Groucho, lida com situações sobrenaturais em Londres. Era esta a informação que tinha antes de partir para a leitura - fiquei, no entanto, surpreendida, quando a narrativa de Johnny Freak não apresentou contornos sobrenaturais. É uma história passível de decorrer no "mundo real", apesar das várias coincidências, a um ponto quase absurdo. Ainda assim, o caso com que Dylan Dog se depara, está longe de ser normal.

Ora vejamos: o caso que envolve e atormenta Dylan Dog, nesta obra, é o de um rapaz surdo-mudo, com pernas amputadas, apenas um pulmão e um rim, encontrado escondido num parque, sem capacidade aparente de viver autonomamente, dadas as suas incapacidades, mas que no entanto demonstra enorme sensibilidade para a arte, tanto na pintura como na música. Apelidado de Johnny Freak, num caso com vasta cobertura nas notícias de modo a tentar compreender o seu passado, o jovem, que teria 18 anos, demonstra também emoções humanas quando se apaixona pela enfermeira que cuida dele no hospital para onde Dylan o leva.

Em pouco tempo, aparece o rico casal Arkham, dizendo que Johnny é o filho que fora raptado vários anos antes - mas Dylan Dog não fica convencido, e decide investigar mais a fundo a verdadeira história do seu novo amigo. Entretanto, cria uma inimizade com um jovem arruaceiro.

 

Não querendo entrar em detalhes, para não estragar a narrativa a quem vier a ler: no fim, Johnny morre - e, num laivo de generosidade e enorme capacidade de perdão e bondade, doa o seu coração ao irmão. Porque esta história é sobre generosidade, sobre bondade - além de abuso infantil, abuso animal, amor paternal e pessoas que servem como bancos de órgãos.

Houve uma parte apenas que me confundiu: os pais de Johnny mencionaram que este tinha nascido antes de Dougal, o irmão, tratando-se de uma criança indesejada fruto de um relacionamento anterior; relembro que Johnny teria 18 anos. Dougal era noivo da enfermeira... ficando, assim, difícil, compreender idades.

Esta edição tem uma sequela, que viria a surgir em seguimento do sucesso da primeira história: O Coração de Johnny Freak. E é com essa sequela que o tom da narrativa toma contornos mais escuros, com o aparente regresso de Johnny, quando o desespero de Dougal o leva a vingar-se de todos com quem se cruzou - apesar da bondade que permanece no coração de Johnny Freak, que ele traz.

Visualmente, o tom da obra também altera, sendo especialmente visível na arte nas paredes: se as pinturas de Johnny Freak, no primeiro volume, eram de uma enorme beleza, no segundo volume vemos arte de tom mais cubista, reminiscente de Guernica, mais visualmente desesperada.

Sendo o tom desta obra realista (e não sobrenatural), acaba por apelar muito às emoções e à sensibilidade do leitor, não só pelo horror de algumas das personagens, mas também pela bondade e generosidade demonstradas por outras. É muito humano. A primeira história deste volume é, aliás, considerada como sendo uma das melhores da série. A segunda, embora seja de enorme qualidade, é mais previsível.

5/5 quero ler Dylan Dog sobrenatural

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