PRIMEIRA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2004)
“…A sangueira encharca o solo. Desde
o amanhecer, até que cresça o dia sagrado
lanças golpeiam, de uma e de outra parte. Tomba
a gente . Quando o sol ascende a meio-céu,
o Croníade, soerguendo a balança dourada,
coloca em cada prato uma das torvas Queres
longa-lutuosa morte, a dos Troianos, doma-
corcéis; a dos Aqueus, vestes-brônzeas. Librou-a
segura bem no centro; cai, aziago, o dia
dos Aqueus, cuja Moira pousou na fertílima
terra, a dos Tróicos sobe aos céus…” (CANTO VIII, vv. 65-75)
Além de Tróia, a redução hollywoodiana da ILÍADA, o brasileiro tem à sua disposição nova versão do épico de Homero, composto provavelmente entre os séculos IX e VIII a.C. Depois das traduções importantíssimas de Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, a de Haroldo de Campos (lançada em dois volumes pela ARX, e da qual tivéramos amostras em A ira de Aquiles e Os nomes e os navios) mostra qualidades de concisão e precisão que faltam às vezes na de Nunes (a qual, no entanto, é fantástica), e uma clareza e legibilidade que faltam na de Mendes (que é um desafio de leitura, quase como se estivéssemos lendo outra língua). O único senão é que, na capa, o nome do tradutor aparece com mais destaque do que o do autor!
O primeiro volume traz 12 dos 24 cantos. Em 7.589 versos, mostra-se como, no nono ano do cerco a Ílion (Tróia), Aquiles e o chefe das tropas gregas,Agamêmnon, desentendem-se por causa de uma presa de guerra (Briseida), o que causa a célebre ira de Aquiles e sua retirada da guerra.
Sua mãe imortal, Tétis, pede a Zeus que os gregos sejam prejudicados até que se honre o filho como devido. Palas Atena e Hera, todavia, são favoráveis aos gregos e várias celeumas e picuinhas ocorrem no Olimpo até que Zeus, o Croníade, decreta que nenhum imortal deve participar das batalhas e ele mesmo passa a manipular o destino do combate, fazendo com que Héctor (assim aparece na tradução de Campos, contrariando a tradição, que sempre o nomeou como Heitor), o chefe dos troianos (e irmão de Páris, que raptou Helena de Menelau, começando a guerra), quase consiga destruir o exército grego, acercando-se dos navios invasores, os quais ele pretende incendiar.
Ler a ILÍADA é uma experiência cultural estranha a princípio, até incômoda, e que depois se mostra cada vez mais apaixonante (ainda mais se somos servidos por traduções como as de Nunes & Campos).
Por que a estranheza? É difícil nos acostumarmos com uma narrativa sobre o embate de dois lados e nenhum deles ser colocado como o certo, como aquele com o qual devemos nos identificar.
Troianos e gregos, cada lado tem razão, cada exército tem seus heróis valorosos e honrados. Héctor e Enéias equivalem-se a Aquiles, Odisseu (Ulisses), Diomedes ou Ájax. O rei Príamo tem tanta dignidade quanto Néstor, o conselheiro dos gregos. O que importa é ser favorecido pelos Deuses. Pode ser Diomedes, quando Palas Atenas o protege em combate, pode ser o próprio Zeus, influenciando as ações de Héctor. Nenhuma outra obra conseguiu captar tão bem a arbitrariedade do destino, encarnando-a em potências transcendentes. A guerra de Tróia é o palco do jogo do fado, da música do acaso, representada muito bem pela balança de Zeus, que aparece na passagem de abertura deste meu texto. Não é por acaso (sem trocadilho) que os heróis evidenciam um sentimento tão profundo da precariedade da vida (Agamêmnon diz, no canto IX, de Hades, que representa a morte: “para os mortais, é o mais odioso Deus”); não é por acaso que eles se agarram tanto aos prazeres mais sensoriais, seja comer e beber, e aos mais violentos, como matar e despojar os inimigos das suas posses valiosas. A única coisa que conta é viver, prevalecer e, se possível, perdurar após a morte, através da Fama (mesmo por um “sinistro fado”, como Helena diz a Héctor, sabendo que ela e Páris causaram tantas desgraças, “para que, ambos, sejamos tema dos vates vindouros”).
Na ILÍADA vemos a tão falada natureza humana sem disfarces. Por isso, o incômodo nas primeiras abordagens do texto. Ájax repreende Aquiles por não aceitar ofertas de Agamêmnon com uma visão bem pragmática:
“…No entanto a morte do filho
ou do irmão, o ofensor pode pagar o resgate
condigno e ficar na pátria, apaziguando
o coração e o orgulho do ofendido. A ti
porém, os deuses infundiram mal-volente
fereza de ânimo em razão de uma, uma única moça
e nós te oferecemos sete,entre as mais
belas e muitos outros dons…”
E é essa consciência da instabilidade da existência que dá azo a uma passagem reveladora, maravilhosa e até engraçada do canto X: na véspera de serem possivelmente massacrados por Héctor, e sabendo disso, os chefes gregos compartilham um repasto magnífico (e os emissários que procuram Aquiles ainda usufruem outro). A seguir, vão dormir! No meio da noite, Agamêmnon, Menelau e o sábio Néstor decidem acordá-los e Odisseu diz a este último, que o tira do “doce sono”: “Que grande afã vos move?” Isto é o que se pode chamar de despreocupação!
SEGUNDA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de junho de 2004)
“… Zeus tomou da áurea balança
em cada prato pôs uma Quere mortífera
esta para o Aquileu, aquela para o doma-
corcéis; librando-a pelo meio ela declina
soa, para Héctor, o dia aziago: ruma para o Hades…”
(CANTO XXII, vv. 210-214)
Como na seção anterior, o assunto é a memorável tradução de Haroldo de Campos para a ILÍADA, mas agora tratando dos 12 cantos do segundo volume: 8.104 versos.
Pela citação de abertura, vê-se que a sorte da guerra mudou: entre os triunfos de Héctor está a morte de Pátroclo (a luta pelo cadáver do amante de Aquiles é um momento incrível, que só encontra paralelo numa disputa macabra similar pelo corpo de Sarpédon, filho de Zeus; este, favorável aos troianos).
Desta forma, urde-se o destino previsto no canto XV:
“Que Héctor afugente uma vez mais os Aqueus
desfibrados de medo, e que a fuga os arraste
às naves multirremes de Aquiles Peleide
que instigará o amigo Pátroclo, a quem Héctor
faiscante, de um lançaço abaterá defronte
a Ílion, tendo antes morto a muitos mais (Sarpédon
meu florescente filho, incluso). Irado, Aquiles
vingando o amigo, acabará com Héctor…” (vv. 62-69)
Os acontecimentos humanos continuam provocando controvérsias entre os deuses, tanto que Hera (favorável aos gregos) chega a seduzir Zeus e adormecê-lo para que ele não impeça a intervenção de Posêidon. Ela não é a única a se valer de táticas insidiosas e desprezíveis (Apolo prejudica Pátroclo e Palas Atena cria o estratagema que levará Héctor a uma morte solitária).
No canto XX, depois de um tempo de interdição, Zeus permite que os imortais desçam a Ílion:
“Ficarei no alto Olimpo, apreciando o espetáculo
de um píncaro. Vós outros, porém, misturai-vos
a Gregos e Troianos, a estes ou àqueles
a gosto, socorrendo (…)
Retumba a terra. O céu troveja
Zeus no alto ouvia. E pôs-se a rir, de coração
gozando ao ver os deuses que travavam luta.”
O momento mais impressionante dessa interferência sobrenatural talvez seja aquele em que o rio Xanto-Escamandro, ressentido com Aquiles por conspurcá-lo com cadáveres troianos, tenta afogá-lo por meio de uma inundação, sendo detido por Hefesto, filho de Hera (o qual, em outro momento extraordinário, confecciona a pedido de Tétis, mãe de Aquiles, uma armadura de guerra indestrutível para o “funesto herói”).
Ao contrário do que se costuma pensar, o ardil do cavalo de madeira não faz parte da ILÍADA. O poema tem seu clímax no Canto XXII, com a morte de Héctor (nele, também, começa a crescer a figura tragicamente imponente de seu pai, o rei Príamo). É Héctor quem detém o pathos trágico em meio às peripécias épicas.
Pátroclo é uma vítima do jogo do destino (é preciso que ele morra para Aquiles voltar ao conflito e seja, enfim, honrado pelos gregos como devido, após a ofensa de Agamêmnon); o arrogante Peleide tem consciência de que, mesmo gerado por uma deusa, seu destino é morrer prematuramente, sem voltar ao seu cantão natal, e essa é a pedra-de-toque para que ele insista na manutenção da sua imagem heróica, cuidando de sua Fama e Glória. Héctor, em contrapartida, carrega consigo o fardo de ser o baluarte de uma cidade condenada. Desde o início, cerca-o uma atmosfera de “morto que ainda habita os vivos”. Já no canto VI (n primeiro volume) lê-se: “…Na mansão de Héctor-ainda vivo—choram por Héctor…” (na versão de Carlos Alberto Nunes: “…Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam…”; na de Odorico Mendes: “… o pranteiam vivo”).
No meio da batalha, o poeta nos antecipa:
“Restava-lhe de vida apenas um lapso mínimo
Palas Atena já o empurrava para a Moira
mortal, pelo vigor de Aquiles subjugado…”
Toda a parte final (à exceção dos jogos fúnebres como preito a Pátroclo) centraliza-se no resgate do seu corpo, que Aquiles insiste em ultrajar (após admirar a sua beleza, caído no chão, como também o fazem os demais combatentes gregos), até que contraria os próprios deuses, o que dá ensejo ao surpreendente canto final, no qual Príamo vai à sua tenda implorar pelos despojos do filho, e que tem uma grandeza que só seria vista novamente em Shakespeare. O próprio Aquiles cresce como figura humana. Príamo diz a ele:
“Lembra teu pai: mais piedade mereço
por fazer o que não fez outro homem nenhum
beijar, levando-a à boca, a mão que assassinou-me
o filho…” (CANTO XXIV, vv. 504-507)
Hera chega a reclamar da preocupação geral com Héctor:
“… Justa será tua palavra
se os Numes atribuíssem honra igual a Aquiles
e a Héctor ? Mortal, em peito de mulher mamou
Héctor. Mas o Aquileu é filho de uma deusa…”
Zeus replica:
“…Honras
maiores, sim, merece Aquiles; porém, Héctor
era, entre os mortais de Ílion, o mais caro aos céus…”
Após 15.693 versos, ele se tornou o mais caro ao leitor também.
ANEXO
Como fiz com Antígona (VER https://armonte.wordpress.com/2011/08/05/tudo-o-que-exorbita/), colocarei para os interessados uma mostra de cada uma das três grandes traduções da ILÍADA. Entre parênteses, a editora que as publicou por último: escolhi a passagem do CANTO I em que Tétis vai se queixar a Zeus:
1) ODORICO MENDES(Ateliê Editorial, Editora Unicamp), tradução de 1874:
“Sempre enfadado nos baixeis, o ardente
Generoso Pelides na assembléia
De heróis não comparece ou nas batalhas;
Do ócio porém seu coração ralado,
Almeja o alarma e pela guerra brame.
Ao duodécimo dia, à casa etérea,
Em testa Jove, os numes se encaminham.
Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,
Surgindo matutina, ali se alteia;
Semoto encontra o providente Padre
No fastígio do Olimpo cumioso;
Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,
Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:
Se entre os imortais, senhor, te fui profícua
Por dito e ação, preenche-me este voto:
Orna o meu filho a vida, já que é breve;
Que o rei possante o assoberbou de insultos
E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,
Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,
Té que de honras os Dânaos o acumulem.
O anuviador calou-se, e ela mais insta:
Pois que receias? ou concede ou nega;
Que a deusa ínfima sou prove-te agora.
Do imo geme o Tonante: É mau que incites
A com seus ralhos molestar-me Juno,
Que, assídua em me aturdir perante os numes,
Desses Troianos parcial me acusa.
Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:
Do certíssimo aceno entre as deidades,
Selo à minha promessa irrevogável.”
2) A de Carlos Alberto Nunes (Ediouro):
“Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado
o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,
sem freqüentar a assembléia, onde os homens de glória se cobrem,
nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito,
só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.
Quando a dozena manhã prometida raiou matutina,
para o Olimpo voltaram os deuses de vida perene,
todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se
Tetis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas,
em névoa envolta, ao céu subiu e ao Olimpo altanado,
onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne,
dos demais deuses à parte, no pico mais alto do monte.
Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos
o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o,
desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica:
Se já algum dia, Zeus, pai, te fui grata entre os deuses eternos,
seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora:
honra concede ao meu filho, fadado a tão curta existência,
a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje
inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza.
Compensação lhe concede por isso, Zeus, sábio e potente;
presta aos Troianos o máximo apoio, até quando os Acaios
a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.
Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula.
Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça
mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido:
Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te,
pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza
de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.
Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula:
Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio
de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos,
té sem motivo lhe apraz, entre os numes eternos, lançar-me
acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos.
Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela
reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.”
3) HAROLDO DE CAMPOS (editora ARX):
“… A ira o roendo à beira de suas naves rápidas,
sentava-se o Peleio Aquiles, pés-velozes,
nem a glória da ágora o atraía agora,
nem a guerra. Ficava ali, o coração
pisado, ansiando pelos gritos de combate.
Mas assim que surgiu a aurora duodécima,
Os deuses sempiternos voltam para o Olimpo,
à frente deles, Zeus. E Tétis não esquece
o pedido do filho. Sai da onda marinha.
Qual bruma da manhã se eleva ao grande céu.
O Satúrneo, voz forte, encontra-o, separado
dos outros, no mais alto píncaro do Olimpo.
senta-se ao lado dele; abraça-lhe os joelhos
pela esquerda, e afaga-lhe o queixo à mão direita.
Suplica então a Zeus, soberano Satúrneo:
Zeus, pai, se alguma vez a ti, entre imortais,
com palavras e obras te ajudei, atende
o que te peço. Aquiles, o que-a-Moira-espreita,
meu filho, honra-o. Fez-lhe duro insulto o rei,
Agamêmnon: tomou-lhe o prêmio e goza o roubo.
Vinga-o, senhor do Olimpo, Zeus prudente, dá
força aos troianos contra os Aqueus, até que
as honras, que a meu filho devem, restituam.
Assim falou. E Zeus, cumulado de nuvens,
nada lhe respondeu. Assentado, calava-se.
Tétis, colado a seus joelhos, insistiu:
Promete-me, Infalível, ou recusa-me algo.
Não conheces o medo. Sim ou não, acena-me
que eu saiba quanto sou desonrada entre os deuses.
Cumulado de nuvens, Zeus responde aflito:
Funesto assunto!Vai-me inimizar com Hdera,
quando me irrite e afronte com palavras duras.
Ela, entre os imortais, sempre me acusa, injusta,
de ajudar no combate aos guerreiros troianos.
Afasta-te, daqui, agora. Que Hera nada
perceba. Cabe a mim dar às coisas seu rumo…”







