Conto de Adilson Zambaldi publicado na edição de outono-inverno da revista fina

Imagem: pintura de Jean Baptiste Camille Corot (French, 1796-1875)

Tronco de Canoa I

Recolhe a rede e fecha a janela, antes que embarace tudo. Anda. Sentiu o ar quente? A mata está inquieta. É um noroeste. O último tronco caiu depois da rajada de raio. Agora essa ventania. Tomara que caia um guapuruvu. Apodrece rápido, mas quando não dá de apodrecer por dentro, o veio é de uma perfeição só. Aí fica mais fácil de talhar e trazer na amarra. Da última vez, a licença para canoar o tronco levou mais de ano. É logo que isso tudo acaba. Já nem fazem mais canoeiros. Já nem crescem mais árvores. O que tem, tem. Eu já dei o que tinha que dar. A talha está ficando difícil, o enxó já não cavouca direito. A última canoa, boca de setenta, levei mais de mês para fazer. Ficou aprumada que era um deslize só na água. Pintei de azul e branco. Tradição de canoeiro, todo ano lá na Festa de São Pedro. Pesca que é bom, nada. Mas a festa, a gente faz. Na última, os meninos pintaram um remo bonito para mim. Disseram que eu era artista também. Vê só. Ouviu? Veio lá de trás da jaqueira. Pelo estrondo, deve ter sido um ingá flecha. E se o meu ouvido ainda estiver bom, foi beirando a trilha da desova.

Tronco de Canoa II

Ademar passou mais de seis horas flutuando entre os plânctons. Ademar caiu do barco de pesca na madrugada e só foi encontrado com o sol formado no céu. Ademar não temeu a morte um minuto sequer, apenas lamentou a escolha do mar. Ademar sobreviveu ao naufrágio para acabar assim, afogado nas memórias. Em noite de lua, a lembrança da maré baixa e o corpo do seu filho enroscado nos mariscos. 

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Abolição sem terra, continua a escravidão. Em um quiosque quilombola, as saíras-sete-cores devoram as sobras do prato de cação servido aos turistas. O cação é tubarão enquanto está livre, ao mar. Uma vez capturado, se dá o nome de cação. Um eufemismo para o rito que realmente é devorar postas de tubarão com as mãos lambuzadas de gordura. As saíras-sete-cores, em debandada, retornarão amanhã, no mesmo horário, em busca de novas sobras.

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Excursão à Vila dos Pescadores é sempre festiva. E a chegada do ônibus escolar foi celebrada com doses generosas. Servida às escondidas, a cachaça de raiz é o elixir da valentia, âncora de marujo em mar revolto. Após algumas goladas, os meninos ficaram desinibidos e, diante dos mergulhadores mais experientes, não esconderam a surpresa. Os grandes caninos da caranha mais pareciam presas. Para amansar o perdigueiro de escamas foi preciso apenas um tiro de arpão, direto na cabeça. Sessenta quilos de agressividade amordaçados. A caranha tinha o peso dos meninos.

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Tronco de Canoa III

A sola do pé toda cozida. Já provou ensopado de gente? Pois é isso que se faz na Praia das Bicas, ensopado de gente. E não reclama do sal, do sol, do gosto da água do mar, que, quando mistura com a água do rio — Fazenda ou Picinguaba — deixa tudo salobre. Aí é só cozinhar o galo, o rabo e a pança toda nessa água quentinha que mais parece mijo. A natureza se mijou toda. Também, quem não se mija com esse calorão, depois de umas latinhas de cerveja. Mija, pode mijar. Ninguém vai perceber. E quando perceber, já vai ser tarde. O miolo todo cozido, ensopado de gente fresca. 

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A panapaná tinge a nascente que se despeja pela serra. Uns duzentos metros mar adentro, a borboleta azul se debate feito peixe em goela de gaivota. Nem tudo que se debate voa. Cem dias, foi o tempo que um navegador levou para cruzar o Atlântico num barco a remo. Entre céu e mar, a borboleta azul afundou na terceira ondulação.

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Manhã abafada e eles se contorcendo. Ora mais rápidos, ora mais lentos. Parecem um casal. Namorados? Não entendo de peixes. Caminhamos em direção aos dois. Eles, afogados em areia. Nós, sufocados pela ordem do dia. Devolvê-los à água? Jamais. A gente é do tipo que agoniza junto.

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Tronco de Canoa IV

Minutos depois da picada, da ardência, o veneno bateu e a noite desabou. Diante da minha vista escurecida, o morro barrigudo afundou. Mas logo apareceu, boiando ali na água. O morro virou peixe. Um peixe peludo que recitava o meu nome. E tantas outras palavras embrulhadas em notícias de jornais.  

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Um dinossauro, em seu milésimo banho de sol, não percebeu a garotinha com as mãos lambuzadas de protetor solar e suco de maracujá. Sempre tão astuto, o dinossauro, não percebeu o susto. Nem o estranhamento dos dragões, o engasgo do contador de histórias e o palito-bandeira no alto do castelo de areia. O dinossauro, em seu milésimo banho de sol, não havia se atentado aos farelos de biscoito, aos milhões e milhões de anos evolutivos dos vírus, das bactérias, e nem àquela mistura estranha de hidrogênio, oxigênio e cloreto de sódio. O dinossauro, em seu milésimo banho de sol, já não seria um lagarto de costeira. Não para a garotinha com as mãos lambuzadas de protetor solar e suco de maracujá.

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Somos cem homens. Biólogos, pescadores, bombeiros, jornalistas e curiosos. Somos cem homens em uma missão de resgate. Somos cem homens fortes e cansados. Passamos mais de dez horas sem avançar. A maré está agitada. As ondas quebram com força. Somos cem homens agonizando juntamente com a jubarte, no raso. 

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Tronco de Canoa V

Anda cara, rema, bora lá, cansou? Vai um gole? Como? Cachaça, você quer? Trouxe? Sim. Mas antes, diz aí. Diz aí o quê? Qual o meu nome? E isso importa? Mais do que a lua. Conversa rapaz, passa a garrafa. Só se você me beijar.

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Arraia é borboleta que nada, peixe que voa. Quando não bate as asas-nadadeiras fica quietinha no fundo de areia à espera da presa. Não à toa, o golpe rabo-de-arraia da capoeira é inspirado na letalidade dos ferrões da sua cauda. Mergulhando, eu vi uma arraia brincando com sua cria, elas pareciam jogar capoeira. 

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Para cada cais abandonado, remo à deriva. As redes seguem sem pescados. E os cardumes de caiçaras? Se diluem na multidão que se aglomera embaixo dos guarda-sóis coloridos em mais uma tarde ardida.  Troncos livres de canoas.