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| Fotografia da minha autoria |
«But I'm a sunflower, a little funny»
[pode conter spoilers]
O traço camaleónico do meio artístico é inspirador. Porque tem, em simultâneo, a capacidade de nos entreter e de nos proporcionar uma viagem reflexiva, levando-nos a questionar atitudes, crenças, comportamentos e problemas fraturantes do nosso quotidiano. Neste sentido, aprecio bastante um argumento que me desperte esse lado crítico. E que seja impulsionador de uma postura mais consciente.
Sierra Burgess is a Loser é uma adaptação moderna da peça Cyrano de Begerac. Esta comédia romântica aparenta ter uma premissa simples, uma vez que se centra na história de uma rapariga - Sierra - pouco popular, que não corresponde aos padrões de beleza impostos pela sociedade. Por oposição, encontraremos uma personagem - Veronica - que se encaixa em todos esses parâmetros, pois é bonita, interessante e conhecida por todos. Além disso, é a representação perfeita de um bullie, atormentando Sierra diariamente. Acrescentando um terceiro elemento - Jamie -, a vida encarregar-se-á de interligar os seus caminhos, colocando-as a colaborar num autêntico trabalho de equipa.
A estrutura de popularidade do liceu tem peso, sobretudo, por funcionar através de estereótipos e julgamentos. Porém, quando se combinam duas personalidades tão antagónicas, são impressionantes as semelhanças que podemos ter com alguém. Se, em vez de rejeitarmos e diminuirmos os outros por serem diferentes, nos predispusermos a conhecê-los, seremos surpreendidos. Porque, não tão raras vezes assim, a segurança que transmitimos não passa de uma farsa, escondendo-nos atrás dos mecanismos de defesa que nos fazem sentir indestrutíveis. Todos temos bagagens. Umas mais complicadas do que outras, é certo, mas todas válidas. Por isso, e para que não nos derrubem, utilizamos máscaras para nos protegermos. Nem sempre agimos do modo mais correto e respeitador - e há decisões que não têm justificação -, mas é tudo consequência do nosso contexto. Dos complexos que carregamos dentro do peito. E da própria pressão que exercermos - e exercem - sobre nós.
Esta história opõe a essência e a aparência. Mostra-nos a importância de sermos honestos connosco e com os demais. Explora a firmeza e a vulnerabilidade. E alerta para um perigo cada vez mais comum: o catfish [alguém que cria um perfil falso nas redes sociais, com o intuito de levar outra(s) pessoa(s) a apaixonar(em)-se]. Embora este golpe não tenha sido, de todo, intencional, a verdade é que adquire expressividade e proporções arriscadas, colocando duas questões em evidência: como é que se desfaz uma mentira, especialmente, quando já está tão desenvolvida? Como é que uma relação construída numa mentira pode prosperar? Envolvendo-nos em conflitos internos e dramas morais, a ação desenvolve-se por estradas sinuosas. E com paisagens agridoces.
Sierra Burgess is a Loser é sobre crescimento, aceitação e erros com os quais devemos aprender, para nos tornarmos melhores. Pautado por discussões, quebras de confiança, vingança, autoconhecimento e pelo verdadeiro valor da amizade, é um enredo que fomenta a certeza de que os fins podem não justificar os meios. E que destaca um facto que tendemos a esquecer: há muito de nós que os outros desconhecem, porque só equacionam o que os permitimos descobrir. Logo, é precipitado retirarmos conclusões a partir do que somos capazes de observar. Porque aquele retrato pode conter uma parte mínima da sua identidade.
OS PONTOS MENOS POSITIVOS
🎥 O final: Por ser demasiado célere. Sinto que alguns aspetos mereciam ser mais aprofundados, até para espelhar melhor a mensagem.
🎥 O pedido de desculpas de Sierra: Face ao seu comportamento - que, em parte, ajuda a esclarecer que as pessoas não são apenas boas ou más -, este pedido deveria ter tido outra dimensão. Porque estamos perante um caso de humilhação deliberada e de uma mentira muito cruel;
🎥 Quando Sierra se esquece de quem é: tendo atitudes questionáveis, que a desviam da sua essência cativante. E tão mais bonita.
OS PONTOS ALTOS DO FILME
🎥 A amizade entre Verónica e Sierra: Embora fosse expectável que o romance com Jamie ocupasse um lugar de destaque [tinha tudo para isso], acredito que é a ligação entre as protagonistas que tem maior impacto. Porque há um grau de partilha e de vulnerabilidade que as permite conhecerem-se verdadeiramente e perceberem que só os preconceitos as impedem de serem mais próximas. Quando os derrubam, aceitando-se, a amizade que constroem torna-se mesmo inspiradora;
🎥 Amor próprio: Em qualquer outro argumento, muito provavelmente, assistiríamos a uma transformação física por parte de Sierra, só porque se apaixona por um rapaz bonito e pretende ser correspondida. Mas, para mim, uma das maiores qualidades deste filme é não vermos isso a acontecer. Porque ela não procura mudar para caber nos padrões da sociedade - além disso, percebe que Jamie se apaixona pelas suas palavras e não pela sua aparência. Como seria de esperar, notam-se as suas inseguranças e os seus complexos - tanto que acaba por alimentar uma mentira -, mas não vai tentar corresponder a uma imagem estereotipada. Até porque o mais importante é a sua forma de ser;
🎥 Sunflower: Esta música, que aparece na parte final, é lindíssima. Não só pela melodia, não só pela letra, mas por ser a verdade que nem sempre conseguimos partilhar. Porque nos expõe por inteiro.
Sierra Burgess is a Loser pode não ser uma obra de arte, mas transborda mensagens imprescindíveis, inspirando belas metamorfoses.
