Os pontos nem tão finais
literatura, morte, arte, memória, esperança, filosofia
Às vezes, os pontos finais são caprichosos: eles se impõem com a força daquilo que é inexorável, encerrando a frase de forma contundente. Enganam-se aqueles que imaginam que o autor tem controle sobre os pontos ou pode transformá-los em outros sinais de acentuação. Quando uma frase diz que deseja morrer, cabe-nos deixar atingir o seu fim, sabendo que, em seguida, ela ressuscitará em um novo formato. E, assim, a literatura vira um eterno exercício de esperança, com frases que morrem e ressuscitam, uma após a outra. O mesmo acontece com qualquer forma de arte, esta maneira de tentarmos nos convencer de que somos infinitos. Neruda disse que caminhamos sobre o pó dos milhões de vidas que nos antecederam, o que transforma a Terra em uma sucessão infinita de cemitérios. Caminhamos sobre mortos. É um pensamento desesperador: hoje caminhamos, amanhã estarão passando sobre nossos restos. Somos pontos finais, esperando a caneta vir cortar a história, às vezes incompleta, às vezes longa demais. A Alexandra, do blog “Cinderela Descaída” (http://cindereladescaida.blogspot.com.br/), mandou-me este vídeo arrepiante: Existe muita sutileza na mensagem. O pianista tocando o “Noturno n. 20” de Chopin pela última vez na rádio e, depois da invasão nazista, o mesmo pianista tocando a mesma música para reabrir a rádio. A certeza de que a arte pode suplantar o horror e suspendê-lo. No entanto, não é mais o mesmo homem: Wladyslaw Szpilman perdeu a fé, seu olhar é vazio. Na primeira vez em que a música foi tocada, ela era um desejo de esperança; na segunda, ela chora os mortos e a carga deixada para os vivos, a recordação. O Noturno anuncia tanto o período de trevas quanto o retorno do sol. São peças geralmente melancólicas, apesar de expressivas e fortes no seu lirismo sutil. Da mesma forma que o homem, a música é igual, mas mudou. Ela carrega cicatrizes consigo. O horror se entranhou nela e a desconfigurou. Os porta retratos sobre o piano são dolorosos: lembram a morte, a música é para as fotos emudecidas. A música sobrevive, as pessoas não. Existe algo doce em tentar vencer a morte. É uma batalha fadada ao insucesso, mas a tentativa é mais bonita do que a vitória. O ponto final é a morte da frase. Mas, se forem agregados mais dois pontos, ele deixa de ser final e vira reticências, uma pausa no Tempo. O desejo de que o mundo pare. A vontade de ser um pouco mais do que poeira nas sandálias alheias. ppp Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
Texto originalmente publicado em Homem Despedaçado