Os Testamentos Traídos | Milan Kundera
Uma reflexão sobre o século XX agitando demónios muito particulares, vê-los interagir entre si, como se o autor dependesse das suas respostas e não fosse ele próprio o seu motor. Isto de demónios, cada um tem os seus. Para Milan Kundera, são a pureza da conceção que cada autor imprimiu à sua obra, seja ela literária ou musical, lançando no debate se a estética atual pode descontextualizar uma obra?
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Pertence a obra literária ao leitor como tantas vezes se lê por aí? Ou o leitor (ou amante de música), se vê na contingência de caminhar ao encontro da criação particular do seu autor? Qualquer interpretação será sempre uma armadilha? Devemos profanar o Templo e dessacralizar o autor? O que o inspira? Ou quem? Como na dúvida de Maomé, quem lhe “soprou” os versículos? Deus ou o diabo?
É sobre esta a luz de meditação que o autor revisita Kafka, Stravinsky, Bach, Hemingway, entre outros. Como pode, dois séculos depois da sua morte, emergir a obra do compositor Bach como uma paisagem iluminada? Uma dissonância que se extingue ao abrigo de gerações futuras? Em que extraordinárias encruzilhadas se esconde o génio criativo para escolher o seu tempo de revelação? O motivo melódico e primitivo perpetuamente repetido também assombra a estrutura da literatura. Só encontramos arte onde a arte foi banida, só aí surge o verdadeiramente inédito, esse é o mantra do génio criativo. Ao amante da arte pede-se que entre na geografia da imaginação criativa e se transforme em vagabundo imerso num mundo de opções.
O tradutor não deve ignorar que a descrição de uma cena pode fixar uma atmosfera e aí despontar toda a riqueza do pensamento de um personagem. Ao tradutor pede-se que respeite o despojamento de vocabulário onde o autor exprimiu essa intenção. Nada existe de mais perigoso do que um tradutor com apetência por metáforas líricas ou de descrição visual, alterando a estética original que bem pode pertencer ao domínio existencial, transformando-a em algo banal.
Em registo autobiográfico, Milan Kundera, revisita referências onde encontra refletida a sua própria experiência, por vezes numa transcrição lúdica. Não se trata de uma visita guiada ao panorama cultural do século XX, ordenada, arrumada de uma forma temática ou por ordem alfabética, mas de um convite à entropia, à insatisfação, um despertar contra o consumo passivo ou acrítico da riqueza de uma delibação cultural.
O impressionismo: a paisagem concebida como simples fenómeno ótico, de tal maneira que o homem que se encontre nela não tenha mais valor do que um arbusto.
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