Manuel Ferreira (1917-1992), Hora di Bai (1962; presente edição, 2.ª, revista, 1963).

Capa de João da Câmara Leme (1930-1983).

A primeira edição desta obra de Manuel Ferreira já havia sido aqui abordada há dezasseis anos, precisamente a 22 de Fevereiro de 2010.

Após o anunciado encerramento do SAPO Blogs, nada mais adequado do que nova evocação da Hora di Bai, com toda a tristeza e amargura que a expressão pode encerrar.

Porque o SAPO eliminará todos e quaisquer registos e conteúdos dos seus blogs no espaço digital, a partir de Novembro de 2026, a perda inexorável da memória colectiva que este espaço representa afigura-se como um inqualificável atentado ao património imaterial, pelo que a Literatura Colonial Portuguesa migrará para novo espaço, ainda a anunciar, com a chegada da Primavera.

Uma vez que anteriormente já se apresentaram notas biobliográficas sobre o autor e, no referido artigo, foram feitos alguns comentários sobre esta obra, galardoada com o prémio Ricardo Malheiros de 1963, apenas se transcrevem, agora, alguns parágrafos do capítulo 26:

"Chico Afonso tinha desembarcado. E quando ele desembarcava, ei-lo a figura central do bairro das Salinas. Ele e o seu violão. Ele, o seu violão e as mornas que cantava e vibravam nos acordes do violão, tão sentidas, tão cheias de morabeza, que a si mesmo perguntava como isso lhe acontecera assim de um momento para o outro. E não só junto de Xandinha que o achava mais amorável do que nunca. Morna tocada por Chico Afonso era um fruto maduro desfazendo-se na boca.

Fizera-se homem de um momento para o outro, a barba semeava-se cerrada e certinha e a expressão ganhava uma vivacidade doce, doce e terna, com alguma coisa de magoado, sobretudo quando dedilhava o violão. Estava uma bela figura de rapaz. Ágil e desempenado, até o jeitinho malandro dos seus modos o tornava mais camarada e mais querido das mulheres.

Chegou Chico Afonso e, ala!, a aproveitar o tempo em São Vicente, antes que o veleiro partisse de novo, desta feita não sabia ainda para onde. De dia para dia, as coisas modificavam-se e o capitão não tinha já bem na mão o destino do barco. Fazia uns planos em alto mar, chegava a terra e o Administrador ou o Presidente da Câmara vinha para ele com meias palavrinhas, capitão estava à sua espera, tem que nos desenrascar, você sabe, é a nossa crise, etc., etc., e nhô Francisco Morais que havia de fazer?

O capitão às vezes lamentava-se e, de si para si, insurgia-se contra todos. Ninguém se entendia. A estiagem punha tudo em desordem – confessava ele ao Chico Afonso. Os homens com responsabilidades não estavam à altura delas. Que ele, Fonseca Morais, qualquer dia abondonava o seu posto em Cabo Verde e metia em direcção à América. Simples desabafo de homem que lutava por não se acomodar à balbúrdia?

A verdade é que um dia nhô Fonseca Morais ia perdendo a cabeça. Aportou à ilha do Sal no propósito de um carregamento. Chegara com tempo bom, viagem sem preocupações, o vento sempre de feição e com vagar e ânimo para a biografia do seu parente. Há tanto tempo não ia à ilha do Sal que esta viagem dava-lhe redobrado encantamento. Numa das suas buscas a velhos alfarrábios, tinha lido, há meses, que, milhares de anos antes de os portugueses demandarem Cabo Verde, por ali haviam passado, e até desembarcado, outros povos da antiguidade, gregos, berberes, eu sei lá. Tudo isso, porém, boiava no mar das hipóteses. Podia até ser inventiva dos livros. E embora imaginoso, chamara a si esta regra: o que não se podia provar cientìficamente não se devia afirmar com foros de garantia. Mais recentemente, contudo, um sábio português, demitido da Universidade de Lisboa, de passagem por Cabo Verde, a caminho do Brasil, onde ia reger a cadeira de História na Universidade de São Paulo, confessara-lhe, numa reunião no Grémio, em honra do visitante, terem as ilhas do Sal e Boavista sido habitadas, há alguns séculos, por povos primitivos oriundos da costa africana. E o professor português garantia o facto baseado em documentos históricos árabes. E desde então nhô Fonseca Morais ficara ansioso por ir, uma vez mais, ao Sal, ver, ver com novos olhos, aquelas terras onde, há séculos, gente primitiva, selvagem, habitara em palhoças rudimentares, entregues ao silêncio da ilha."

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