Editor ganha biografia caudalosa para celebrar 50 anos dedicado aos livros

Marcello Rollemberg

JORNAL DA USP – O leitor já ouviu falar em Pium? Sabe onde fica? Pois bem: essa minúscula cidade, habitada por cerca de 8 mil almas, foi fundada nos anos 1950 no Estado de Goiás e, com a criação do Tocantins, passou a fazer parte do novo Estado. Às margens do Rio Araguaia e com sua economia ainda assentada na agropecuária, Pium pode ser um ponto perdido no mapa como milhares de cidadezinhas brasileiras, que ninguém se preocupa em procurar a localização – e se tentar, vai ter um trabalho e tanto. Contudo, ela tem, sim, sua relevância – não por questões geográficas ou econômicas. Pium está no mapa editorial brasileiro porque foi lá, há exatos 72 anos, que nasceu um dos mais importantes editores do País: Plinio Martins Filho, o menino que dividia com os irmãos a comida colocada em uma bacia por sua mãe, o jovem que veio para São Paulo, se formou em Psicologia – sem nunca ter exercido a profissão – e criou uma carreira de sucesso de mais de meio século como editor. Primeiro, no aprendizado na editora Perspectiva, do crítico teatral e professor da USP Jacó Guinsburg. Depois, com o caminho pavimentado, em décadas de atividade na Editora da USP, a Edusp (inicialmente a convite do professor João Alexandre Barbosa, presidente da editora em finais dos anos 1980, seguindo em voo solo), passando pela criação de sua Ateliê Editorial e assumindo também as publicações da BBM, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP.

É essa história que começa no interior profundo do Brasil e vai acabar ganhando o mundo que é contada no livro Plinio Martins Filho, editor de seu tempo, do jornalista Ulisses Capozzoli (WMF Editora), que será lançado neste sábado, dia 24, a partir das 11h, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509). Uma biografia, diga-se, mais do que merecida e que comemora justamente o cinquentenário de Plinio como editor. E uma informação adicional: quando se falou aqui em “ganhar o mundo”, não é mera retórica ou frase de efeito. Plinio Martins acaba de ter seu trabalho como editor universitário reconhecido com o Prêmio Rubén Bonifaz Nuño, concedido pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). O prêmio – que leva o nome de um histórico professor da Unam, apaixonado pela palavra e incentivador da cultura editorial – homenageia justamente personalidades que têm destacada trajetória editorial universitária na Ibero-América. Este ano é Plinio Martins Filho, que receberá sua medalha de prata em finais de agosto na Cidade do México.

Mas voltemos à biografia. Nas 350 páginas do volume, Capozzoli conta a trajetória de vida e o percurso profissional de Plinio em uma prosa que resvala no poético mas que, antes de mais nada, deve ser lida como instigante história de vida, com seus percalços, vitórias e casos inusitados – aquele material, como disse certa vez o bardo inglês, de que os sonhos são feitos. E Plinio, na casa dos 20 anos de idade, na Perspectiva, começou a sonhar com livros – e nunca mais parou. Ganhou mais de 80 prêmios Jabuti para a Edusp – a mais importante premiação literária do Brasil –, tendo publicado muito mais de 1.000 títulos na editora da Universidade.

Uma história do mercado editorial

O que reveste a obra de Capozzoli de importância adicional é que ela não se restringe à vida de seu biografado – por si só já interessante o suficiente para prender o leitor e levá-lo a seguir adiante, página após página, para conhecer mais sobre Plinio Martins Filho. O jornalista e biógrafo vai além. Ao ter Plinio como objeto de sua pesquisa e de sua biografia, ele também traça um bem apanhado retrato das evoluções pelas quais o mercado editorial brasileiro passou, abordando as profundas transformações tecnológicas que impulsionariam a produção editorial nacional e internacional nas últimas décadas.

“Com rigor, Capozzoli dá conta das profundas transformações tecnológicas que impulsionariam a produção editorial, mas também das metamorfoses históricas mais amplas, quer no plano internacional, quer no nacional. Contudo, o rigor e a precisão do conteúdo são reforçados pela forma. Esta é elaborada com sensibilidade estilística. A narrativa rigorosa reveste-se de sabor, por exemplo nas reminiscências de infância de Plinio, ou na comovente sede de saber que eleva o jovem, de auxiliar de estoque à condição de revisor, diretor editorial e presidente da Edusp”, ressalta o professor De Paula, fazendo também uma alusão a editores históricos brasileiros que surgem nas páginas da biografia e cujas carreiras marcaram profundamente a história do livro no Brasil, desde Paula Brito (1809-1861) até Jacó Guinsburg (1921-2018), passando por Monteiro Lobato (1882-1948), Octalles Marcondes Ferreira (1899-1972), José Olympio (1902-1990), Ênio Silveira (1925-1996) e Jorge Zahar (1920-1998), entre outros.

Fazendo livros e amigos

Se a biografia que Capozzoli escreveu sobre Plinio Martins Filho se debruça, em grande parte, no labor editorial do biografado, na sua longa carreira fazendo e criando (muitos e bons) livros, ele não perde nunca de vista o humano que existe por trás de toda essa trajetória. Na verdade, é o humano, é a pessoa que Plinio Martins Filho é que possibilitou chegar a um panteão editorial ocupado por nomes robustos e históricos. Plinio fez e faz livros, mas também fez e faz amigos e os conserva como em encadernações do mais puro e reluzente couro. Sua fala mansa, tranquila – ainda resquícios do menino que corria descalço em Pium – é uma característica marcante, assim como seu senso de humor, além, é claro, de seu amor irrefreável pelos livros. Assim, sempre se cercou de bons amigos, amigos de longa data que partilharam e partilham com ele o prazer de ver estantes coalhadas de ideias e paixões encadernadas. Não à toa, o título que encabeça este texto também é uma homenagem a dois de seus grandes amigos: José Mindlin (autor de uma autobiografia justamente intitulada Uma vida entre livros) e João Alexandre Barbosa (autor de um belo livro de ensaios literários chamado Entrelivros). São pessoas queridas que, ao lado de outros saudosos como Ivan Teixeira e Jacó Guinsburg – para ficarmos apenas nestes – têm um lugar privilegiado na memória afetiva do biografado.

Pode-se dizer que Plinio Martins Filho vive uma vida entre livros – e tanto a biografia de Capozzoli quanto seu cotidiano bem demonstram isso. Sua biblioteca, erguida ao lado de sua bela casa na estrada da Aldeia de Carapicuíba – ali, quase às margens da rodovia Raposo Tavares –, é um refúgio mas também é um lugar para receber os mais chegados, bebericar uma taça de vinho tinto e prosear, como se prosea ao pé do fogo em uma fazenda. E disso Plinio também entende muito bem – e Ulisses Capozzoli faz questão de reforçar em seu texto, já que ele viajou até Pium, conheceu parentes, andou na terra batida do interior do Tocantins – mas também percorreu bibliotecas, academias, entrevistou intelectuais. Ele submergiu na vida de Plinio – como deve fazer todo biógrafo que se preze – e voltou com um retrato completo do seu personagem biográfico. 

“O menino que saiu de Pium, crescido em meio à natureza agreste, reproduz o ambiente algo rural, ao lado da maior megalópole nacional. Um espaço quase rural, acompanhado de uma biblioteca, o paraíso de um homem com amor pelos livros”, escreve Capozzoli no parágrafo final de seu trabalho, deixando a voz tranquila de Plinio finalizar com uma reflexão quase minimalista. “No que foi uma última frase, na captação de memórias para esta biografia, sentado em um banco de madeira, percorrendo com os olhos o espaço do entorno, Plinio Martins Filho parafraseou Cícero para dizer: ‘A mim, bastam meus livros e meu jardim.’”

Plinio Martins Filho, editor de seu tempo, de Ulisses Capozzoli, Editora WMF, 350 páginas

IMAGENS: Cecília Bastos/USP Imagens